Portugal já viveu este ano 59 dias de calor extremo. Ou seja, mais de um mês e meio de temperaturas elevadas para a época. E, segundo o Instituto Português do Ar e da Atmosfera (IPMA), o país entra nesta quinta-feira, dia 2, na sexta onda de calor de 2026, com os termómetros a ultrapassar os 40.ºC em muitas regiões do país, durante oito a dez dias. Lisboa e Setúbal são dois dos distritos que vão estar em alerta vermelho nos próximos dias. Os alertas por parte das autoridades da Saúde, ambientais e proteção civil têm-se multiplicado, até porque uma das consequências mais devastadoras do calor é o aumento da mortalidade. Numa conferência de imprensa realizada esta quarta-feira (1 de julho) pelo Ministério da Saúde, em Lisboa, para anunciar um conjunto de medidas para combater a onda de calor, a secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, relembrou que “os períodos de calor extremo podem associar-se a um aumento da procura dos cuidados de saúde e infelizmente a um aumento da mortalidade, sobretudo entre os grupos mais vulneráveis”. Aliás, a governante destacou que esta tem sido a realidade “observada em diversos países europeus na última semana”, assumindo que “as estimativas nacionais atualmente disponíveis baseadas no índice Ícaro, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), também apontam para um potencial aumento da mortalidade nos próximos dias, caso se mantenham as condições meteorológicas previstas”.Esta é a situação que mais preocupa quem está no terreno a ter de lidar com a resposta do Serviço Nacional de Saúde (SNS) aos efeitos do calor. Ao DN, o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH), Xavier Barreto, reconhece que todas as medidas tomadas pela Saúde ou pela comunidade, nomeadamente pelos municípios, para proteger a população em geral e os mais vulneráveis do calor extremos, são “bem vindas”, mas, alerta, “se a procura de cuidados for muito elevada, tal como aconteceu nas últimas semanas em França e na Alemanha, teremos um problema sério, porque não haverá camas suficientes para acolher estes doentes”. Por isto, os administradores pedem, mais uma vez, “a resolução urgente para os internamentos inadequados, ou se quisermos internamentos sociais, cuja responsabilidade é mais da Segurança Social do que da Saúde”. O administrador recorda mesmo que, “em França, nas últimas semanas, houve hospitais que registaram um aumento de 50% na procura de cuidados, e aos quais foi difícil de dar resposta por não haver camas para internamento, devido aos casos sociais” - recorde-se que muito recentemente a própria APAH divulgou haver no SNS 2807 camas ocupadas com doentes sociais, sem resposta na segurança social, o que representa um agravamento de 19% face ao ano anterior.Segundo Xavier Barreto, até agora, “ainda não se conseguiu resolver a maioria destes casos”, que podem “complicar, e muito, a resposta do SNS aos utentes que necessitarem de cuidados devido à onda de calor”. Até porque, destaca, “mais importante do que as altas temperaturas é o tempo que estas vão durar. Se atingirem quase duas semanas, e sem períodos de arrefecimento tanto de dia como de noite, há muitos doentes crónicos que, certamente, irão descompensar e que terão de receber cuidados nos hospitais ou nos centros de saúde”. Atividade programada pode ter de ser suspensaO representante dos administradores dos hospitais defende ao DN que “os hospitais vão certamente fazer o que for necessário, mas é muito difícil garantir que estão todos preparados, porque também é muito difícil prever com rigor aquilo que vai acontecer. Todos têm as suas fragilidades e, neste momento, já foi ativado o nível 1 de alerta, e é preciso procurar reforçar as equipas, particularmente nos serviços de urgência de locais onde a onda de calor será mais crítica e se a situação se agudizar será mesmo preciso suspender a atividade programada para se conseguir responder aos utentes”. O administrador sustenta que o objetivo “não é alarmar a população”, mas também “não se pode desvalorizar o que aí pode vir”. Na conferência de imprensa de ontem, as posições assumidas tanto pela secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, como do diretor executivo, Álvaro Almeida, foi no sentido de que o SNS está preparado para responder. Ana Povo disse mesmo que “o país e, em particular, o Ministério da Saúde, dispõe de um Plano Nacional de Preparação e Resposta Sazonal em Saúde, que permite acompanhar a evolução do risco e garantir uma vigilância contínua e sistemática através da monitorização de indicadores meteorológicos, epidemiológicos e assistenciais. Prevê ainda diferentes níveis de contingência e um conjunto de medidas graduais de preparação e resposta, que vão sendo ativadas de acordo com a evolução da situação”. Ao DN, Xavier Barreto confirma ser assim que funciona qualquer plano de contingência, para o calor ou para o frio. “À medida que a situação vai evoluindo, a procura aumenta e as necessidades de cuidados também, e os hospitais vão aumentando o seu nível de alerta para 2 ou para 3, de acordo com o plano de contingência, mas, como digo, tal terá de levar a outras decisões com implicações nos doentes, nomeadamente o cancelamento da atividade programada de forma a que o hospital tenha mais capacidade para responder à procura que está a ter. Portanto, os hospitais responderão a esta crise de forma muito semelhante à que respondem a outras crises em que é esperada uma grande procura”. O vice-presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), António Ferreira Luz, também confirma que o plano de contingência de resposta a esta época sazonal já está ativados nos cuidados primários, mas que isto implica também “a reorganização da atividade programada para outros períodos”. Precisamente porque “os recursos são os mesmos de sempre e o que podemos fazer é reorganizar as equipas de forma a dar resposta àquilo que são as necessidades mais prementes, o que implica reagendar doentes não urgentes para outros momentos”, sobretudo nas unidades em que os recursos humanos são mais escassos. No entanto, o médico de família concorda que, em épocas de calor extremos ou de frio, a comunidade e a população têm um papel a desempenhar, sobretudo no que toca à sua proteção individual. “Devem cumprir as regras recomendadas pela DGS, sobretudo os doentes crónicos, porque estes correm sempre o risco de descompensar”. O presidente da APAH, embora assuma não ter ouvido a conferência de imprensa do ministério na totalidade, reconhece que algumas das medidas, como o envolvimento dos municípios e da própria comunidade, população, famílias, amigos, vizinhos, no controlo e vigilância dos mais vulneráveis, “são boas”, porque, sustenta, “uma onda de calor não se combate nos serviços de saúde ou nos hospitais, mas a montante destes. Quando estes são pressionados com procura, é porque algo já falhou, nomeadamente regras de proteção ao calor através da hidratação, da alimentação, do uso de espaços climatizados, etc”. Aliás, na conferência, Ana Povo pediu mesmo às autarquias que criem espaços climatizados, que prolonguem horários de edifícios públicos, que mantenham contacto aproximado com os mais vulneráveis e que funcionem em articulação com as Unidades Locais de Saúde. À população, pediu que cumpram as regras de proteção. A diretora-geral da Saúde, Rita Sá Machado, fez o mesmo, lembrando que a DGS lançou nos últimos dias guias para proteção ao calor e de medidas para os municípios. Portugal vai entrar na sexta onda de calos este ano, mas já viveu outras, tendo sido a de julho-agosto de 2003, a mais prolongada e severa (17 dias) desde que há registos da frequência destes fenómenos no país, 1940.Europa. Numa semana calor fez 1300 mortesA 28 de junho, um dos meses mais quentes desde que há registos, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde fez um balanço da situação mundial: “Mais 1300 mortes adicionais desde o dia 21 de junho, relacionadas com as ondas de calor que se tem feito sentir na Europa”. Tedros Adhanom Ghebreyesus assinalou mesmo que o velho continente é o que regista o mais rápido aquecimento, duas vezes mais do que a média global. “Neste momento, 150 milhões de pessoas vivem sob calor extremo, centenas de pessoas morreram, as escolas estão fechadas e as redes elétricas estão a ser postas à prova”, alertando para o facto de este tipo de fenómeno estar a ocorrer todos os anos, quando antes era uma vez de geração em geração. E pediu aos Estados que preparem medidas de proteção para a população quer nos locais de trabalho como nas escolas e até em outras instituições. A onda de calor que agora chega a Portugal começou no Norte da Europa, tendo atingido temperaturas históricas, nomeadamente na Dinamarca (37°C), na Alemanha (41,5°C), República Checa (41,1°C). A sul, França foi o país mais afetado até agora, com regiões a atingir temperaturas acima dos 40.ºC e ao registar mais mil mortes, devido ao calor. .Onda de calor. Governo pede às autarquias e à população que ajudem os mais vulneráveis .Na rua, em casa ou no trabalho, o que fazer para se proteger do calor extremo que aí vem?