Depois de vários dias marcados por vento muito forte, chuva intensa e forte agitação marítima, o tempo em Portugal deverá conhecer um período de maior acalmia. Ainda assim, o Atlântico continua sob vigilância. “Os próximos dias vão ser mais calmos, mas já há duas novas carruagens que estão no Atlântico”, afirma o climatologista Carlos Câmara, referindo-se ao “comboio de depressões” que tem assolado o país. Segundo o especialista, “o seu efeito em Portugal não vai ser antes de domingo, mas os modelos mostram que há possibilidade de se terem ventos intensos”. A incerteza mantém-se e o aviso é claro: “Ainda é cedo para se saber ao certo, mas há que estar atento ao que aí vem.” As tempestades Ingrid, Joseph e Kristin que assolaram o país nos últimos dias inserem-se num contexto atmosférico que não é inaudito. Carlos Câmara sublinha que a perceção de excecionalidade resulta, em grande parte, da forma como os fenómenos recentes são lembrados. “A nossa memória meteorológica é curta e estamos mais marcados pelos episódios de secas severas que têm sido a marca dos últimos anos”, refere. Esta é a 5ª tempestade nomeada em janeiro de 2026, com 4 delas a terem impacto em Portugal. Em 2021 também se nomearam 5 tempestades em janeiro. Desvio da corrente de jato afeta Atlântico NorteEste inverno caracteriza-se por um desvio para sul da corrente de jato, um elemento-chave da dinâmica atmosférica. “A corrente de jato, como o nome indica, é uma região tubular de ar situada a mais de 10 km de altitude em que o vento é muito intenso (pode ultrapassar 300 km/h)”, explica. A sua importância é estrutural, uma vez que “é uma espécie de coluna vertebral da atmosfera, no sentido de que a sua posição e intensidade regula o movimento da atmosfera de grande escala”. .Veja as imagens dos efeitos da passagem da depressão Kristin.Quando a corrente de jato se desloca para sul, como aconteceu este inverno, o efeito é direto no Atlântico Norte. “Quando a corrente de jato se encontra deslocada para sul, favorece o percurso de depressões intensas no Atlântico, dirigindo-as para as latitudes da Península Ibérica”, explica o climatologista. Daí a sucessão de sistemas depressivos. “Este inverno pauta-se por comboios de depressões, isto é, sequências de depressões umas a seguir às outras.” Algumas dessas depressões destacaram-se pela sua intensidade. “Algumas destas depressões merecem ser batizadas (Ingrid, Joseph, Kristin), o que indica serem particularmente intensas.” A tempestade Kristin foi a mais violenta do conjunto. “A Kristin destacou-se pelo facto de ter um centro de baixas pressões particularmente baixo”, explica Carlos Câmara, esclarecendo que isso significa que “o vento que roda em torno desse centro (…) é particularmente intenso”. A situação agravou-se porque “a pressão no centro baixou muito rapidamente”, um fenómeno designado como “ciclogénese explosiva”. A este cenário juntou-se ainda outro fator decisivo. “Formou-se nessa depressão um ‘sting jet’, isto é, uma configuração que favorece rajadas de vento descendente com velocidades muito grandes e com impactos particularmente destrutivos.” No conjunto, resume, “trata-se daquilo a que é vulgar chamar um ‘cocktail explosivo’”. Alterações climáticas contribuem para fenómenos "mais energéticos"Sobre a ligação às alterações climáticas, Carlos Câmara distingue claramente os planos de análise. “Enquanto a meteorologia se preocupa com o estado do tempo e respeita a eventos isolados, a climatologia é uma ‘sociologia dos estados do tempo’ e preocupa-se com a organização dos diversos tipos de sistemas meteorológicos”, explica, salientando que esta abordagem se traduz em “valores de probabilidades de ocorrência de determinados eventos”. Nesse contexto, o papel da ação humana é relevante. “O aumento de concentração dos gases com efeitos de estufa (devido à ação do homem) implica uma alteração do balanço da radiação”, afirma, explicando que daí resulta “um aumento de energia armazenada na atmosfera”, o que torna “mais provável a ocorrência de fenómenos mais energéticos e, por isso, mais destrutivos”. No entanto, e apesar da violência dos episódios recentes, o climatologista deixa uma mensagem clara. “Invernos rigorosos são normais, fazem parte da variabilidade climática. Sempre existiram.".Autarca de Leiria fala em cenários semelhantes aos de uma guerra. Aumenta para cinco número de vítimas mortais