A Rua Pingjiang, em Suzhou, e os seus canais entrecruzados, outrora utilizados pelos barcos de transporte de cereais que entravam na cidade. Hoje são um destino de lazer para os habitantes locais e turistas.
A Rua Pingjiang, em Suzhou, e os seus canais entrecruzados, outrora utilizados pelos barcos de transporte de cereais que entravam na cidade. Hoje são um destino de lazer para os habitantes locais e turistas. FOTO: DR / Macao Daily News

Civilização em fluxo: o legado milenar do Grande Canal na Província de Jiangsu (II)

O Grande Canal entra no troço meridional do seu percurso em Jiangsu, após atravessar o imponente Rio Yangtzé. Situada a sul do curso inferior do rio, esta região é célebre, desde a Antiguidade, pela sua densa rede hidrográfica, pelo seu comércio próspero e por um estilo de vida requintado.
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Em contraste com o norte, atormentado pelas ameaças dos sedimentos do Rio Amarelo, Jiangnan é uma região de águas abundantes e correntes estáveis, permitindo uma relação muito mais próxima entre o homem e a água. As cidades desta região conseguiram transformar o canal, que até então era uma linha de abastecimento a defender com rigor, numa rede aquática onde se entrelaçam riqueza, cultura e estética de vida. O tema da história do canal desloca-se assim, face à Parte I, da “oposição” para a “simbiose”.

A primeira paragem desta viagem pelo troço meridional é Zhenjiang, que, em conjunto com Yangzhou, situada na margem oposta do rio, guarda a confluência do Yangtzé com o Grande Canal, constituindo uma passagem obrigatória e um ponto de concentração para o tráfego fluvial norte-sul após a travessia do rio. Logo a seguir, o canal flui para Changzhou, onde a facilidade das ligações fluviais não só favorecia o transporte de mercadorias, como também de livros e homens de letras. Ao longo da história, intelectuais de várias regiões chegaram a Changzhou pelo canal, levando à proliferação de academias e tornando a cidade um local de convergência de ideias e de talento.

Todavia, a função mais notável do troço meridional do canal reside no impulso à transformação económica, sendo em Wuxi que essa função se manifesta de forma mais evidente. A ascensão de Wuxi teve início no comércio tradicional: graças ao transporte fluvial de baixo custo, a cidade tornou-se um dos principais entrepostos de cereais e seda da região de Jiangnan, sendo conhecida como o “cais do arroz” e o “cais da seda”.

Contudo, a história conheceu uma viragem em finais do século XIX: os comerciantes e industriais de Wuxi estabeleceram ao longo do canal algumas das primeiras fábricas chinesas de farinha, de fiação e de seda, utilizando as vias navegáveis para receber matérias-primas e expedindo, em seguida, os produtos industriais para diversas regiões. O canal transformou-se, assim, de rota comercial tradicional na própria artéria da indústria moderna, fazendo de Wuxi um dos berços mais importantes da indústria e do comércio nacional da China contemporânea.

No atual bairro histórico da Ponte Qingming, o antigo canal, os velhos cais e as antigas fábricas coexistem ainda lado a lado, como um museu ao ar livre que regista esta profunda e significativa transição industrial.

Se Wuxi representa a evolução industrial impulsionada pelo canal, então o término desta viagem, Suzhou, representa a expressão máxima da civilização do canal no domínio da estética de vida. Suzhou não é uma cidade que “tem um canal”, mas sim uma cidade “construída sobre o canal”.

Durante as dinastias Tang e Song (618-1279), o canal nutriu a sua agricultura e a sua indústria têxtil, fazendo de Suzhou uma importante região produtora de cereais e seda. Contudo, a singularidade maior de Suzhou reside no modo como integrou plenamente o canal no seu traçado urbano e na sua vida quotidiana.

Intensamente iluminada, a zona junto à Ponte Qingming, em Wuxi, vê o Grande Canal fundir-se harmoniosamente com a paisagem noturna da cidade moderna, irradiando nova vitalidade.
Intensamente iluminada, a zona junto à Ponte Qingming, em Wuxi, vê o Grande Canal fundir-se harmoniosamente com a paisagem noturna da cidade moderna, irradiando nova vitalidade. FOTO: DR / Macao Daily News

Na cidade, os cursos de água correm paralelamente às ruas, pontes de pedra ligam as casas de chá das zonas mais movimentadas aos jardins privados, com as pessoas vivendo junto à água e os barcos atravessando a urbe.

A intrincada rede hidrográfica do Grande Canal no centro histórico de Suzhou, juntamente com os bairros históricos ribeirinhos, as pontes antigas e outros edifícios históricos, foi inscrita na Lista do Património Mundial como parte integrante do legado do “Grande Canal da China”.

Em Suzhou, o Grande Canal não é um curso de água isolado, mas sim a própria ossatura da vida urbana, uma profunda fusão entre transporte e quotidiano, entre funcionalidade e beleza.

A sustentar todo este engenho simbiótico estava uma tecnologia hidráulica avançada para a época. Os antigos inventaram um sistema de eclusas, que permitia regular o desnível da água através do encher e esvaziar de comportas, possibilitando às embarcações a navegação suave entre superfícies de água a diferentes alturas. O princípio hidráulico é semelhante ao das eclusas modernas do Canal do Panamá, mas aplicado com plena maturidade na China centenas de anos antes. Estas inovações hidráulicas, adaptadas às condições locais, permitiram que o canal de Jiangnan se mantivesse desimpedido durante longos períodos, perdurando até aos dias de hoje.

Atualmente, enquanto muitos troços do Grande Canal no norte da China se encontram já interrompidos por falta de água, o troço de Jiangsu permanece cheio de vitalidade. Não só mantém uma intensa atividade de transporte de mercadorias, como também integra harmoniosamente a ecologia, a cultura e a vida moderna. Desde a tenaz epopeia do controlo das águas no troço setentrional até à sábia e flexível gestão do troço meridional, este curso de água milenar revela diferentes facetas da relação entre o homem e a natureza, continuando, ainda hoje, a dar origem a novas histórias.

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