O Vaticano anunciou, na manhã desta quinta-feira (2 de junho), a excomunhão dos seis bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X e de todos os elementos que praticaram "um ato cismático contra a Igreja Católica". Este grupo foi fundado em 1970 por Marcel Lefebvre, como reação às conclusões do concílio Vaticano II, tais como o fim das missas em latim e a missa a ser dada com o sacerdote de frente para os fiéis. “Eles defendem uma posição da mulher muito mais subalterna e menos implicada na estrutura da Igreja”, explicou o professor e especialista religioso Paulo Mendes Pinto ao Diário de Notícias, acrescentando que os lefebvristas (assim conhecidos devido ao apelido do seu fundador) acham “completamente proibido” o “processo de diálogo inter-religioso” iniciado nesse período.Porque é que ocorreu esta excomunhão?A decisão da Fraternidade de ordenar quatro novos bispos, numa cerimónia que teve lugar na quarta-feira (1 de julho) na localidade suíça de Ecône, não teve o aval necessário da hierarquia da Igreja Católica, nomeadamente do próprio papa Leão XIV.O pontífice tinha escrito mesmo uma carta com um apelo pessoal aos membros da Fraternidade para que parassemo processo e não ordenassem estes quatro novos bispos. “Cheio de afeto cristão, imploro-vos e peço-vos do fundo do coração: voltem atrás”, escreveu Leão XIV numa missiva enviada.Paulo Mendes Pinto destaca que, para além das discordâncias ao nível das ideias para a Igreja, também se trata aqui de uma “questão formal” de desrespeito da hierarquia.“A ordenação de um bispo é uma prerrogativa do papa e tem que ser assinada por ele. E o papa não deu essa autorização. Portanto, há um desrespeito de uma posição do papa”, contou, sublinhando que, de acordo com as declarações dos seus líderes, a fraternidade acredita que "eles é que estão a defender a postura correta da Igreja Católica”. “Portanto, para eles, o cismático é o papa”, acrescentou. “De facto, estão convencidos, pelo argumentário que têm e pela forma como vivem a Igreja Católica, que eles é que estão certos e quem está a destruir a Igreja Católica é o papa”..O grupo que quer manter a missa em latim e outras práticas anteriores a 1962. É a primeira vez que acontece?Não, vários membros da Fraternidade já estiveram excomungados devido a uma situação em tudo semelhante à que ocorreu esta quarta-feira. Em 1988, quatro bispos foram consagrados em Ecône sem autorização e explicitamente contra a vontade do então papa João Paulo II.Todos os envolvidos na cerimónia foram então excomungados por João Paulo II, abrindo uma ferida com o Vaticano que nunca chegou bem a ser curada. A maior tentativa de reconciliação foi tomada por Bento XVI, quando, em 2009, retirou as excomunhões feitas aos bispos envolvidos nesse ato como forma de tentar restaurar a comunhão completa da Fraternidade com o Vaticano, algo que nunca se concretizou.Que impacto pode ter a quebra total com este grupo para a Igreja Católica?No total, a Fraternidade Sacerdotal Dom Pio X tem 1.500 membros consagrados, incluindo mais de 700 sacerdotes e 250 freiras. Já em termos de fiéis que seguem os ensinamentos deste grupo, serão à volta de cem mil seguidores, 800 em Portugal.Apesar destes números, Paulo Mendes Pinto afirma que, “demograficamente e dentro da escala da Igreja Católica, é um grupo com peso muito reduzido”. Porém, conta que há um outro nível de poder que este grupo e várias outras fações mais conservadoras da Igreja Católica têm.“São cada vez mais grupos que, social e economicamente, são bem posicionados nos seus países e, portanto, têm um poder, não é demográfico, mas é social e económico”, disse, acrescentando que será “interessante” entender como é que as outras fações mais conservadoras se vão posicionar.“Se vão ter coragem e irão seguir a posição deste grupo e irão criticar o papa, ou se vão ficar numa posição mais ou menos apagada, não afrontando o papa”, especifica o professor, notando que, ainda assim, estes grupos continuam a ter “uma ligação de obediência” ao pontífice.E, para o investigador, um destes grupos cuja reação se espera é a Opus Dei, onde “haverá muita gente que defende posições eventualmente próximas” da Sociedade Pio X, notando que, apesar de a Opus Dei ter uma relação demasiado próxima com o Vaticano para haver “uma situação de rutura como esta”, poderá “haver alguns quadros de discordância”..Membros da Fraternidade São Pio X excomungados pelo Vaticano.Núncio apostólico em Portugal: “Não tem sentido que um grupinho pretenda ser dono da verdade”