O movimento fundado por Lefebvre conta com 100 mil fiéis.
O movimento fundado por Lefebvre conta com 100 mil fiéis.Foto: D.R.

Cisma na Igreja Católica. Porque é que a Fraternidade Sacerdotal Pio X foi excomungada pelo Vaticano?

Grupo ultratradicionalista ordenou quatro bispos contra a vontade do papa Leão XIV. Conflito com o Vaticano não é novo, mas excomunhão cimenta a quebra.
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O Vaticano anunciou, na manhã desta quinta-feira (2 de junho), a excomunhão dos seis bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X e de todos os elementos que praticaram "um ato cismático contra a Igreja Católica".

Este grupo foi fundado em 1970 por Marcel Lefebvre, como reação às conclusões do concílio Vaticano II, tais como o fim das missas em latim e a missa a ser dada com o sacerdote de frente para os fiéis. 

“Eles defendem uma posição da mulher muito mais subalterna e menos implicada na estrutura da Igreja”, explicou o professor e especialista religioso Paulo Mendes Pinto ao Diário de Notícias, acrescentando que os lefebvristas (assim conhecidos devido ao apelido do seu fundador) acham “completamente proibido” o “processo de diálogo inter-religioso” iniciado nesse período.

Porque é que ocorreu esta excomunhão?

A decisão da Fraternidade de ordenar quatro novos bispos, numa cerimónia que teve lugar na quarta-feira (1 de julho) na localidade suíça de Ecône, não teve o aval necessário da hierarquia da Igreja Católica, nomeadamente do próprio papa Leão XIV.

O pontífice tinha escrito mesmo uma carta com um apelo pessoal aos membros da Fraternidade para que parassemo processo e não ordenassem estes quatro novos bispos. “Cheio de afeto cristão, imploro-vos e peço-vos do fundo do coração: voltem atrás”, escreveu Leão XIV numa missiva enviada.

Paulo Mendes Pinto destaca que, para além das discordâncias ao nível das ideias para a Igreja, também se trata aqui de uma “questão formal” de desrespeito da hierarquia.

“A ordenação de um bispo é uma prerrogativa do papa e tem que ser assinada por ele. E o papa não deu essa autorização. Portanto, há um desrespeito de uma posição do papa”, contou, sublinhando que, de acordo com as declarações dos seus líderes, a fraternidade acredita que "eles é que estão a defender a postura correta da Igreja Católica”. 

“Portanto, para eles, o cismático é o papa”, acrescentou. “De facto, estão convencidos, pelo argumentário que têm e pela forma como vivem a Igreja Católica, que eles é que estão certos e quem está a destruir a Igreja Católica é o papa”.

O movimento fundado por Lefebvre conta com 100 mil fiéis.
O grupo que quer manter a missa em latim e outras práticas anteriores a 1962

É a primeira vez que acontece?

Não, vários membros da Fraternidade já estiveram excomungados devido a uma situação em tudo semelhante à que ocorreu esta quarta-feira. Em 1988, quatro bispos foram consagrados em Ecône sem autorização e explicitamente contra a vontade do então papa João Paulo II.

Todos os envolvidos na cerimónia foram então excomungados por João Paulo II, abrindo uma ferida com o Vaticano que nunca chegou bem a ser curada.

A maior tentativa de reconciliação foi tomada por Bento XVI, quando, em 2009, retirou as excomunhões feitas aos bispos envolvidos nesse ato como forma de tentar restaurar a comunhão completa da Fraternidade com o Vaticano, algo que nunca se concretizou.

Que impacto pode ter a quebra total com este grupo para a Igreja Católica?

No total, a Fraternidade Sacerdotal Dom Pio X tem 1.500 membros consagrados, incluindo mais de 700 sacerdotes e 250 freiras. Já em termos de fiéis que seguem os ensinamentos deste grupo, serão à volta de cem mil seguidores, 800 em Portugal.

Apesar destes números, Paulo Mendes Pinto afirma que, “demograficamente e dentro da escala da Igreja Católica, é um grupo com peso muito reduzido”. Porém, conta que há um outro nível de poder que este grupo e várias outras fações mais conservadoras da Igreja Católica têm.

“São cada vez mais grupos que, social e economicamente, são bem posicionados nos seus países e, portanto, têm um poder, não é demográfico, mas é social e económico”, disse, acrescentando que será “interessante” entender como é que as outras fações mais conservadoras se vão posicionar.

“Se vão ter coragem e irão seguir a posição deste grupo e irão criticar o papa, ou se vão ficar numa posição mais ou menos apagada, não afrontando o papa”, especifica o professor, notando que, ainda assim, estes grupos continuam a ter “uma ligação de obediência” ao pontífice.

E, para o investigador, um destes grupos cuja reação se espera é a Opus Dei, onde “haverá muita gente que defende posições eventualmente próximas” da Sociedade Pio X, notando que, apesar de a Opus Dei ter uma relação demasiado próxima com o Vaticano para haver “uma situação de rutura como esta”, poderá “haver alguns quadros de discordância”.

O movimento fundado por Lefebvre conta com 100 mil fiéis.
Membros da Fraternidade São Pio X excomungados pelo Vaticano
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