Andrés Carrascosa Coso, núncio apostólico em Lisboa.
Andrés Carrascosa Coso, núncio apostólico em Lisboa.Foto: Tiago Petinga / Lusa

Núncio apostólico em Portugal: “Não tem sentido que um grupinho pretenda ser dono da verdade”

Fraternidade São Pio X vai ordenar dois bispos sem autorização do papa. O núncio apostólico em Portugal diz ao DN que há espaço para debate interno, mas não para “passar por cima de toda a Igreja".
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A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), fundada pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, prepara-se para voltar a romper a comunhão com a Igreja Católica, ordenando dois bispos sem autorização do Papa. O movimento tradicionalista - que conta com 100 mil seguidores em todo o mundo, incluindo cerca de 800 em Portugal - é conhecido por recusar as reformas litúrgicas do Concílio Vaticano II e as posições subsequentes da Igreja sobre temas como o ecumenismo e a liberdade religiosa. E para o núncio apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa, o que está em causa neste braço‑de‑ferro é muito mais do que saber se a missa deve ser celebrada em latim ou no idioma vulgar.

“A autoridade suprema na Igreja é um concílio aprovado pelo papa e não tem sentido que um grupinho pretenda ser dono da verdade, passando por cima de toda a Igreja”, afirmou o diplomata espanhol que representa a Santa Sé, em declarações ao DN. “Uma coisa é o debate interno e outra muito diferente é quebrar todas as normas da Igreja e avançar para o cisma”, acrescentou. O representante pontifício sublinha ainda que valoriza “a humildade do papa, junto com o dever dele de manter a unidade - não rasgando a túnica sem costuras”, numa referência à túnica inconsútil que simboliza a unidade da Igreja.

Embora conte com um número significativo de seguidores em mais de 70 países, a FSSPX representa uma gota de água num total estimado de 1,4 mil milhões de católicos em todo mundo - cerca de 18% da população global. A importância do atual diferendo e do eventual cisma não se deve à sua dimensão, mas ao precedente que pode criar, numa altura em que outros grupos “ultra-conservadores” questionam as posições da Santa Sé. E em que, no campo “progressista”, haja também quem questione as posições da Santa Sé, nomeadamente na Alemanha, país onde os bispos propõem um “caminho sinodal“ que o Vaticano rejeita. Neste contexto, os apelos à unidade por parte do papa, na sequência da posição da FSSPX, adquirem especial relevância.

Numa carta enviada ao superior‑geral da Fraternidade, Davide Pagliarani, publicada a 29 de junho, o papa pede que a FSSPX suspenda as ordenações episcopais anunciadas para 1 de julho, por não terem mandato pontifício. Leão XIV defende que avançar com consagrações episcopais sem autorização configuraria um ato de natureza cismática, com impacto na validade dos sacramentos administrados pelos novos bispos. A referência à “túnica inconsútil de Cristo” enquadra o apelo num registo teológico que tem marcado este diferendo.

“A Igreja reconhece o apreço pela vida litúrgica, o empenho na formação sacerdotal, o zelo apostólico e o desejo de fidelidade à tradição que caracterizam muitas pessoas e comunidades vinculadas a essa Fraternidade. Tudo isto motivou a atenção e a benevolência que os meus predecessores vos manifestaram constantemente”, escreve Leão XIV na carta. “Neste espírito, e repleto de afeto cristão, peço-vos e suplico-vos do fundo do coração: reconsiderai!”, acrescenta o papa, sublinhando que “a Igreja está disponível a um caminho de diálogo e de entendimento, que o Espírito Santo pode tornar possível e fecundo”.

Entre o Espírito Santo e a tradição da Igreja

A referência ao Espírito Santo, uma das três pessoas da Santíssima Trindade, é central para compreender o diferendo. Ao longo das últimas décadas, o confronto entre Roma e a Fraternidade tem sido frequentemente descrito como uma disputa político-eclesial, centrada em divergências sobre liturgia e sobre o magistério pós-conciliar. No entanto, na origem do conflito está uma dimensão teológica: o modo como a Igreja entende a autoridade dos concílios ecuménicos. O catolicismo ensina que o Espírito Santo guia a Igreja e que as decisões de um concílio convocado pelo papa são tomadas sob essa inspiração divina, tal como, de resto, a eleição de um pontífice pelo colégio de cardeais.

No entendimento da Santa Sé, ao questionarem a legitimidade das decisões do Concílio Vaticano II, os membros da Fraternidade colocam-se num plano que ultrapassa o debate humano e toca na esfera da autoridade divina. Esta leitura teológica tem sido expressa como uma oposição entre soberba e humildade, categorias presentes na reflexão católica sobre a obediência eclesial. “A humildade é a sintonia de Deus”, disse ao DN uma das fontes ouvidas pelo DN.

A FSSPX, por seu lado, tem mantido reserva pública, com exceção de uma carta aberta publicada a 24 de junho, onde defende que “acima das mudanças e das vicissitudes do tempo ergue‑se a tradição imutável, que é, na história, um eco da Verdade eterna”, numa alusão ao contraste entre o que considera ser a tradição da Igreja e as mudanças adotadas no Concílio Vaticano II e nas décadas seguintes. A posição da Fraternidade assenta na convicção de que o Vaticano II introduziu alterações que, na sua perspetiva, não correspondem à tradição doutrinal anterior. Roma tem respondido que a interpretação do concílio deve ser feita à luz do magistério pontifício e que a rejeição das decisões conciliares não é compatível com a estrutura da Igreja. A questão central é a aceitação, ou não, da autoridade dos concílios e do papa enquanto garante da unidade da Igreja.

É neste contexto que o apelo de Leão XIV assume particular relevância. Ainda é possível evitar um cisma formal, mas apenas se a Fraternidade aceitar que a comunhão com Roma implica obediência real, e não apenas afetiva. O que está em causa é a ideia de que a FSSPX é guardiã da “verdadeira tradição” contra desvios da Igreja pós-Concílio. Essa lógica cria uma tensão estrutural com Roma, porque coloca o movimento num papel de árbitro doutrinal que, segundo a Santa Sé, não lhe compete.

Neste momento, os analistas identificam três cenários possíveis. O primeiro é evitar o cisma, caso a Fraternidade recuar, aceite a autoridade papal e reconheça que a tradição é entendida pela Igreja como uma realidade viva e interpretada no tempo. O segundo é a ocorrência de um cisma formal, caso avancem com as consagrações episcopais, repetindo o gesto de Lefebvre. O terceiro é a manutenção de um cisma prático mas não declarado, que corresponde ao estado atual: comunhão irregular, mas sem ruptura jurídica.

O movimento justifica as nomeações de novos bispos como necessárias para garantir a continuidade das suas atividades pastorais e litúrgicas, uma vez que, dos quatro prelados ordenados em 1988, apenas dois estão vivos - Bernard Fellay (68 anos) e Alfonso de Galarreta (69 anos). Quando Lefebvre decidiu consagrá-los sem autorização do papa João Paulo II, este decretou a excomunhão do arcebispo francês e dos quatro bispos. A excomunhão foi levantada em 2009, pelo papa Bento XVI, que tentou a via da reconciliação, mas a situação canónica da Fraternidade nunca foi plenamente resolvida (ver abaixo a cronologia e a peça relacionada).

Andrés Carrascosa Coso, núncio apostólico em Lisboa.
O grupo que quer manter a missa em latim e outras práticas anteriores a 1962

CRONOLOGIA

1970: Fundação da FSSPX

O arcebispo Marcel Lefebvre cria a FSSPX para preservar a formação sacerdotal e a liturgia tradicional pré‑Concílio Vaticano II.

1988: ordenação de quatro bispos e ruptura com Roma

Lefebvre consagra quatro bispos sem autorização pontifícia, levando à excomunhão automática e ao início formal da “comunhão irregular”.

2009: Bento xvi levanta a excomunhão

O Papa remove a pena dos quatro bispos e tenta reintegrar a Fraternidade, mas o diálogo fracassa por divergências sobre o Vaticano II.

2026: Novas ordenações e cisma

A FSSPX anuncia novas ordenações episcopais sem mandato papal, repetindo a lógica de 1988 e abrindo caminho a um cisma formal.

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