A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) nasceu em 1970, pela mão do arcebispo francês Marcel Lefebvre, antigo superior-geral dos Padres do Espírito Santo e figura de relevo no catolicismo de meados do século XX. Lefebvre, crítico das reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II, sobretudo na liturgia, no ecumenismo e na relação da Igreja com o mundo moderno, criou a Fraternidade como um instituto de formação sacerdotal dedicado à preservação da tradição pré-conciliar, como a missão tridentina (em latim e com o rito em vigor em 1962).O seminário de Écône, na Suíça, tornou-se rapidamente o centro do movimento, atraindo seminaristas e fiéis que viam nas mudanças pós‑1965 uma rutura com a doutrina e a prática litúrgica anteriores. Durante a década de 1970, a tensão entre Roma e a FSSPX foi crescendo, culminando na suspensão de Lefebvre em 1976. A rutura chegou a 30 de junho de 1988, quando o arcebispo decidiu ordenar quatro bispos sem autorização do papa João Paulo II. O gesto, considerado cismático, levou à excomunhão automática de Lefebvre e dos quatro prelados. Apesar disso, a Fraternidade continuou a expandir-se, estabelecendo priorados em dezenas de países e reunindo hoje cerca de 100 mil fiéis.Em 2009, Bento XVI levantou a excomunhão dos quatro bispos, numa tentativa de reconciliação. Em 2012, Roma tentou em vão que os responsáveis da Fraternidade aceitassem a sua transformação numa prelatura pessoal – um estatuto semelhante ao do Opus Dei, em que reportariam diretamente ao Papa, de forma supra-diocesana. Mas o diálogo fracassou, devido à recusa da Fraternidade em aceitar plenamente o magistério do Vaticano II. Com o papa Francisco, as relações tornaram-se mais distantes e, em 2019, o pontífice argentino extinguiu a Comissão Ecclesia Dei, criada em 1988 para facilitar o regresso à Igreja de sacerdotes e comunidades ligadas à FSSPX. As suas funções foram assumidas pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, sucessor direto do antigo Santo Ofício e responsável por definir o que é – ou não – doutrina católica. É este organismo que acompanha agora o processo e que terá de avaliar as consequências das ordenações previstas..“Não tem sentido que um grupinho pretenda ser dono da verdade”