De acordo com dados fornecidos pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), o Algarve vive um momento histórico no que diz respeito às reservas hídricas. As albufeiras da região alcançaram, no conjunto, cerca de 400 hectómetros cúbicos de água armazenada, o que corresponde a uma média de 90% da capacidade total, um cenário inédito nas últimas décadas. Perante estes níveis elevados, encontram-se em curso descargas preventivas em todas as barragens do Algarve, uma medida essencial para garantir a segurança das infraestruturas hidráulicas e uma gestão equilibrada dos caudais. Entre as albufeiras em destaque está a da Bravura, que regista atualmente cerca de 86% da sua capacidade, estando prevista a realização de descargas já na próxima sexta-feira, no âmbito da gestão operacional definida pelas entidades competentes. Em resultado das descargas efetuadas e da precipitação significativa registada nos últimos dias, o rio Arade apresenta caudais elevados, situação que levou à ocorrência de inundações na zona baixa de Silves, um fenómeno recorrente neste território e semelhante a episódios registados na década de 1990. A nível nacional, a gestão das cheias fluviais associadas à sucessão de tempestades que afetaram o território revelou-se particularmente exigente. A precipitação intensa, sobretudo a norte do Mondego e na bacia do Tejo, obrigou à ativação atempada de medidas preventivas, assentes numa preparação antecipada e numa gestão rigorosa das infraestruturas hidráulicas, segundo a APA. Foi realizado o esvaziamento controlado de albufeiras com capacidade de amortecimento, criando margem para encaixar os caudais de cheia previstos. Esta operação decorreu de forma articulada com a gestão das descargas provenientes de Espanha, no âmbito das bacias hidrográficas internacionais, com o objetivo de minimizar o risco de inundações a jusante. “A forte coordenação institucional entre a Agência Portuguesa do Ambiente, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, os concessionários das barragens e os municípios foi determinante para a redução significativa dos impactos”, diz ao DN José Pimenta Machado, presidente da Agência Portuguesa do Ambiente. Ainda assim, registaram-se ocorrências localizadas, como quedas de muros, inundações em zonas historicamente vulneráveis e cortes pontuais de vias rodoviárias. . Em Amarante, a cheia aproximou-se perigosamente das habitações, mantendo-se cerca de 40 centímetros abaixo do limiar de entrada de água nas casas, evidenciando a importância de uma gestão rigorosa e ajustada em tempo real. Na bacia do Cávado, a gestão conjunta das albufeiras da Caniçada e de Vilarinho das Furnas permitiu controlar os picos de caudal e evitar inundações em Vila do Prado, no concelho de Vila Verde. Impactos foram igualmente mitigados noutras zonas, como Águeda, Monção e Coimbra, graças ao acompanhamento permanente da evolução hidrológica, defende a APA.Cheias em zonas baixasPersistem, contudo, situações de maior sensibilidade em zonas ribeirinhas baixas. Em Alcácer do Sal, por precaução, foram retirados 20 idosos de um lar, e a zona baixa da cidade ficou inundada, como habitualmente em situações de cheia, com prejuízos registados em estabelecimentos comerciais, nomeadamente cafés e restaurantes. No Algarve, mantém-se a vigilância apertada na baixa de Silves, junto ao rio Arade. Para a próxima semana, as previsões meteorológicas indicam a continuação da precipitação, embora com tendência para menor intensidade. Ainda assim, a APA alerta que a precipitação acumulada sobre um território já saturado — com solos com reduzida capacidade de infiltração e albufeiras com níveis elevados — manterá o enquadramento hidrológico mais complexo, podendo atrasar a normalização da situação. Aliás, também já esta quinta-feira, o próprio primeiro-ministro alertou para o facto de o risco ainda não ter passado: "Estamos a antecipar problemas de cheias e inundações que serão inevitáveis dado que os terrenos não conseguem absorver a água", disse Luís Montenegro. Apesar deste contexto exigente, o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente sublinha que a “experiência acumulada, o conhecimento técnico e a capacidade operacional instalada continuam a ser fatores determinantes para mitigar riscos e reduzir danos, assegurando a proteção de pessoas, bens e atividades económicas”. ."Cocktail explosivo" explica severidade da Kristin. "Comboio de depressões" tem mais "duas carruagens a caminho" .Depressão Ingrid. Muita chuva leva a descargas preventivas em barragens e agrava risco de cheias