Catarina Furtado critica “postura machista” de Cristina Ferreira
Mario Vasa

Catarina Furtado critica “postura machista” de Cristina Ferreira

Foi a mais recente reação ao caso que envolve a apresentadora da TVI, e que já motivou quase 4000 queixas à Entidade Reguladora da Comunicação
Publicado a
Atualizado a

Catarina Furtado escusa-se, na maior parte das vezes, a comentar polémicas da atualidade. No entanto, este domingo (19) a apresentadora e fundadora da associação Corações com Coroa publicou um texto nas suas redes sociais, realçando que não está a reagir a quente, e deixando fortes críticas às declarações e consequente postura de Cristina Ferreira nos últimos dias. Em causa estão as declarações recentes da apresentadora da TVI sobre o julgamento dos quatro rapazes que foram acusados de violar jovem de 16 anos, filmar o crime e partilhar as imagens nas redes sociais.

Durante o programa Dois às 10, o caso foi tema no segmento Crónica Criminal. E foi aí que Cristina Ferreira fez a pergunta que a atirou para o centro do furacão: "Porque nós temos de falar disto. Porque é assim: mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve? Claro que têm de ouvir, mas alguém entende aquele 'Não quero mais?'", questionou a apresentadora no programa das manhãs da TVI.

Na reação, e depois de inúmeras figuras públicas já se terem manifestado, Catarina Furtado deixa claro que publica a sua opinião “sem nenhuma ponta de ódio, mas por vários motivos." 

Catarina Furtado critica “postura machista” de Cristina Ferreira
Palavras de Cristina Ferreira sobre violação causam indignação e levam a queixas na ERC. TVI defende apresentadora

Realça que “a frase que motivou a indignação coletiva e milhares de queixas na ERC foi dita por uma colega que tem a mesma profissão" e que, ainda que tenham "estilos e posturas diferentes", partilham "a responsabilidade de ter um microfone aberto para milhões de pessoas".

Furtado continua: “Sei o que é ter muita exposição (para o bom e para o mau), mas também sei o que para mim representa essa responsabilidade, que implica uma gestão entre o conteúdo que estamos a apresentar e uma dose inequívoca de bagagem pessoal que cada comunicador traz: o seu pensar”.

Por isso mesmo, reconhece que “errar em direto acontece”, tal como já lhe aconteceu, e que “pedir desculpa e tentar fazer melhor é sempre uma opção”. Mas, salienta, "o que foi dito (e outras frases do mesmo género em situações diferentes ao longo dos anos) veio de um lugar onde não existe, de facto, a noção do impacto absolutamente nocivo que pode ter a formulação de uma pergunta", atira, em jeito de lembrança de outros casos onde Cristina Ferreira já deixou claro o seu pensamento sobre assuntos deste género. E continua: “Não é intencional, é estrutural. Há uma postura machista que é abraçada por muitas mulheres que se dizem não feministas e é de facto grave quando esse discurso é normalizado, porque isso contribui e muito para a banalização do crime, da violência, da desigualdade de género e, em última instância, da misoginia que grassa na chamada manosfera”, escreve ainda.

“Comentar assuntos seríssimos de cidadania e direitos humanos exige preparação, leitura de informação fidedigna e verificação de estudos”, continua, recordando a sua experiência na defesa de Direitos Humanos e na promoção da igualdade de género, como Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a população e como fundadora da Corações com Coroa.

Catarina Furtado critica “postura machista” de Cristina Ferreira
Palavras de Cristina Ferreira sobre violação causam indignação e levam a queixas na ERC. TVI defende apresentadora

"Frases públicas ambíguas sobre violência não são só frases infelizes”, alerta. “A linguagem abre espaço, branqueia, legitima, normaliza, e os rapazes deixam de ouvir e de conhecer os limites e, desta forma, paralisam o crescimento que permite uma sociedade mais igualitária”.

Salientando o grassar de uma cultura digital reacionária e patriarcal, Catarina Furtado lembra como estas estão a contribuir para criar “ideias distorcidas sobre intimidade, consentimento, prazer mútuo, igualdade e liberdade” entre as novas gerações.

E sublinha:  "Na chamada 'vida real' o que testemunho é que as meninas andam cada vez com mais medo e não 'se põem a jeito' quando estão apenas a viver os seus direitos (...). O que está aqui em causa é um exercício de justiça social e o que aconteceu foi um tremendo beliscão à civilização, porque teve um grande alcance".

“Defender a vítima significa garantir que o crime não deve ser nunca normalizado através de uma retórica descuidada ou de falsas equivalências”, continua. "É preciso ter consciência, empatia e curiosidade, quando se fala sobre a vida dos outros, não deixar que o discurso dos reality shows (que já contribuem também e tanto, infelizmente, para a normalização de comportamentos tóxicos e de manipulação) contamine tudo."

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt