Ana Abrunhosa admite que a decisão mais pesada dos dias de chumbo foi tomada na noite de 12 de fevereiro, quando decidiu não evacuar a Baixa de Coimbra, apesar do risco de cheia centenária, com a barragem da Aguieira perto do limite. Ao longo da crise, diz, guiou-a o pragmatismo e a necessidade de decidir com dados, assumindo uma “obsessão pelo planeamento” e a importância de sair do gabinete para o terreno. Recorda o momento do rebentamento do dique e o corte da A1 como um teste à frieza operacional e elogia a articulação da Proteção Civil e o apoio do Governo. Entre decisões, medo “engolido” e disciplina de treino revela o lado mais íntimo: o orgulho da filha, o apoio da família e os gestos que a marcaram - abraços na rua, comida e bebida para as equipas, as flores e doces que continuam a chegar ao gabinete. Agora, antecipa meses de reparações, promete operar mudanças estruturais no Mondego, uma Coimbra “mais resiliente” e pede regras claras e rápidas de financiamento para responder aos prejuízos. Em que momento destes dias percebeu: “isto vai ser mesmo grande”?Passados uns dias da tempestade da Kristin, tivemos uma reunião com a Agência Portuguesa do Ambiente em que tivemos consciência de que iríamos ter várias tempestades seguidas, o chamado “comboio de tempestades”. Foi uma das reuniões mais importantes que tivemos. Estavam presentes o presidente da Câmara de Montemor-o-Novo, o presidente da APA, a equipa da APA de Coimbra, mas também de Lisboa. E aí, nessa reunião, nós tomámos consciência de que a APA iria ter de fazer descargas controladas na barragem da Aguieira e que essas descargas iriam provocar inundação.Como viveu essas primeiras horas?Honestamente, não me preocupei comigo. Sou uma felizarda no meio disto tudo. Não querendo parecer que me falta humildade, normalmente, nestas alturas, tenho poucas dificuldades em tomar decisões. Por isso, a minha preocupação maior era receber informação, o máximo de informação possível, ouvir as opiniões e depois tomar a decisão. Depois de ouvir e estando na posse de dados a decisão surge naturalmente.Qual foi a mais difícil?A decisão de não evacuar a baixa de Coimbra, tomada na noite de quinta-feira passada, dia 12 de fevereiro. A noite mais complicada que vivemos. Tive de fazer um grande esforço para não deixar a preocupação vencer-me. Para não mostrar medo. Em cima da mesa, os dados diziam-nos que havia uma grande probabilidade de termos uma cheia centenária, porque a barragem da Aguieira estava a 99% e continuava a subir muito, nas regiões a montante. Tinha pessoas muito informadas e conhecedoras a dizerem-me que devia evacuar a Baixa. Porém, mesmo sabendo que tínhamos a barragem da Aguieira numa situação limite, achei que ainda tínhamos tempo. Tinha por trás um plano de evacuação que fora preparado com tempo. As pessoas estavam avisadas, tinha feito uma conferência de imprensa. Felizmente, a noite em que ninguém dormiu correu melhor do que o esperado..Sou de delegar e de confiar. E de responsabilizar. Gosto de saber o que é que se passa, é claro, mas é impossível centralizar tudo. É mesmo. Confiar, delegar, ir acompanhando e, se a pessoa tiver de ser substituída, é substituída, como já fiz muitas vezes. Quanto a isso, também não tenho muitas dúvidas do que devo fazer.. Os seus colaboradores apontam-lhe a obsessão pelo planeamento.Sou um bocadinho obcecada pelo planeamento, mas aqui o planeamento revelou-se importante. A Proteção Civil é uma rede de muitas entidades. Felizmente, cada uma tem o seu papel. E o sucesso depende sempre de uma grande articulação: Proteção Civil municipal, GNR, PSP, os bombeiros — cada um fez o seu papel.Dormiu quantas horas ao longo da crise? E como é que o corpo aguenta quando a cabeça não pode parar?Era impossível dormir tal o grau de preocupação. Houve dias em que não saí do sofá. Sou muito resistente fisicamente, faço treino precisamente para me manter saudável e a adrenalina ajuda. Temos de esquecer-nos de nós e pensar nos que estão a sofrer. Procurar que as nossas decisões sejam as mais adequadas para evitar perdas humanas, para minimizar os danos materiais. Não vi ninguém à minha volta a pensar de outra maneira.Houve algum instante em que sentiu medo?Na noite do dia 12 senti medo. Senti medo porque achei que podíamos voltar às cheias centenárias e talvez até com maior gravidade. Mas não estava sozinha. Como disse, tomei a decisão nessa noite de não evacuar a Baixa porque tinha um plano de evacuação completamente preparado.Houve, nesta fase, algum dia em que tenha desligado o telemóvel?Ah, jamais. Não se pode.Teve tempo para falar com a sua família? O que lhes disse para os sossegar (ou o que eles lhe disseram a si)?Falei com a minha filha.Como estava ela?Muito orgulhosa. E o resto da família sempre me apoiou.Teve algum familiar com a casa ou terreno alagados?Não, não tive, felizmente. A minha preocupação era que ninguém andasse a fazer viagens desnecessárias. De resto, tive toda a disponibilidade para me dedicar de corpo e alma a este processo.Consegue delegar?Sou de delegar e de confiar. E de responsabilizar. Gosto de saber o que é que se passa, é claro, mas é impossível centralizar tudo. É mesmo. Confiar, delegar, ir acompanhando e, se a pessoa tiver de ser substituída, é substituída, como já fiz muitas vezes. Quanto a isso, também não tenho muitas dúvidas do que devo fazer.O que é que fez questão de não delegar, mesmo com a equipa toda no terreno?A evacuação dos lares. Ainda antes de termos determinado a evacuação das pessoas, já tinha decidido que os lares seriam evacuados, na medida em que na visita a um deles apercebi-me de que a água estava demasiado próxima. É um daqueles casos em que não deixo a decisão para ninguém. Mais: gosto de controlar o contacto com os presidentes de junta, com o Governo; não abdico de estar nas reuniões da Proteção Civil, porque é muito importante que todos tenhamos um enquadramento da situação geral. Quero estar sempre atualizada.Destes dias, qual é a imagem que retém? A de um frigorífico no rio Mondego. Uma imagem que me confrontou com a força daquelas águas. Outra imagem: a do momento em que recebemos a notícia do rebentamento do dique, que levaria ao posterior colapso da A1. Estávamos nas instalações do comando sub-regional, várias entidades, o secretário de Estado da Proteção Civil, a ministra do Ambiente, inexcedível, quando a notícia chega.Como reagiu?Cabeça muito fria. Percebemos que tínhamos tomado decisões boas porque ao provocarmos inundações controladas evitámos que, ao ceder, o dique gerasse um efeito de bomba. Ou seja: a água que havia de fora do dique era quase da mesma altura da água contida pelo dique, evitando a energia de uma enxurrada. No entanto, a nossa preocupação maior foi diretamente à A1. Logo ali ficou decidido que a autoestrada deveria ser cortada. Contactou-se de imediato a Brisa e o ministro Pinto Luz, que, devo dizer, é um homem de ação. Como se diz por aqui, é “uma máquina”. Uma hora depois a A1 estava fechada e não é fácil fechar uma autoestrada.Houve algum momento em que teve de esconder a emoção para continuar a decidir?Aprendemos isso: a “engolir” a emoção..Estou onde quero estar, onde escolhi. Decidi concorrer e este é o sítio onde eu quero estar. Não há sítio onde queira estar que não seja este. . É da sua natureza ou treino?É treino. Isso é treino.Sentiu culpa por não conseguir chegar a toda a gente ao mesmo tempo?Também aprendemos a gerir isso. Sabemos que não conseguimos fazer tudo, por isso estabelecemos prioridades. E prioritário foi proteger a vida das pessoas. E, depois, os bens. Mesmo que isso causasse muitos incómodos, mesmo que as pessoas tivessem de deixar as casas, mesmo recorrendo ao processo muito delicado que é evacuar um lar. E nós evacuámos três. Ter saído do gabinete para o terreno foi uma grande ajuda na tomada de decisões. Todos os dias, o comandante dos Bombeiros Sapadores e eu íamos ver o terreno. Muda muito. É completamente diferente de estarmos num gabinete a ver fotografias. Falar com as pessoas torna a nossa decisão ainda mais informada e, portanto, ainda mais determinada.Quando começou a ouvir elogios, qual foi a sua reação íntima?Senti o peso da nossa responsabilidade. Fazemos o melhor que sabemos, fazemos a nossa obrigação. Somos todos diferentes, enquanto autarcas comunicamos de maneiras diferentes. No meu caso, tinha alguma experiência nessas áreas, mas os elogios apenas nos dão responsabilidade.O que lhe disse Marcelo Rebelo de Sousa?Andámos pelas ruas, viu que as pessoas me cumprimentam. E teve a noção de que trabalhámos em grupo, de forma muito articulada. Foi muito elogioso.Lembrou-se do raspanete que o Presidente lhe deu quando era ministra, a propósito do PRR?Nunca valorizei esse episódio. Da minha parte, não fiquei nada melindrada, nem sensibilizada, e as nossas relações mantiveram-se como até aí: muito cordiais, amigáveis..Rezo e converso com Ele todos os dias. Sim, sim, rezei. Rezei com a cabeça, rezei com as mãos.. O que estavam, na verdade, a elogiar: a sua presença, a rapidez, a forma de falar, a disponibilidade?A informação. Creio que as pessoas gostaram de saber, a cada momento, a verdade. Que o que se passava lhes fosse explicado em linguagem simples. Gostaram de saber as razões desta ou daquela decisão. Gostaram de saber o risco que enfrentávamos. E, portanto, creio que perceberam as medidas e confiaram.As pessoas precisam, nestas alturas, de sentir que há alguém a segurar?Que alguém sabe o que está a fazer. Creio que as pessoas reconheceram isso. As pessoas confiaram e essa é a minha maior alegria. Uma alegria que também tem uma enorme carga de pressão e responsabilidade. Sentimos uma responsabilidade esmagadora. Também creio na importância da proximidade e da serenidade. E de as pessoas verem os meios no terreno. Tínhamos meios: tínhamos os carros dos bombeiros, tínhamos os botes, tínhamos o Exército, tínhamos os fuzileiros. E eles mostravam-se, andavam no território para que as pessoas sentissem a presença da ajuda..Ter saído do gabinete para o terreno foi uma grande ajuda na tomada de decisões. Todos os dias, o comandante dos Bombeiros Sapadores e eu íamos ver o terreno. Muda muito. É completamente diferente de estarmos num gabinete a ver fotografias. Falar com as pessoas torna a nossa decisão ainda mais informada e, portanto, ainda mais determinada.. O que contrasta com outras realidades. Leiria não parece ter sido assim. O facto de ter sido ministra dá-lhe uma compreensão maior nestes casos?Poderá ter ajudado. Eu sei os poderes que o presidente tem quando decreta o estado de emergência municipal. É autónomo. Pode falar diretamente com o Exército. A verdade é que temos um quartel do Exército em Coimbra, temos uma boa relação e essa boa relação traduziu-se nesta situação de emergência. O próprio hospital, a Cruz Vermelha, inexcedível, o INEM: todos estiveram muito bem. Tenho de confessar: nunca sentimos a falta de meios, porque eles apareceram. Agora, em Leiria, a intensidade da catástrofe é inimaginável. Não há meios que sejam suficientes para aquela intensidade. Portanto, também entendo as palavras de desespero do Presidente da Câmara: é difícil aguentar as pessoas dias e dias sem água e sem luz. É dificílimo.Que traço seu acha que foi decisivo nestes dias: serenidade, teimosia, empatia, pragmatismo?O meu pragmatismo. Não ter dificuldade em tomar decisões.E essa forma de liderar vem de onde?Sempre trabalhei assim. Sempre trabalhei assim na CCDRC, sempre trabalhei assim no Governo. Sempre fui assim. Decidida a dizer o que queria e o que não queria. Uma dificuldade para os meus pais.O que aprendeu sobre si própria nestes dias que não sabia, ou que não queria saber?Talvez a capacidade de engolir o medo e conseguir transmitir também serenidade, para aliviar as preocupações que tinha. Foi muitas vezes difícil.Sei que é crente. Rezou?Rezo e converso com Ele todos os dias. Sim, sim, rezei. Rezei com a cabeça, rezei com as mãos.Teve algum gesto simples de alguém (um abraço, um “obrigado”, uma crítica) que a tenha abalado ou sustentado?As pessoas são muito generosas. Recebi abraços de pessoas que não conhecia, as equipas sentiram o carinho da população, davam alimentos, água. Ao meu gabinete chegam flores, doces e isso toca-me muito naturalmente.Há quem defenda que daria uma excelente ministra da Administração Interna...Estou onde quero estar, onde escolhi. Decidi concorrer e este é o sítio onde eu quero estar. Não há sítio onde queira estar que não seja este.Não gostaria de voltar a ter responsabilidades nacionais?Não, não, não. Este é o melhor sítio que posso ter. É o melhor sítio. Sei que é o melhor. É fácil amar Coimbra. Apesar de ser uma relação complexa..Sempre trabalhei assim. Sempre trabalhei assim na CCDRC, sempre trabalhei assim no Governo. Sempre fui assim. Decidida a dizer o que queria e o que não queria. Uma dificuldade para os meus pais.. Já existe uma estimativa de prejuízos? Que metodologia estão a usar e quando haverá números consolidados?Um balanço mais definitivo talvez dentro de um mês. Estamos ainda a avaliar os danos. Sabemos que há cerca de 200 habitações afetadas, muitas infraestruturas públicas, mas ainda não há números rigorosos. Aumentam todos os dias: uma estrada que abate, um muro que colapsa. E estamos já em trabalhos de reparação. Será trabalho para muitos meses. Muito trabalho a recuperar e a tornarmo-nos mais resilientes. O nosso rio: temos de cuidar daquela obra hidráulica. Tem de sofrer grandes alterações. Recuperar, reabilitar e fazer diferente.Essa será a sua marca de fim de mandato? Tornar Coimbra mais resiliente?É isso mesmo: uma Coimbra mais amiga do ambiente, uma Coimbra mais resiliente, colocar em prioridade a importância de cuidarmos do Mondego. Queremos um olhar diferente para o espaço público, uma mobilidade sustentável, outra forma de pensar a cidadeQuando isto abrandar, o que acha que vai sentir primeiro: cansaço, vazio, raiva, tristeza, alívio?Força. Ainda ontem tive uma reunião de cinco horas. Para além de tudo o mais, temos de cumprir as nossas promessas eleitorais e, portanto, agora é força. Força para requalificar. Para que todas as obras que temos de fazer vão ao encontro do conceito de cidade que prometemos aos conimbricenses. Não é tempo de baixar os braços. Isso não existe.Se pudesse falar com a Ana Abrunhosa do primeiro dia, o que lhe diria?Talvez pudesse dizer que esteve bem. Que há sempre momentos em que faria diferente e coisas que vão mudar. Há muita coisa que vai mudar.Por exemplo?Garantir mais inteligência no sistema, mais software. Menos dependência do telefone. Ter outro tipo de comunicação; registar de forma diferente as ocorrências. Ainda mais planeamento, mais informação, porque é por aí que eu decido. Ter um ponto de situação numa calamidade não é fácil, ainda menos se cada um andar para o seu lado. Quem gere esses processos tem de ter essas informações. É algo que vou procurar ter o mais breve possível, a par da garantia de que não falham as comunicações.Para fechar, do que é que mais precisa, como autarca e como pessoa, agora nesta fase?De regras de financiamento claras e de apoio do Governo. Precisamos de saber com clareza os valores e o que é que vão apoiar. Precisamos de saber rapidamente quais são os apoios: se são a fundo perdido, se são empréstimos.O pacote de medidas tem aplicabilidade e funciona?Tenho a certeza absoluta de que o Governo estará à altura dos nossos problemas. Não tenho dúvidas, porque vi preocupação e vontade genuínas. É normal que não haja logo respostas, até porque ainda nem conseguimos dizer ao Governo qual é o valor dos prejuízos. Poderia aqui dar um número, mas ele carece de mais rigor. Tenho a certeza de que teremos uma resposta à altura dos nossos problemas. Não tenho a menor das dúvidas..Obras na A1 concluídas em março. Até lá Brisa propõe "circulação em ambos os sentidos, limitada a uma via" .Ana Abrunhosa. Calma, exigência e um lema: “o que não nos mata, só fortalece”