“Exigente, muito atenta e segura desde o primeiro minuto”, é assim que quem com ela trabalha descreve Ana Abrunhosa nestes dias de margens rendidas, sublinhando ainda “a calma e a compostura” demonstradas na liderança da crise e reconhecidas por todos. Serenidade essa que, aqui, não é tanto um traço de temperamento. É, sobretudo, um instrumento de trabalho. “O ritmo é tudo menos calmo”, dizem os assessores, referindo “a obsessão" com o planeamento.“Estamos agora muito focados na prevenção. Sabemos que se aproximam horas de muita chuva num cenário que já se encontra alagado. Preparam-se dias muito difíceis, e é preciso antecipar e prevenir situações. Por isso, temos contado com a colaboração do Exército, dos Fuzileiros e da Cruz Vermelha, no sentido de atuar a montante do problema”, dizia ao DN, há uma semana, a presidente da Câmara Municipal de Coimbra, eleita em lista do Partido Socialista.No mesmo tom prudente, sem atirar pedras, comentava a então ministra Maria Lúcia Amaral: “Em termos técnicos, é verdade que não consegue comunicar como provavelmente deveria. São precisos anos de experiência nestas áreas para saber comunicar nestes momentos. Mas consigo calçar-lhe os sapatos. Desde logo, devo dizer que, tendo já estado num Governo, jamais aceitaria um lugar como o dela. É um cargo muito, muito difícil. Quero também sublinhar que estamos a falar de uma senhora muito competente nas áreas que domina, extraordinária, e de uma imensa humanidade. Tenho a certeza de que não lhe deve ser nada fácil assistir a estas tragédias”, dizia, em demonstração de solidariedade institucional e empatia política, rara em cenários de tragédia, sempre pródigos a encontrar culpados, de maneira a descartar as responsabilidades pessoais..Coimbra tem vivido dias de chumbo, e Ana Abrunhosa “tem sido uma líder muito competente”, dizem colaboradores próximos, esforçados em corresponder ao ritmo imposto pela presidente. “É calma, mas, a trabalhar, é muito ativa, sobrecarrega a agenda, mesmo sabendo que, delegando essas funções, teria dias mais leves”.Quando, em outubro de 2019, aos 49 anos, aceitou o convite para a pasta da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa (hoje com 55), doutorada em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, sabia que não eram dias leves. Ainda assim, a escolha de António Costa não surpreendeu amigos, colegas e ex-alunos. Com trabalho académico publicado nas áreas do desenvolvimento regional e ação reconhecida desde 2014 na presidência da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, onde geriu 2,2 mil milhões de euros de fundos comunitários do Centro 2020, essenciais para ajudar a região a reerguer-se dos incêndios, a competência de Ana Abrunhosa nas matérias que passou a tutelar era amplamente reconhecida.“Foi uma magnífica escolha”, afirmava à Notícias Magazine João Sousa Andrade, professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Trabalhara de perto com Ana Abrunhosa, ele como regente, ela como assistente, em duas cadeiras “de choque”, Introdução à Economia e Microeconomia. Por isso, dizia saber bem o que podem esperar os que com ela trabalham: “A Ana é de uma solidariedade total. Sempre que um colega precisou, foi total a sua disponibilidade, quer para ler provas, quer para acompanhar os alunos.” E deixava também um aviso a quem a tiver pela frente em negociação: “Contem com determinação, com muita exigência e com enorme sentido de justiça.”A função não se adivinhava simples. “Terá de defrontar dinossauros e aprendizes de dinossauros, alguns com contacto direto com o primeiro-ministro, e por isso não vai ter a vida facilitada”, lembrava o professor, sublinhando ainda o peso acrescido da componente política..Mas não é mulher de ceder à pressão: “Reage com calma, sem nunca disparatar, mas segura.” Sabe ouvir, dizem os que a conhecem, e chega sempre “muito bem preparada”: uma mulher “racional, determinada, exigente consigo e com os outros”. De regras. “Com ela são para cumprir, e os alunos que o digam.” Sousa Andrade dá um exemplo quase doméstico, mas revelador: “Ao contrário de mim, que fechava os olhos desde que mascassem discretamente, a Ana nunca permitiu pastilhas elásticas nas aulas. Era implacável, e os alunos sempre acataram.”Luís Aguiar-Conraria recordava, em 2019, a antiga professora. Simpática, “com aulas cheias”. Fora seu aluno em Economia Regional no ano letivo de 1996/97. “Os alunos gostavam muito dela. Era simpática e dava boas aulas.” E, apesar de ter apenas 26 anos, “explicava a matéria claramente”. Também ele não se surpreendeu com a nomeação: “Tenho seguido o percurso de Ana Abrunhosa e já me parecia normal que estivesse no governo anterior”, dizia o comentador e economista.Raramente perde as estribeiras e recorre quase sempre ao bom senso. Aprecia uma palavra de reconhecimento pelo esforço e pela amizade. E parece levar a sério a máxima “o que não nos mata fortalece-nos”, frase que enunciou no dia em que foi absolvida pelo Tribunal de Coimbra, em maio de 2019, depois de “quatro anos de grande sofrimento”, na sequência de uma acusação do Ministério Público por crimes de difamação. “Claro que ela sentiu, e sente, e sofre. Mas mostra muito pouco. Não deixa passar as suas angústias”, descrevia o professor.Quem a conhece garante que Abrunhosa “investe tudo em todos os cargos por onde passa”. E, por onde passa, ”deixa marca”. .Ana Abrunhosa: “A ideia de que o Governo tem de vir a correr nem sempre faz muito sentido”