Ana Abrunhosa, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, elogia ao DN a resposta “exemplar” da Proteção Civil às cheias que se verificam no concelho e considera que os meios locais foram determinantes na gestão da crise. Apesar de reconhecer falhas na comunicação de Maria Lúcia Amaral, a economista e ex-ministra da Coesão Territorial de António Costa deixa palavras de reconhecimento à responsável pela Administração Interna de Montenegro, e diz que nas regiões mais afetadas a recuperação poderá demorar meses ou anos. Não vai esquecer o olhar e o desalento de quem viu o trabalho de uma vida destruído, nem a imagem da água a subir, do rasto de lama deixado pelas cheias e dos campos agrícolas devastados, diz num desabafo. Contas feitas por alto, apenas referentes a algumas infraestruturas danificadas no concelho, os danos já ultrapassam os dez milhões de euros. (Entrevista feita na manhã de domingo, 1 de fevereiro.) Qual é o ponto da situação? Estamos a trabalhar sobretudo na prevenção. Sabemos que se aproximam horas de muita chuva num cenário que já se encontra alagado. Preparam-se dias muito difíceis, e é preciso antecipar e prevenir situações. Ainda ontem [sábado, dia 31 de janeiro], numa avenida de Coimbra, uma árvore tombou inesperadamente, precisamente porque os solos estão saturados e muitas árvores e estruturas encontram-se desenraizadas. Por isso, temos contado com a colaboração do Exército, dos Fuzileiros e da Cruz Vermelha, no sentido de atuar a montante do problema. A Proteção Civil tem merecido críticas de alguns autarcas, sobretudo por uma reação considerada “tardia”. Como correu a articulação no caso da região de Coimbra? Devo dizer que, neste concelho, e na nossa região, a rede de Proteção Civil é fantástica. Funcionou — e continua a funcionar — muito bem em articulação com o Governo e com a autarquia. É também de notar e agradecer a enorme solidariedade dos concelhos vizinhos. Tivemos a colaboração e a ajuda de muitos deles. O Governo chegou a tempo e horas? Esta ideia de que o Governo tem de vir a correr nem sempre faz muito sentido. Devo dizer que, no meu concelho, não senti necessidade da presença do Governo, exceto para decretar e manter, por mais uma semana, o estado de calamidade. O Governo só faz sentido quando os meios municipais e regionais são insuficientes. Aqui, não senti a falta do Governo. Temos o Comando Sub-Regional da Proteção Civil, que funcionou muito bem; portanto, só quando esses meios falham é que o Governo deve intervir. E, quando tive necessidade de mais meios, eles chegaram. Dito isto, o caso de Coimbra não é o caso de Leiria, de Pombal ou da Marinha Grande. Aí falta ajuda — e vai faltar durante muitos meses. Aquelas populações vivem um verdadeiro cenário de guerra. Vai demorar meses, senão anos, a recuperar. Portanto, para essas populações e para esses responsáveis autárquicos, atendendo à grandeza da devastação, é natural que todas as ajudas lhes pareçam insuficientes. Trata-se, de facto, de um cenário de guerra. .Só no concelho, e atendendo apenas a três ou quatro equipamentos essenciais destruídos, as minhas contas já ultrapassaram os dez milhões de euros.. Estes dias comprovam que Maria Lúcia Amaral, ministra da Administração Interna, foi um erro de casting? Em termos técnicos, é verdade que não consegue comunicar como provavelmente deveria. São precisos anos de experiência nestas áreas para saber comunicar nestes momentos. Mas consigo calçar-lhe os sapatos. Desde logo, devo dizer que, tendo já estado num Governo, jamais aceitaria um lugar como o dela. É um cargo muito, muito difícil. Quero também sublinhar que estamos a falar de uma senhora muito competente nas áreas que domina, extraordinária, e de uma imensa humanidade. Tenho a certeza de que não lhe deve ser nada fácil assistir a estas tragédias. Já fez contas, ainda que por alto, aos prejuízos? Aí, sim, deve entrar o Governo. Só no concelho, e atendendo apenas a três ou quatro equipamentos essenciais destruídos, as minhas contas já ultrapassaram os dez milhões de euros. Quais foram esses equipamentos? O aeródromo municipal, o edifício dos Transportes Urbanos de Coimbra, o cemitério de Conchada, a Casa da Escrita — onde neste momento chove — e o próprio edifício da Câmara Municipal. Numa primeira fase, é necessário acionar os seguros e, quanto à parte que não está coberta, criar linhas de apoio aos municípios. Essa foi uma garantia deixada pelo Governo: linhas de apoio e empréstimos, com uma parte a fundo perdido..Tal como noutras tragédias, muitas pessoas não têm seguro... Verdade. O que é de uma enorme irresponsabilidade, até porque as ajudas do Estado são ajudas que saem do dinheiro de todos, do dinheiro dos contribuintes. É preciso ter essa noção. Situações destas não são novidade: incêndios no verão, cheias no inverno... Já não podemos usar o pretexto de que vivemos num clima sem sobressaltos. A região Centro é das mais fustigadas pelas calamidades de verão e de inverno. Por isso, não faz sentido não ter seguros. Os casos mais chocantes que encontrou nestes dias e que não vai esquecer...? No aeródromo, os donos da empresa que fazia a reparação de aeronaves. O casal está completamente destroçado. As aeronaves de clientes ali estacionadas para manutenção ficaram todas destruídas. Não vou esquecer o olhar, o desalento deles: o trabalho de uma vida desfeito. Custa muito ver o nível das águas a subir e o rasto de lama que fica. Ver os campos agrícolas destruídos.Qual foi a sua primeira reação quando percebeu a dimensão do problema? Embora tenha estado num Governo, em matéria autárquica sou ainda caloira. A primeira reação foi de nervosismo e preocupação, mas agora estou mais tranquila, porque, como disse, a rede de Proteção Civil aqui no concelho ena região é fantástica.