Amolador do Bolhão com candidatura aceite na Rede Nacional do Património Cultural Imaterial
ESTELA SILVA/LUSA

Amolador do Bolhão com candidatura aceite na Rede Nacional do Património Cultural Imaterial

"A minha profissão está em vias de extinção e eu quero deixar uma marca", diz André Fernandes. Entrar na rede pode ajudar a manter a tradição e a expandir a arte do amolador.
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A profissão de amolador está em vias de extinção, mas André, o amolador do Mercado do Bolhão, no Porto, candidatou o ofício à Rede Nacional do Património Cultural Imaterial e a resposta positiva chegou há uma semana.

Quando André, o amolador do Mercado do Bolhão, veste o seu avental castanho, sopra uma melodia na flauta e lança faíscas da cor do fogo a magia acontece e os turistas amontoam-se para fotografar e filmar o artesão a afiar facas e tesouras.

“Há coisa de uma semana tive essa notícia" de ser aceite a candidatura para a Rede Nacional do Património Cultural e Imaterial, avança à agência Lusa André Fernandes, 37 anos, o amolador do Bolhão, que começou a encantar-se aos 10 anos de idade pela magia das faíscas cor de laranja que saltavam da mó pelas mãos de seu pai, quando este afiava as facas e as tesouras no antigo Mercado do Bolhão.

A ideia de candidatar a profissão de amolador à Rede Nacional do Património Cultural Imaterial foi de Susana Monteiro, a sua mulher. “Eu assumi e agarrei também essa vontade. (…) A minha profissão está em vias de extinção e eu quero deixar uma marca (…) e pode dar incentivo a quem quiser continuar”, explica André Fernandes, enquanto afia uma tesoura e vai lançado as faíscas mágicas que convidam os turistas a observar a sua arte.

Yan, uma criança de 11 anos, natural do Recife, no Brasil, come uma carambola (fruta estrela), enquanto tenta compreender o que é que o artesão está a fazer, pois admite que nunca tinha visto nada igual.

“É uma profissão que já se encontra em vias de extinção, sou a terceira geração a exercer este ofício, começou pelo meu avô, pelo meu pai e estou cá eu agora a dar continuidade a este bonito ofício que é ser o amolador”, conta André Fernandes.

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Susana Monteiro, a mentora da ideia de lançar a candidatura da profissão de amolador a Património Cultural Imaterial, explica que entrar na Rede Nacional do Património Cultural Imaterial pode ajudar a manter a tradição e a expandir a arte do amolador, até criando um museu na cidade.

“A nossa vontade era deixar este legado para os nossos filhos e honrar aquilo que o pai e o avó do André fizeram. Nós fazemos o serviço para a comunidade e isto é memória portuense que sempre existiu aqui na nossa cidade invicta”, refere Susana Monteiro, acrescentando que o “grande objetivo era ganhar asas e poder ir lá fora mostrar as tradições portuenses”.

O amolador é uma profissão tradicional portuguesa que está em vias de extinção. Antigamente, os amoladores percorriam de bicicleta as vilas e cidades do país, anunciando a sua chegada com um som agudo e melancólico a partir duma pequena flauta de pan. O objetivo era alertar os moradores que podiam trazer as facas, tesouras ou outros utensílios de corte para afiar.

Atualmente, o som da flauta continua a ser escutado no Mercado do Bolhão, quando André Fernandes quer avisar que vão saltar faíscas. Só que, agora, o amolador não está em cima de uma bicicleta, mas em pé, à frente da sua banca, localizada na rua do Paraíso do Mercado do Bolhão, onde também se podem comprar facas e canivetes artesanais da autoria de “André, o amolador”, uma marca registada e certificada.

Na banca de André, o amolador, afiam-se tesouras pequenas e grandes, tesouras de alfaiate, tesouras da poda, tesouras de jardim, facas de legumes, facas de presunto, facas de chef, facas de pão, cutelos, machados e alicates e manicure, e até lâminas do robot de cozinha Bimby. Também se consertam guarda-chuvas de todo o país e até do estrangeiro. O último veio de França. A mulher assegura que André é o único amolador do mundo que afia facas, tesouras e conserta guarda-chuvas.

Na banca há uma tabela a indicar que afiar uma tesoura de relva custa 6,5 euros e que afiar um alicate de manicure custa 3,70 euros. Uma tesoura de tamanho pequeno custa 1,25 euro, uma faca de legumes custa 0,65 cêntimos e uma faca de presunto fica a cortar à profissional por 1,25 euros. Na compra de uma faca ou canivete, há a oferta de uma gravação.

As pessoas que quiserem ter a experiência de “meter a mão na massa” e aprender o ofício de criar a sua própria faca podem-no fazer na oficina de André, onde o artesão ensina a conceber uma faca artesanal. André recorda que recentemente passaram por lá turistas de Porto Rico e do Japão.

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Quem entrar no interior da banca do amolador no Mercado do Bolhão descobre uma espécie de linha do tempo, organizado numa sequência cronológica com alguns dos momentos da família de amoladores, como o avô em entrevista ao jornal Comércio do Porto em 1985 a revelar que já trabalhava à porta do Bolhão há 40 anos, ou o pai de motorizada por vários locais de Portugal como restaurantes à beira da Estrada Nacional.

André Fernandes deu continuidade à profissão do pai em 2007, abandonando a profissão de padeiro e pasteleiro. A marca "André, o amolador" nasce em 2020, ano em que se lança a fazer a sua própria cutelaria. Este ano, André Fernandes candidatou a profissão de amolador à Rede Nacional do Património Cultural Imaterial para eviatr o risco de extinção e a candidatura foi aceite.

Miriam, a filha de 11 anos, e Frederico, com 5 anos, podem vir a ser a quarta geração de amoladores da família.

“Eu gostaria, mas quero é que eles sejam felizes e que sigam os seus sonhos”, afirmou André Fernandes.

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