Na semana passada, quatro diretores de Serviços de Cardiologia de hospitais do Norte (Santo António, Matosinhos, Vila Real e Penafiel) enviaram uma carta à ministra da Saúde a alertar para a existência de listas de espera nos centros de referenciação de cardiologia com “consequências fatais” para alguns doentes. Na altura, todos os diretores de serviço assumiram esta situação, mas em declarações à RTP o diretor de serviço de Cardiologia do Santo António referiu-se mesmo a uma dezena de mortes nos últimos dois a três anos. A Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) confirmou esta semana ao DN que solicitou explicações à Unidade Local de Saúde Santo António (ULSSA, no Porto) sobre o assunto, aguardando as respostas para decidir se avança ou não com “uma ação inspetiva”, como explicou o inspetor-geral, António Carapeto.Nesta sexta-feira (27), o DN questionou a ULSSA sobre se iria responder à IGAS e o gabinete de comunicação informou que “iria responder” o que fosse necessário e, em esclarecimento ao DN sobre as mortes denunciadas, a unidade assume que “os doentes do Hospital de Santo António que estavam em lista de espera dos centros de referência de São João ou de Gaia, para colocação de válvulas aórticas ou cirurgia cardíaca, morreram sem serem convocados”, explicando, no entanto, “que não é possível presumir um nexo de causalidade em todos os casos, até porque diversos morreram noutros hospitais”.O DN questionou ainda a ULS sobre o que quereria dizer com a afirmação de que “morreram sem serem convocados”: se era a assunção de que esses doentes morreram em lista de espera e há quanto estavam à espera para estes procedimentos quando morreram. O DN quis ainda saber qual o tempo adequado de espera para estes doentes, tendo em conta o seu estado. E a resposta que chegou da administração do Santo António foi que "os dados estão a ser apurados com rigor pelo Serviço de Cardiologia e, para já, não podemos acrescentar mais nada".A questão da existência de listas de espera em cardiologia para duas situações específicas, cirurgia cardíaca e implantação de válvula da aórtica, colocou em cima da mesa a atividade dos centros de referência para cardiologia no norte, nomeadamente os dos hospitais de Gaia e São João (Porto), e a possibilidade de outros hospitais, como o Santo António - cujo diretor de cardiologia disse ao DN ter “infraestruturas e competências” -, poderem criar unidades para vir a realizar tais procedimentos, de forma a ajudar a limpar as listas de espera. Pelo menos a dos seus doentes, já que, em 2025, por exemplo, encaminharam 265 doentes para os centros de referenciação que ficaram em lista de espera. Na semana passada o diretor de serviço de Cardiologia do Santo António sublinhava que há pareceres da DGS e uma norma interna dos dois secretários de Estado da Saúde a não se oporem à criação desta unidade. As opiniões dividem-se e a ministra da Saúde assumiu, durante a semana, no Parlamento, que as listas de espera a “preocupam muito como ministra". "Porque me responsabiliza”, disse, reforçando que já tinha pedido “soluções urgentes” à Direção Executiva do SNS e à Direção Geral da Saúde (DGS). Entretanto, surgiu uma outra carta, de três diretores de centros de referência - da ULS Santa Maria, da ULS de Coimbra e da ULS de Gaia -, a alertar também para as consequências que podem surgir se tais procedimentos começarem a ser realizados por unidades que não estão preparadas para o fazer, e que se há investimentos em termos de equipamento e de meios a fazer por parte da tutela então que estes sejam feitos nos centros de referência que já existem. No país existem seis, sendo que a Rede de Referenciação para Cardiologia, aprovada em 2023, define a criação de mais dois: um em Braga, que começou agora a funcionar; outro em Faro, que ainda não.A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, reuniu-se nesta quarta-feira com os diretores dos centros de referência de Lisboa (Santa Maria, Santa Marta e Santa Cruz) e de Coimbra. E o diretor-executivo do SNS reuniu-se na quinta-feira com os diretores de serviço dos centros do Norte (Gaia, São João e Braga). O DN quis saber se algo foi decidido nestas reuniões e quais vão ser os passos seguintes, mas não obteve resposta.No dia 3 de março, a Ordem dos Médicos do Norte vai reunir-se com os diretores dos centros de referência e diretores de serviço que lançaram a carta de alerta, os quais ainda não receberam qualquer resposta à situação relatada à ministra da Saúde. “Nem sequer para sermos ouvidos e ajudar a encontrar uma solução”, disse ao DN Cristina Gavina, diretora do Serviço de Cardiologia do Hospital de Matosinhos..IGAS pediu a ULS do Norte explicações sobre listas de espera em cardiologia e eventuais mortes.Ministra aceitará mais centros de referência ou outras soluções para travar listas de espera em cardiologia