Passou uma semana desde que quatro diretores de Serviço de Cardiologia de hospitais do Norte (Santo António, Matosinhos, Vila Real e Penafiel) enviaram uma carta de alerta à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, sobre listas de espera na área da cardiologia, nomeadamente em cirurgia e na implantação de válvulas da aórtica percutânea, dizendo que “há doentes em risco”. Ao fim deste tempo, a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) já fez saber que está a averiguar os eventuais “constrangimentos relacionados com listas de espera e mortes na área da cardiologia”. A Inspeção Geral das Ativida- des em Saúde (IGAS) também já pediu mais explicações ao Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde Santo António ULSSA), no Porto, sobre a existência de listas de espera e a possível ocorrência de mortes de doentes enquanto esperam para serem intervencionados, como referiram ao DN os médicos que subscreveram a carta de alerta à ministra da Saúde. Só depois destas respostas é que a “IGAS decidirá sobre uma possível ação inspetiva”, confirmou ao DN o inspetor-geral, António Carapeto.Mas ao fim deste tempo, os diretores de serviço do norte dizem que ainda não receberam “qualquer resposta do ministério”. “Nem sequer para sermos recebidos e para nos ouvirem, porque gostávamos de ajudar a encontrar soluções”, argumenta a diretora de serviço da unidade de Matosinhos, Cristina Gavina, uma das subscritoras da missiva e que é ao mesmo tempo presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC). “O que relatamos no documento é indiscutivelmente uma situação que merece uma solução urgente”, mas temos consciência que “isso só vai ser possível quando houver transparência e quando todas as pessoas puderem estar sentadas à mesma mesa para conversar”, sublinha.O DN questionou o gabinete da ministra da Saúde sobre o facto de ainda não haver uma resposta e foi remetido para as declarações de Ana Paula Martins, esta semana, na Assembleia da República, em que assumiu ser uma “situação que a preocupava” e que queria “soluções urgentes” da parte da Direção-Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) e Direção-Geral da Saúde (DGS). Na quarta-feira, 25, a ministra reuniu-se em Lisboa com os diretores dos Centros de Referência de Cardiologia (CRC) de Lisboa e Coimbra, com os diretores clínicos e conselhos de administração. Ontem, o diretor executivo Álvaro Almeida reuniu-se com os diretores dos centros do norte, sediados em Gaia, São João (Porto) e em Braga. Resultados ainda não são conhecidos, mas há, pelo menos, um parecer da DGS, datado de setembro, em que já se assumia a possibilidade de uma unidade cirúrgica no Hospital Santo António e há também a manifestação de “não oposição dos secretários de Estado da Saúde”, na sequência desta proposta. Só não se sabe porque é que esta unidade ainda não avançou e a adiministração do hospital também não o esclarece. Centros de Referência também denunciam “falta de investimento”Uma semana depois há uma nova carta, desta vez em forma de carta aberta para ser um alerta à sociedade em geral. É assinada por três dos seis diretores de Centros de Referência de Cardiologia existentes no país - Fausto Pinto, diretor do Departamento do Coração e Vasos, da ULS Santa Maria, em Lisboa, Lino Gonçalves, diretor do Serviço de Cardiologia da ULS Coimbra e Ricardo Fontes Carvalho, diretor Serviço de Cardiologia da ULS Gaia/Espinho. Segundo Fausto Pinto, esta carta surge também para alertar a comunidade para um facto: “É que se existem listas de espera, sendo que estas começam muito antes de chegarem à cirurgia, muitas vezes logo na marcação para a primeira consulta de cardiologia, é porque há falta, não de planeamento, mas de investimento nos centros de referência”, argumenta. .Ministra aceitará mais centros de referência ou outras soluções para travar listas de espera em cardiologia.E acrescenta: “A nossa preocupação foi vir dizer que, como diretores de serviço, temos uma responsabilidade muito grande, que é a de tratar doentes todos os dias, e a minha responsabilidade e a dos meus colegas, como diretores de serviço, é garantir que estamos em condições de responder àquilo que são as necessidades da nossa população, independentemente de ministros e governos, porque para nós isso é completamente irrelevante”. O que não é irrelevante, “obviamente, é que cabe à tutela dar condições para que possamos executar o que temos de executar para tratar os doentes”.Na carta, a que o DN teve acesso, é sublinhado que “o problema do acesso não resulta da falta de centros nem de incapacidade técnica instalada. Resulta sobretudo de constrangimentos organizacionais, financiamento desajustado e limitações persistentes no modelo público de contratação de recursos humanos - problemas bem identificados e para os quais já foram apresentadas várias soluções concretas. Desta forma, o expectável seria o reforço dos centros de referência existentes, permitindo, assim, ganhos imediatos, sem criar nova despesa estrutural permanente e dispersão de escassos recursos altamente diferenciados”.O diretor do centro da ULS Santa Maria reforça mesmo ao DN que “o problema nesta área não é a falta de soluções”, avançando para uma parte da carta em que ele e os colegas criticam o Estado, ou seja, a tutela: “O planeamento existe e foi formalmente aprovado através da Rede Nacional de Referenciação Hospitalar de 2023. A verdadeira questão é outra: que valor têm os instrumentos técnicos ao serviço do Estado se o próprio Estado decide ignorá-los de forma incompreensível?”. O médico dá como exemplo a atividade do seu serviço que em 2025 fez 217 implantações de válvula da aórtica percutânea, quando “temos capacidade para fazer muitos mais, senão mesmo o dobro, mas não nos foi possível porque não houve investimento para que pudéssemos fazer mais”.A situação não é única. Aliás, no alerta feito pelos quatro diretores do norte, o Hospital São João era referido como um dos centros que estava a funcionar abaixo da sua capacidade por falta de investimento das próprias administrações.Cristina Gavina, como presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, concorda que “uma das primeiras coisas a fazer-se é dar autorização aos conselhos de administração dos centros de referência para que possam fazer as despesas necessárias, de forma a para garantir que os procedimentos são realizados aos doentes”, reforçando que “um dos problemas fundamentais no Norte é o facto de o centro do Hospital São João ter tido nos últimos três anos uma performance abaixo daquilo que seria esperado, o que quer dizer que o número de procedimentos que realiza, nomeadamente em relação às válvulas percutâneas, é claramente inferior aos do resto do país e insuficiente para as necessidades da população que serve. E isto tem, obviamente, a ver com a responsabilidade dos conselhos de administração que limitam o número de válvulas que podem adquirir. Isto é uma realidade”. A médica refere que este “centro de cirurgia cardíaca sempre esteve subdimensionado para a área de referenciação. Isto é, cerca de dois milhões e meio de portugueses têm estado a ser referenciados para um único centro, o do São João, sobre o qual se sabia há muitos anos que estava sujeito a grande pressão, tendo-se demorado muito tempo a dar o passo para a abertura de mais um centro, que ocorreu agora no início do ano em Braga, quando tal já estava definido desde 2023”.A diretora de serviço afirma não perceber porque "é que, e se havia um caminho natural a fazer por parte destes centros, nunca foi assumido antes, e só agora é que se lembram de falar, que havia necessidade de reforço dos meios. Isto, é o ponto número um”. .DGS quer reavaliar modelo de centros de referência em cardiologia e outras áreas para garantir “melhor tratamento” aos doentes.O ponto número dois - que segundo a médica tem a ver com a possível dispersão de recursos humanos com a criação de mais unidades, ponto que é referido na carta dos diretores de CRC - “porque é que não estamos a discutir a questão de haver poucos cirurgiões cardíacos e de muitos destes trabalharem só cerca de 20 horas no SNS, porque é que o colégio da especialidade da Ordem só pediu a abertura de duas vagas para o internato de cirurgia cardíaca deste ano em todo o país?” - quando se sabe que há apenas 19 cirurgiões inscritos na Ordem dos Médicos.Depois, destaca ainda, “há outra questão. Porque permitimos, por exemplo, que centros privados estejam a fazer um volume de cirurgias cardíacas muito reduzido. Se isto fosse num centro público não seria permitido, era sinal de que não tinha condições mínimas de segurança nem bons resultados. E na verdade estes centros privados funcionam com os recursos que são extremamente valiosos e que estão simultaneamente no SNS. Ora, o SNS tem de ser capaz de atrair os cirurgiões cardíacos de forma a que trabalhem mais do que 20 horas semanais”.Centros de referência são fundamentais, mas centros referenciadores tambémEnquanto presidente da SPC, Cristina Gavina faz questão de esclarecer que “o que está em causa não é uma guerra entre hospitais ou serviços. O que está em causa, e é esta a minha posição como cardiologista e presidente da SPC, e que nos interessa a todos, é encontrar-se em conjunto uma solução que rapidamente possa dar resposta ao estrangulamento que existe na região norte e que está a impedir que se possa dar solução aos casos em lista de espera”, destaca.Cristina Gavina argumenta que “os centros de referência são fundamentais, mas os centros referenciadores também, em qualquer resposta aos doentes. E perturba-me ver esta tentativa de atirar responsabilidades de uns para os outros, quando temos de admitir que todos temos responsabilidades na condução de uma solução”. Mas deixa uma crítica, nomeadamente a um dos pontos da carta divulgada pelos diretores dos CRC: “Não é correto aquilo que está descrito na carta, que a responsabilidade da situação das listas de espera também é dos centros mais pequenos, por não estarem a conseguir fazer as consultas no tempo correto. Isto é uma falácia, uma forma de tentar escamotear um problema com outro problema, porque se os centros mais pequenos têm listas de espera para consultas, os centros de referência também as têm, infelizmente. Portanto, não me parece que seja assim que vamos conseguir resolver os problemas nesta área, a bem dos doentes”.A cardiologista afirma ao DN concordar com o que diz Fausto Pinto, no sentido de se investir mais nos centros de referência. “É assim que deve ser”, resume. “Concordo que primeiro se devem explorar todas as possibilidades no que já existe e só depois devemos procurar novas soluções, mas para isso temos que deixar de estar a encontrar desculpas para começarmos a olhar para as soluções, mas, parece-me, neste momento, que as pessoas estão a perder-se em pequenas lutas que são completamente periféricas, deixando para trás o problema central que devíamos estar a discutir, que é, efetivamente, organizarmo-nos melhor para darmos melhor resposta aos doentes”. E é neste aspeto que refere ser “ contra um certo alarmismo que está a criar-se e que considero que é altamente negativo para os doentes e para as famílias, porque quem está em lista de espera fica extremamente ansioso. Não estamos a prestar um bom serviço à população”, reforçando mais uma vez que “temos de nos sentar todos à mesa e ter uma conversa que não pode deixar ninguém de fora nem o que está a acontecer, mas pelos vistos a tutela e a direção executiva apenas pretendem falar com os centros de referência, mas não com os centros referenciadores”..Hospitais do Norte alertam ministra para listas de espera em cirurgia cardíaca: “Há doentes em risco”.Quer centros de referência quer centros referenciadores (os que encaminham para os primeiros) assumem que a sua responsabilidade é com os doentes e que a situação que se vive de listas de espera “é particularmente difícil para quem está no terreno”. Os diretores dos CRC dizem mesmo na sua carta que “é particularmente difícil para quem tem a responsabilidade de gerir recursos altamente complexos, como são os assinantes deste texto. O SNS não precisa de decisões avulsas nem de respostas reativas, que apenas servem para o enfraquecer. Precisa, isso sim, de coerência e respeito pelo planeamento que aprovou. Porque, em medicina de elevada complexidade, improvisar não resolve listas de espera - apenas adia, e quase sempre agrava, problemas, aumentando, consequentemente, o risco para quem mais depende do sistema. E quando a organização falha, quem mais espera e sofre as consequências, não é o sistema. São, acima de tudo, as pessoas que mais dele necessitam, ou seja os nossos doentes! Haja sentido de responsabilidade”, escrevem. Do lado dos centros referenciadores, Cristina Gavina destaca que o que “gostava de deixar claro é que é preciso que temos todos criemos condições para conseguirmos soluções, a bem dos doentes”.