A Polícia Judiciária (PJ) já apreendeu 16 toneladas de cocaína este ano, sobretudo em alto mar. O número refere-se ao período entre janeiro e 31 de maio de 2026, de acordo com dados facultados ao DN por fonte oficial da Judiciária. Assim, nos primeiros cinco meses do ano, a PJ apreendeu o equivalente a 63% do total de cocaína apreendida durante todo o ano de 2025.Entre janeiro e maio, a PJ realizou 600 apreensões de cocaína. Trata-se do estupefaciente com maior volume apreendido em Portugal, tanto no ano passado como este ano. Embarcações e contentores nos portos continuam a ser alguns dos principais locais onde a droga é intercetada.Foi o caso, por exemplo, da apreensão de uma tonelada de cocaína na zona do porto de Leixões, no Norte do país. Foram intercetados e fiscalizados dez contentores de mercadorias provenientes da América do Sul, nos quais a droga, com elevado grau de pureza, se encontrava dissimulada entre várias centenas de sacos de açúcar de 50 quilos.As apreensões resultam, sobretudo, de investigações conduzidas pela Polícia Judiciária, que tem concentrado a sua ação no domínio marítimo. Em 2025, a maioria - e também as maiores apreensões - ocorreu em alto mar. Os Açores (8803 quilos) e a Madeira (7526 quilos) lideram as quantidades apreendidas, precisamente porque muitas operações decorrem no oceano, durante a interceção de embarcações antes de a droga chegar ao continente.Os dados dos últimos anos confirmam que é pela via marítima que a cocaína chega a Portugal. Segundo o relatório Combate ao Tráfico de Estupefacientes em Portugal (TCD) 2025, a localização geográfica é apontada como um fator determinante. A posição de Portugal - incluindo o continente e os arquipélagos - face à América do Sul, principal região produtora de cocaína, confere ao país “um papel bastante relevante” no combate ao tráfico destinado a outros países europeus.O documento refere ainda que “as organizações criminosas continuam a utilizar o território na nacional, as águas sob soberania e jurisdição nacional, bem como as águas internacionais adjacentes à costa portuguesa, como plataforma de trânsito da cocaína”. O número de apreensões de cocaína em Portugal subiu 20,6% em 2025 e o volume da droga apreendida aumentou 11,4%, face a 2024.A mesma tendência de uso do Atlântico pelo narcotráfico é sublinhada em documento recente do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência. O Relatório Europeu sobre Drogas 2026 destaca que as embarcações não são o único meio de transporte com as redes mafiosas a serem cada vez mais sofisticadas nas estratégias. “O aumento do uso de transferências marítimas por meio de diversos tipos de embarcações, semissubmersíveis, drones e disfarces em grandes profundidades criou um alvo cada vez mais imprevisível, fragmentado e que exige muitos recursos das autoridades policiais e alfandegárias”.É citado, por exemplo, que este ano as autoridades espanholas apreenderam dez toneladas de cocaína escondidas em sacos de sal. “Tais incidentes, e as crescentes formas de tráfico facilitadas pela tecnologia, como o uso de drones, exigem respostas rápidas e uma abordagem renovada para acompanhar as táticas dos traficantes”, refere o relatório.E não é somente a cocaína já pronta para o consumo que chega ao continente europeu. “Grandes quantidades de cloridrato de cocaína são processadas na Europa, principalmente na Bélgica, Holanda, Espanha e Portugal, a partir de produtos intermediários (pasta de coca e base de cocaína) traficados da América do Sul”, detalha ao observatório.CooperaçãoTem sido constante a cooperação de Portugal com outros países no combate ao narcotráfico no mar. A vizinha Espanha é uma das principais parceiras, por razões geográficas e um longo histórico de cooperação.As águas internacionais entre as Ilhas Canárias e os Açores estão a ser, cada vez mais, utilizadas por redes criminosas para operações de transbordo de cocaína em larga escala, tirando partido do isolamento da área e dos desafios operacionais associados à vigilância marítima, afirmou a PJ em comunicado recente. Esta zona passou a ser conhecida entre as Autoridades como “Autoestrada da Cocaína”, devido ao crescente número de embarcações utilizadas para transportar cocaína para a Europa através deste corredor atlântico.Por exemplo, no ano passado, Portugal recebeu um pedido de Espanha após as autoridades espanholas detetarem 822,62 kg de cocaína num contentor marítimo proveniente do Brasil e destinado a Portugal. A operação resultou em duas detenções. Portugal foi também o país que desencadeou um pedido para Espanha, depois de terem sido descobertos 75 kg de cocaína num contentor marítimo proveniente da República Dominicana, que tinha como destino Espanha. A operação levou à detenção de cinco pessoas. Estas ações mostram que Portugal não atua de forma isolada, mas também faz parte da rede europeia de combate ao tráfico de cocaína que percorre o Atlântico. No ano passado, foram detidas 1773 pessoas por tráfico de cocaína, sobretudo na faixa etária acima dos 40 anos. Registou-se uma subida de 15,7% no número global de intervenientes e de 14,2% no número de detidos, relativamente a 2024. A maioria (89,2%) são homens e de nacionalidade portuguesa (73%), seguidos de cidadãos do Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Espanha.amanda.lima@dn.pt.PJ. Cocaína apreendida em quase ano e meio daria para 410 milhões de doses.Portugal ganha peso nas rotas da cocaína para a Europa, alerta ONU