Nas eleições legislativas de 2022, a bancada do Chega cresceu de um deputado único para 12. Leonardo Negrão / Global Imagens
Nas eleições legislativas de 2022, a bancada do Chega cresceu de um deputado único para 12. Leonardo Negrão / Global ImagensLeonardo Negrão / Global Imagens

Retrato da direita radical. Democracia, valores variáveis e “exploração dos instintos primários”

Os politólogos Adelino Maltez, Jaime Nogueira Pinto e António Costa Pinto juntam a sua perspetiva à do historiador Fernando Rosas para mostrar que a democracia portuguesa, em ano de eleições e perante a ascensão da direita radical, aguenta muito, mas com limites.
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Os partidos da direita radical populista “não têm uma dimensão programática muito coerente”, explicou ao DN o professor de Ciência Política no ISCTE António Costa Pinto. “É por isso que o conceito de direita radical populista abrange mais do que extrema-direita”, continua, “porque eles não são comunistas ao contrário”.

A origem da família política do Chega não é um fenómeno recente, é identificável no tempo, apesar de este tipo de abordagem política ser nova em Portugal. 

De acordo com a análise que António Costa Pinto fez ao DN, os partidos populistas de direita radical “não têm um programa tão estruturado ideologicamente como, por exemplo, tinham os antigos partidos comunistas e como ainda tem o Partido Comunista Português, ou o PNR, que é um partido neofascista”, sustenta, sugerindo que as pessoas já eram sensíveis às reivindicações do Chega antes de o partido surgir, mas agora ganharam um contexto para mostrar a sua perspetiva. “A emergência mais tardia destes partidos de direita radical populista em Portugal, em relação a outras democracias europeias, remete para o eleitorado potencial”, que, afirma o politólogo, é composto pelos “segmentos da sociedade portuguesa que expressam valores autoritários” e que já “estavam lá”. A diferença face ao passado é que ainda não havia “um partido” e “um empresário político em conexão com esse eleitorado”. Para António Costa Pinto, “isso não tem nada de estrutural. Numa conjuntura particular de vitória do PS [nas eleições legislativas de 2022] e de voto mais livre do eleitorado de direita, surge a oportunidade de o Chega entrar no Parlamento e a partir daí crescer”.

Quanto à origem do fenómeno, os analistas políticos dividem-se. Em declarações ao DN, o cientista político Jaime Nogueira Pinto defendeu que “a ascensão da direita radical ou do nacional-populismo deve-se a este movimento responder a aspirações e necessidades de uma parte dos eleitores a que os partidos do sistema não querem ou não sabem responder”. E se olharmos para o resto da Europa, propõe, as razões para a proliferação dos partidos congéneres do Chega “são diferentes: nos Países Baixos, em França, nos países escandinavos, é a imigração de cultura islâmica dificilmente integrável; em Espanha, são os separatismos; na Europa Oriental, é a resistência às intromissões de Bruxelas. Em todas há uma resistência ao wokismo e ao politicamente correto da esquerda”, afirma.

Com uma outra visão, o historiador e fundador do Bloco de Esquerda Fernando Rosas explicou ao DN que “a extrema-direita existe desde o pós-guerra, começou com a nostalgia do fascismo, mas sofreu transformações importantes a partir dos anos 70, ou seja, quando começa a impor historicamente a época do capitalismo neoliberal”. “O capitalismo neoliberal deixou um rasto de destruição económica e social, com despedimentos, a liberalização do movimento de capitais, a liberalização das relações laborais, e tudo isso criou uma massa de desempregados, de precários, de gente marginalizada, de pequenos proprietários ameaçados, gente que não se sentia representada no sistema político”, aponta Fernando Rosas como contexto para o ponto de partida para o desconforto de quem procura soluções. E, continua o historiador, é aqui que “a extrema-direita pesca o descontentamento, a raiva, o medo. O medo tem uma importância muito grande, a perda de estatuto social, tudo isso é uma mistura explosiva que vai ao encontro da exploração dos instintos primários, que é a grande linha de atuação da extrema-direita: prometer às pessoas que, face ao desemprego, à falta de habitação, à precariedade, à marginalização social e económica, há uma “America Great Again” [slogan da campanha presidencial de Donald Trump], há um Portugal regressado à glória dos navegadores, santos e cavaleiros, e há disciplina e há a ordem do Deus, pátria e família do salazarismo”, conclui.

Partindo do terreno onde a família política do Chega tem ganhado seguidores, questionado sobre se a democracia aguenta estes avanços, o professor catedrático em Ciência Política no ISCSP Adelino Maltez afirma que “a democracia não aguenta tudo”, apontando como grande desafio a “falta de coragem dos partidos”. “Qual é a posição dos partidos sobre o programa de luta contra a corrupção?”, pergunta de forma retórica. “Nem querem falar disso”, critica, enquanto sublinha que o Chega “aproveita aquilo onde” os outros partidos não atuam. Interrogado sobre se é possível para os partidos assumirem o combate à corrupção nos seus programas, o politólogo não hesita: “Não é possível, é obrigatório.”

De forma mais direta, sobre se a democracia sobrevive à presença do Chega numa solução governativa, António Costa Pinto garante que sim, mas com cautela. “A democracia portuguesa vai sobreviver de certeza se o Chega não for o partido dominante da direita em Portugal. Ou seja, se o PSD fizer uma aliança em que o Chega é o pequeno partido, a democracia sobrevive seguramente”, prevê.

Por outro lado, Jaime Nogueira Pinto mostra confiança. “A direita radical ou nacional-populista, que eu saiba, é democrática, e onde ocupou o poder - na Hungria, na Polónia, em Itália, por exemplo - não acabou com a democracia e as liberdades democráticas. A esquerda é que, como pretende ter o monopólio da democracia, insiste nessa afirmação de a direita radical ser antidemocrática, e a generalidade dos media dá cobertura a esta versão. Ao mesmo tempo, diz que ela é perigosa porque tem o voto do povo. Será o povo estúpido e antidemocrático?”, questiona o politólogo.

vitor.cordeiro@dn.pt

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