O líder do Chega, André Ventura, divulgou publicamente neste sábado uma carta que escreveu a Luís Montenegro, defendendo que o primeiro-ministro "não pode ter medo de agir" nos casos que envolvem o ministro da Administração Interna, Luís Neves, caso queira "manter-se como ponto de autoridade no Governo".Sem nunca se referir explicitamente à exoneração do antigo diretor nacional da Polícia Judiciária, que assumiu a pasta da Administração Interna no início deste ano, Ventura escreve a Montenegro que "as notícias que têm vindo a público comprometem gravemente a confiança dos portugueses nas instituições e denotam uma cultura de gangsterismo que não é compatível com o exercício do poder democrático".Em causa estão notícias sobre as ligações de Luís Neves a João Santos Carvalho, um empreiteiro de construção civil cuja empresa unipessoal Construbarcelos foi escolhida pela Polícia Judiciária em 17 contratos públicos, tendo feito obras numa casa alentejana do atual governante, de quem diz ser amigo, e que terá ficado na posse de um atrelado apreendido pela polícia de investigação numa operação de combate ao tráfico de drogas. Factos que, segundo o líder do Chega, "dão a entender, espero que erradamente, que um grupo de crime de crime organizado capturou o Estado Português, nomeadamente as suas instituições mais sagradas e que deveriam ser mais independentes"."A permanência em funções do ministro da Administração Interna afeta muito negativamente a imagem do Governo e arrastá-lo-á irremediavelmente para a cumplicidade criminosa, pressão sobre as instituições de investigação criminal e perda de autoridade institucional", escreve Ventura na carta enviada ao primeiro-ministro, na qualidade de presidente do maior partido da oposição. E defendendo que o PSD e o Chega, tal como o PS, têm como "responsabilidade primeira e sagrada" a proteção das instituições democráticas.O líder do Chega pergunta na carta ao primeiro-ministro "como pode o ministro que tutela as polícias incumprir escandalosamente a lei em pequenas ou grandes coisas", encontrando-se sob suspeita de condicionar a Polícia Judiciária "para proveito próprio e arrastar a sua imagem institucional para o lodo". E refere "suspeitas de ligação entre o ministro das polícias e as investigações ao crime organizado mais violento e destruidor", perguntando-se como Luís Neves poderá coordenar o combate aos incêndios "sem qualquer autoridade política".Acusando os restantes partidos de "preferirem ficar em silêncio", nomeadamente o PS, "de forma expectável, mas não compreensível", Ventura diz ter ficado "ainda mais convencido do que é preciso fazer neste momento" após a reunião com o Presidente da República, António José Seguro, nesta terça-feira. E escreve ao primeiro-ministro que, "se nada for feito, tal pode significar, muito sinceramente que as instituições em Portugal estão já completamente capturadas por correntes obscuras e subeterrâneas de poder e criminalidade".André Ventura recorre mesmo ao exemplo de Miguel Macedo, que se demitiu de ministro da Administração Interna ao ver-se envolvido "numa suspeita criminal" durante o Governo de Passos Coelho - foi acusado de prevaricação e tráfico de influências na atribuição de vistos gold, acabando absolvido anos mais tarde. Para o líder do Chega, o social-democrata, falecido no ano passado, "percebeu que a Administração Interna não pode estar sem autoridade ou integridade" e que "as instituições estão sempre acima da sua vontade e do seu desejo pessoal". .IL e PS cobram esclarecimentos de Luís Neves; Chega defende demissão.Além do atrelado, amigo de Luís Neves tinha bidões com químicos para droga