Na segunda volta das Eleições Presidenciais de 2026, tal como aconteceu na primeira, há 11.039.672 eleitores recenseados. No entanto, nem todos os que estão em posse deste direito constitucional podem exercê-lo – como é o caso de alguns idosos institucionalizados –, simplesmente porque há um hiato na legislação. O DN conversou com utentes de lares e mergulhou num mundo onde a dependência se sobrepõe à vontade própria. No final, resta a disponibilidade dos familiares, para aqueles que os têm. O porta-voz da Comissão Nacional de Eleições (CNE), André Wemans, explica que “nada na lei obriga a que haja” transportes de utentes nestas circunstâncias, e, para que estes eleitores sejam abrangidos, “isso terá sempre de passar por alguma revisão da lei eleitoral”.No que diz respeito a pessoas hospitalizadas ou presos, a CNE deixa claro que há um período de voto antecipado, que implicava um requerimento feito ao presidente da câmara da zona de recenseamento. Depois, num período estipulado para o efeito, o autarca desloca-se ao estabelecimento hospitalar ou prisional para recolher o voto. No entanto, os lares não estão contemplados em nenhuma exceção.Entre os utentes dos lares há perspetivas diversas sobre o ato eleitoral. Há quem já não tenha capacidade cognitiva para ir às urnas, mas há também quem não vá por outros motivos. E ainda há quem vote e há quem queira votar e não possa.“As pessoas que votam aqui são só as pessoas cujas famílias se dão ao trabalho de as acompanhar”, relata Patrícia Pires, diretora do Lar da Minha Avó, no coração de Lisboa, que abriu as portas ao DN para que os utentes pudessem contar as suas histórias..Patrícia Pires descreve que, há uns anos, ouviu “falar de um lar em que tinham sido recolhidos votos”. Porém, assegura, contactou a CNE para saber como poderia acionar estes meios, mas sem sucesso. “Tinha aqui várias pessoas que não tinham capacidade física de votar, mas que o queriam fazer e que cognitivamente estavam perfeitamente capazes de o fazer. E não me foi dada nenhuma solução. Portanto, teria a hipótese do voto antecipado. Como tem qualquer cidadão. Mas a situação mantém-se”, explica.Sobre as exceções à regra, Patrícia Pires fala na história de um utente que tem uma família que o leva à mesa de voto, “apesar de estar em cadeira de rodas, mas isso não é fácil para toda a gente”, garante.“As pessoas nos lares, às vezes, são um bocadinho excluídas da sociedade e não o deveriam ser”, até porque votar é “um direito constitucional”, e “não é por se envelhecer e deixar de ter a mesma capacidade que as outras pessoas que se deveria perder esse direito”, remata a reponsável pelo lar.Entre a solidão, a família, a resignação e o protestoSentado a ver televisão numa sala que tem vários instrumentos musicais, como adufes, uma viola e uma caixa de guerra, o DN encontrou António João Costa, que, com 95 anos e total autonomia para se mover, preserva também a lucidez de quem sabe quem quer eleger para Presidente da República, mas não vai votar..“Não vou. Se fosse votar, iria votar no PS. Não vou, não vou”, repete, com toda a confiança.No entanto, há uma outra convicção que está por trás da escolha que assume: “As eleições estão ganhas. O Seguro vai ganhar as eleições. Cada um faz como pensar, e não me caem as conversas do outro. Como é que se chama?”Depois de recordado do nome do candidato, conclui a sua exposição de ideias com uma certeza: “O André Ventura pode adormecer crianças, mas a mim não me adormece.”Detentora de uma lucidez contagiante, Susana Abrantes, de 89 anos, diz ter a certeza absoluta de que vai votar. Mãe de duas filhas – “gémeas verdadeiras”, sublinha – e avó de cinco netos, a eleitora só está no lar porque tem alguns problemas de mobilidade e recusa dar trabalho à família, confessa..“Nunca deixei de votar, também. Quando uma delas [as filhas] me vier buscar, ou algum dos meus netos, claro que eu vou”, insiste, com ânimo, destacando, sem revelar nomes, que vai “revotar” – palavra que inventou – no mesmo candidato em quem votou na primeira volta.No conforto do seu quarto, na companhia do seu smartphone, o DN encontrou Luísa Gonçalves, que, aos 90 anos, apesar de ter uma memória invejável e uma clareza de pensamento indiscutível, garante não estar bem, e não se refere apenas às sequelas do AVC que sofreu e da leucemia de que se queixa. “Basta não ir votar. Porque tenho as minhas ideias, evidente. Ainda tenho”, explica.Sobre outras pessoas que não vão votar, acusa-as de “comodismo”. “E eu, no meu caso, não é por comodismo”, vinca, lamentando os condicionalismos. Em relação às outras pessoas, deixa um aviso: “E depois queixam-se que não é aquilo que pretendiam.”Sobre o que a leva a não ir votar, Luísa Gonçalves descreve os problemas de mobilidade que a afligem e que a obrigam a “andar a quatro”, como refere, isto é, a agarrar-se a onde pode, enquanto movimenta as pernas devagar.Como se sente insegura a andar agarrada a outras pessoas, “porque se mexem”, não vai votar. “Ia andar a quatro. Não há dúvida”, remata.Garante que preferia que fossem ao lar recolher o voto, tal como acontece nos hospitais e nas prisões. Sobre a possibilidade de ter familiares a levá-la à mesa de voto, não é uma opção: “Fiquei sozinha no mundo. O meu pai era filho único, a minha mãe era filha única. Eram todos mais velhos, fiquei eu cá. Ficou cá o restinho.”.Seguro acusa Ventura de "pequena manobra" por sugerir adiamento eleitoral.Marcelo admite adiamento das eleições em zonas afetadas e diz que situação em Alcácer é "a mais grave" do país