Depois de uma primeira fase focada na pacificação interna do partido, José Luís Carneiro começa agora a apontar a mira da sua intervenção mais intensamente para Luís Montenegro. Nos primeiros dez meses como secretário-geral, o líder socialista privilegiou uma postura moderada e dialogante, procurando entendimentos com o Governo e tentando levar negociações a bom porto. Mas o chumbo de várias propostas socialistas e o afastamento entre PS e Executivo em matérias centrais aceleraram uma mudança na estratégia elaborada internamente nas reuniões do secretariado, como a da última terça-feira.Ora, segundo apurou o DN, Carneiro e o seu círculo mais próximo no partido consideram esgotada a fase de maior contenção política. E a rejeição dos planos de ação do PS para áreas como Saúde, Justiça e Administração Interna, somada às divergências profundas sobre imigração, nacionalidade e alterações ao Código do Trabalho, levou o secretariado a concluir que é necessário endurecer a oposição no Parlamento. .Mariana Vieira da Silva é trunfo para José Luís Carneiro.Essa linha de oposição cresceu já face à atuação do Governo após o estalar do conflito no Médio Oriente. E fez o PS retomar, com insistência, o desejo de aumento permanente das pensões mais baixas para fazer face ao custo de vida e insistir também na redução do IVA de 23% para 13% nos combustíveis, assim como a adoção do IVA zero no cabaz alimentar, proposta que tinha sido bandeira eleitoral de Pedro Nuno Santos e que Carneiro afastara inicialmente por receios quanto ao impacto nas contas públicas. Seis meses depois, porém, a avaliação interna mudou. Na liderança socialista cresce a convicção de que o PS precisa de marcar diferenças mais claras face ao Governo. Sem demagogia, mas com assertividade.A alteração de posicionamento resulta de dois fatores principais. Por um lado, a ausência de oposição interna no Congresso consolidou intramuros a liderança de José Luís Carneiro - mesmo contando com o distanciamento assumido por algumas figuras, como Duarte Cordeiro -, que procurou integrar diferentes sensibilidades do partido, incluindo dirigentes que inicialmente estavam afastados da sua liderança, como Mariana Vieira da Silva. Por outro, as sondagens internas e externas têm reforçado a perceção de crescimento do PS e de desgaste do Executivo de Luís Montenegro.Ainda é cedo para antecipar a posição socialista no próximo Orçamento do Estado, mas Carneiro admite menos margem para entendimentos em várias áreas. Na Saúde, o partido endureceu claramente o discurso e vai apertar o cerco sobre a ministra Ana Paula Martins, que considera não ter condições para continuar.No pacote laboral, o PS tenta certificar-se de que se discuta no parlamento uma proposta com os contributos acertados com a UGT em Concertação Social. Ferro Rodrigues, ex-líder do PS, defendeu ao DN que o partido deverá excluir “acordos a três”, no caso com o Chega, e que, depois de apresentar propostas, deverá votar contra o pacote laboral se estas não forem, minimamente, tidas em conta pelo PSD.A mesma lógica aplica-se à revisão constitucional. Apesar de no PS existir reconhecimento pelo facto de o PSD resistir, para já, às pressões do Chega para avançar com uma revisão em 2027, os socialistas insistem que Luís Montenegro deve concentrar-se mais na execução governativa do que em alterações constitucionais. Dentro do partido, há mesmo quem alerte para um “dano democrático” caso qualquer revisão avance sem entendimento à esquerda.Secretariado Nacional olha para as regiões: as pastas prováveis A lista de pastas do Secretariado Nacional está perto de ficar fechada e as assimetrias no território são preocupação de José Luís Carneiro. Estão no grupo próximo do secretário-geral a autarca de Almada, Inês de Medeiros, Luísa Salgueiro, de Matosinhos, João Azevedo, de Viseu, Luís Testa, ex-presidente da federação em Portalegre e, Luís Soares, de Guimarães, que é nomeado secretário nacional para a organização. Na Saúde, Maria Antónia Almeida Santos e Rosa Matos mantêm funções, João Torres e Jamila Madeira nos assuntos internacionais. Ana Mendes Godinho e Miguel Cabrita partilham esforços no Trabalho. Ricardo Bexiga herdará a Justiça, Sérgio Ávila as Finanças, André Moz Caldas ficará com liberdades e direitos de democracia. .As razões de José Luís Carneiro para abdicar de posição no Conselho de Estado em prol de Carlos César.Bragança, Vila Real e Viseu contrariam pedido de Carneiro e há listas rivais pelas federações.Luís Testa: “Não fui apoiante de primeira hora, mas José Luís Carneiro não tem ponta de sectarismo”