Estudantes surpreendidos – os que estavam a estudar e que não esperavam pela visita –, pulsação medida ao Ensino Superior e a aparição, pela primeira vez, do coporta-voz do Livre Rui Tavares na campanha para as presidenciais 2026. Foi neste ambiente que o candidato a Belém Jorge Pinto conversou esta quinta-feira, 8 de janeiro, com a Associação Académica da Universidade de Lisboa, num encontro que cumpriu o propósito de alertar para os problemas estruturais do Ensino Superior e destacar o papel que o chefe de Estado pode desempenhar na sua resolução. Não tendo ficado de fora da narrativa de Jorge Pinto algumas posições não necessariamente concordantes com as dos seus concorrentes do mesmo espectro político – a esquerda –, foi também neste ambiente que o DN descobriu que estes estudantes em concreto ouviram, em vários dias, à sua vez, quase todos os candidatos presidenciais, exceto André Ventura.O presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa, Gonçalo Castro, explicou ao DN que o convite a Jorge Pinto se inseriu numa estratégia deliberada de abertura institucional que já incluiu outros nomes da corrida à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa. “Endereçámos convite a praticamente todos os candidatos presidenciais”, afirmou.No entanto, segundo Gonçalo Castro, a decisão de não ter havido um encontro com o líder do Chega resulta de uma divergência de valores: “O candidato André Ventura representa tudo aquilo que a universidade, e em concreto a Associação Académica, não representa, que é a individualização, ser contra a solidariedade e contra a solidariedade entre pares.”Já a reunião com Jorge Pinto centrou-se nas condições de vida e de estudo, sem esquecer os desafios inerentes à permanência em Lisboa dos universitários. No final, o candidato identificou três grandes eixos de preocupação transversais, que tanto se aplicam à capital como à totalidade do país. O primeiro, e que classificou como o mais urgente, prende-se com o acesso a alojamento por parte dos estudantes deslocados.“Muitos deles não conseguem sequer entrar na universidade porque sabem que não vão conseguir pagar a sua habitação”, lembrou, alertando também para os casos de abandono ao fim de alguns meses, quando as rendas se revelam incomportáveis. Para Jorge Pinto, trata-se não apenas de um problema individual, mas uma perda coletiva. “Um enorme problema para o país que, não dando as condições a esses estudantes para que o sejam até ao final, para que se formem, está também a perder, se calhar, os seus melhores quadros do futuro”, descreveu.Neste contexto, o candidato defendeu um papel ativo do Presidente da República enquanto catalisador do debate político. É por isso que, caso seja eleito, assume o compromisso de convocar autarquias, Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) e Governo para identificar edifícios e terrenos públicos que possam ser convertidos em residências estudantis a preços acessíveis..Reconhecendo que houve avanços recentes, Jorge Pinto sublinhou também que estes estão ainda “muito longe daquilo que é necessário” e até do “mínimo para que esses estudantes possam viver no nosso país, possam estudar no nosso país”.O segundo eixo destacado pelo candidato foi o acesso aos cuidados de saúde mental, um problema que considerou “enormíssimo” junto da comunidade estudantil. Jorge Pinto refletiu sobre a escassez de psicólogos face ao número de estudantes e a resposta “lenta” e “fragmentada” das instituições. Assim, defendeu uma intervenção “muito mais coerente, uma resposta muito mais harmónica dentro das próprias faculdades aqui da Universidade de Lisboa”, alertando para situações extremas relatadas pela Associação Académica, incluindo casos “de jovens estudantes que tiram as suas próprias vidas por uma ou outra razão”, observou, acrescentando que, “se calhar, poderíamos ter conseguido evitar esse desfecho trágico se os cuidados e o acesso à saúde mental tivessem sido garantidos desde a primeira hora”.Para Jorge Pinto, um Presidente da República deve trazer este tema para o centro do debate público e pressionar para respostas rápidas e eficazes.O terceiro tema abordado foi o financiamento do Ensino Superior, a sua estabilidade e autonomia. Jorge Pinto reconheceu que o Presidente não legisla, nem intervém diretamente no Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, mas insistiu que pode e deve “obrigar a que a discussão avance”, promovendo um diálogo franco entre Governo, universidades e demais atores. O objetivo, afirmou, é garantir um ensino de “qualidade mundial, que forma bem os estudantes, que cria estudantes que vão depois entrar no mercado de trabalho e ser os melhores nas suas áreas”.Além destes temas, surgiu de forma transversal a preocupação sobre a perda de laços na comunidade estudantil, motivada por um “clima político cada vez mais polarizado, cada vez mais assente na discussão e no ódio, onde estes laços, sejam eles de amizade, sejam eles laços de colegas na universidade, laços familiares, estão a ser ameaçados”.Jorge Pinto valorizou a intervenção da Associação Académica neste domínio, defendendo que a universidade deve ser um espaço de construção de relações de solidariedade que depois se projetem para fora do meio académico. “É também defender o nosso país”, afirmou, associando a coesão social à própria defesa da democracia.Questionado sobre a eventual inclusão de estudantes no Conselho de Estado, mostrou-se favorável à ideia, defendendo uma composição que reflita a diversidade do país, incluindo em termos etários e de experiências de vida. Reiterou o compromisso de assegurar representatividade de género nas cinco nomeações presidenciais para aquele órgão consultivo, sublinhando a importância de ouvir quem vive hoje os desafios do Ensino Superior.A visita decorreu num momento em que a campanha presidencial tem sido marcada pelo debate em torno da defesa da Constituição, tendo Jorge Pinto voltado a alertar para o risco de uma revisão conduzida apenas pela direita. Defendeu que cabe ao Presidente usar “todas as ferramentas” ao seu dispor para defender a Constituição da República Portuguesa, sobretudo num ano simbólico em que se assinalam os 50 anos da Lei Fundamental.Também confrontado com questões relativas aos direitos das pessoas LGBT, o candidato garantiu que o tema faz parte da sua agenda, reafirmando uma posição de defesa intransigente da dignidade de todas as minorias e criticando o que classificou como normalização do discurso de ódio por parte da extrema-direita.Na qualidade de apoiante, Rui Tavares, coporta-voz do Livre, sublinhou o significado político da candidatura de Jorge Pinto. Para o líder do Livre, foi o candidato que colocou com maior clareza a defesa da Constituição no centro da campanha, alertando para contradições de outros concorrentes que, no seu entender, desvalorizam ou contornam os mecanismos constitucionais. “Eu teria vergonha era de apoiar um candidato que só consegue chamar a atenção pelo discurso de ódio. Eu teria vergonha era de apoiar um candidato que um dia jurasse a Constituição e depois, pela calada da noite, a atacasse”, disse, sem referir nomes.Já em relação à esquerda e a falta de resposta favorável ao pacto republicano lançado por Jorge Pinto, Rui Tavares falou numa certa “inquietude”, associada à “vergonha”: “Com alguns outros candidatos, nomeadamente até do meu campo político, da minha família política, que perante esta situação acabam por achar que o que devem fazer é a política do costume.”.Jorge Pinto garante que candidatura vai até ao fim.Debates. Seguro agrega à esquerda mais do que Marques Mendes à direita. Jorge Pinto foi a surpresa