Abril presente, António a Presidente.” Foi ao som destas palavras, entoadas por cerca de 1500 apoiantes, que António Filipe - o candidato à Presidência da República que concorre com o PCP como pano de fundo - entrou ontem no Complexo Desportivo Municipal do Casal Vistoso, em Lisboa, para um comício no qual voltou a defender que, com o surgimento da sua candidatura, “muita gente, não só comunistas, mas muitos outros democratas, fiéis aos valores da vida e aos valores da Constituição, passaram a ter um candidato em quem votar”. Momentos antes da incisão com estas palavras, António Filipe tinha sido recebido com uma concentração de apoio partidária que se manifestou sob a forma de abraços do atual líder do PCP, Paulo Raimundo, e dos dois secretários-gerais comunistas que o antecederam: Jerónimo de Sousa e Carlos Carvalhas.Num discurso que ocupou 45 minutos do comício, António Filipe, além de não poupar nos ataques àquilo que classificou como “consenso neoliberal” - numa referência àqueles que “para obter votos lamentam agora as consequências daquilo que sempre defenderam”, além de lamentarem “o aumento da pobreza e das desigualdades” apesar de apoiarem “políticas de especulação” -, deixou um aviso aos eleitores, no sentido de não terem “medo” de votar e de não cederem ao voto útil. “Quando algum eleitor, dentro da possibilidade de votar num candidato com que mais se identifica e reconhece como a candidatura mais capacitada para exercer o cargo, prefere votar num candidato com que nem sequer se identifica, só porque tem medo de que possa ganhar um candidato que ainda seja pior, é preciso dizer que esse eleitor já está derrotado antes de votar”, observou..Além disto, o candidato apoiado pelo PCP explicou que “não se combate a direita” votando “em alguém que nunca combateu a direita”.Numa sucessão de argumentos fundamentados em vários artigos da Constituição, António Filipe lembrou que o Presidente da República “não governa, mas não pode ignorar os graves problemas com que as pessoas se deparam”.Com a evocação do artigo 70.º da Constituição, o candidato presidencial, num exercício determinado, citou a Lei Fundamental para explicar que “os jovens gozam de proteção especial para efetivação dos seus direitos económicos, sociais e culturais” no que diz respeito ao Ensino, à formação profissional e à cultura, e “no acesso ao primeiro emprego, no trabalho e na Segurança Social, no acesso à habitação, na educação física e no desporto” e “o aproveitamento dos tempos livres”.Ao afirmar que não se conforma “em ver tantos jovens sujeitos à precariedade laboral” e tendo como “única possibilidade” a “emigração” para conseguir um “um salário decente”, António Filipe criticou um “quadro político em que a direita controla todos os órgão de soberania”.Por este motivo, argumentou, a sua candidatura é aquela que “exige um novo rumo para o país”. Aliás, o candidato repetiu a expressão “novo rumo” aplicando-a a várias circunstâncias ilustradas por uma lista de problemas sociais que começaram nas reformas, passaram pela Saúde - com uma palavra sobre “pessoas que morrem sem assistência” e “cirurgias adiadas”, com atribuições de culpa a “quem se recusa a investir no Serviço Nacional de Saúde” - e terminaram com uma análise de um país que diz não querer, onde “os ricos sejam tributados com impostos diretos como se fossem pobres e os pobres sejam tributados com impostos indiretos como se fossem ricos”.Com esta análise sobre “um mundo perigoso e inquietante em que vivemos”, o candidato a Belém alertou que esta luta travada é “pela sobrevivência, pela humanidade”, motivo pelo qual “é preciso ter coragem” num “empenhamento sério para pôr fim à guerra na Ucrânia” e no Médio Oriente, e garantir o “respeito pelo direito internacional” na Venezuela.Foi nesta fase, e com uma referência ao artigo 7.º da Constituição, relativo às relações internacionais de Portugal, que António Filipe, num momento em que se engasgou, acabando por ficar uns segundos sem voz, só teve tempo de alegar que “é também por isto que esta candidatura se distingue de todas as outras”. Depois, o silêncio breve. “Não é nenhum refluxo”, garantiu, angariando um riso generalizado entre a audiências, que interrompeu a ausência de palavras com o mantra que entoara no início: “Abril presente, António a Presidente.” “Não fiz de propósito”, assegurou o candidato.Constituição a afinar vozes comunistasAntes da intervenção de António Filipe, o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, surgiu com um discurso onde não distinguiu aquela candidatura unipessoal de uma coletiva, do partido, mas a semelhança mais marcante entre as palavras de ambos foi a evocação de vários artigos da Constituição, desde logo o 70.º, relativo aos jovens.“É o candidato que apela a que os jovens tomem nas suas mãos o destino do país”, descreveu o líder comunista, acrescentando que António Filipe apela a que “sejam protagonistas da sua concretização”..Depois, Paulo Raimundo analisou o candidato presidencial como alguém que, “entre o trabalho e o capital, opta, tal como na Constituição, pelos direitos que põem o país a funcionar”.“O António Filipe esteve lá junto dos protagonistas” da “greve geral do passado dia 11 de dezembro”, lembrou, num ataque ao pacote laboral, Numa afirmação sobre os trabalhadores, Paulo Raimundo garantiu que “não esquecem e sabem com quem contam no dia 18 de janeiro”.Nesta fase, seguindo uma das marcas do PCP, Raimundo lembrou a “grande manifestação” marcada para amanhã, dia 13 de janeiro, convocada pela CGTP, para reafirmar a “rejeição do pacote laboral” “Precisam é do pacote dos salários, do respeito”, explicou, falando “do pacote da esperança para viver e estudar”.“Que a força de quem trabalha se una em torno da sua candidatura”, apelou, trazendo para o discurso “a força da vida” que deve rebentar “com a bolha da ilusão”.Na reta final, Paulo Raimundo pediu a “que cada um” levasse “ao voto”, no dia 18, o “apoio à greve geral”.“Que leve ao voto as dificuldades de acesso ao Serviço Nacional da Saúde. Que cada um leve ao voto a sua justa indignação”, insistiu, concluindo que “votar em António Filipe é votar na vida de cada um”.Problemas dos pais são os problemas dos filhosOntem, antes do comício, num encontro na Voz do Operário, António Filipe teve uma conversa com pais e considerou que “já está estatisticamente demonstrado que a maternidade ocorre cada vez mais tarde”, o que significa que o país está “a criar uma situação em que a maternidade e a paternidade são privilégios dos ricos”.Naquele encontro, que incluiu a mandatária nacional de António Filipe, Sofia Lisboa, e a antiga deputada comunista Alma Rivera, o candidato presidencial ouviu seis pais sobre aquilo que, revelaram, mais os afligem.Uma das participantes na conversa, acompanhada pelo filho, ainda muito pequeno, relatou que vive num T1. .“Ele tem um quarto, nós temos um sofá-cama e assim continuaremos e temos tentado que seja diferente, mas não conseguimos”, disse a António Filipe, enquanto explicava que, apesar da situação, se sentia “quase sortuda”, porque “não chove lá dentro, não faz frio”.Depois de ouvir os relatos dos pais, António Filipe afirmou que “estamos a criar uma situação em que a maternidade e a paternidade são privilégios dos ricos”.Com uma ligação deste problema à “emigração forçada”, “para fugir da precariedade, para fugir do baixo salário”, o candidato presidencial apoiado pelo PCP observou que estas circunstâncias levam a que os jovens que emigram tenham filhos noutros países.“Provavelmente a língua materna que vão aprender já não é nossa. Os pais também, o ensino de pequenos também. Ou são os pais a falar com eles em casa em português, ou eles vão ter outra língua materna. E, portanto, vamos afastando cada vez mais as pessoas com nacionalidade portuguesa, da comunidade nacional”, alertou..Seguro alerta que a democracia "nunca está garantida", Gouveia e Melo acusa partidos de quererem controlar PR.Entrevista António Filipe: "Não defendo nenhuma revisão dos poderes presidenciais"