Vandalizado por incertos, que decidiram escurecer alguns dentes no sorriso aberto e anacrónico do candidato, o cartaz da campanha presidencial de Marques Mendes que permanece na Avenida de Roma, em Lisboa, mais de dois meses depois de o antigo líder social-democrata ter sido apenas o quinto mais votado na primeira volta dessas eleições, é o exemplo acabado de uma realidade patente nas ruas e estradas de Portugal: com raras exceções, a propaganda eleitoral não chegou a ser retirada, embora António José Seguro até já tenha tomado posse e iniciado o seu mandato de Presidente da República.Ligeiramente menos anacrónica do que a de outros candidatos presidenciais, até porque Seguro ainda teve de disputar a segunda volta com André Ventura, o que implicou mais três semanas de campanha eleitoral, a propaganda do vencedor também se mantém presente, com o rosto sorridente do antigo secretário-geral do PS, natural de Penamacor e residente nas Caldas da Rainha, acompanhado pela frase “Votar Seguro” nos cartazes que têm as cores da bandeira nacional a servir de fundo.Ao que o DN apurou, a retirada da propaganda eleitoral de António José Seguro está em curso, mas aplica-se aqui a mesma lógica da maioria dos restantes candidatos. Como o novo Presidente da República utilizou muitos espaços atribuídos ao PS, os seus cartazes só irão ficar longe da vista quanto esse partido tiver materiais novos para comunicar aos portugueses.. O mesmo acontece com Marques Mendes, mas de forma mais cruel, tendo em conta o insucesso da candidatura - que não foi além de 11,3% dos votos, apesar de contar com o apoio dos partidos da AD e o envolvimento de vários membros do Executivo de Luís Montenegro na campanha eleitoral. Tendo chegado a acordo com a empresa que habitualmente trabalha com o PSD, a candidatura do advogado e conselheiro de Estado ficou abaixo do valor de subvenção pública (calculada em função da percentagem de votos) previsto no orçamento de campanha. Apesar de também as despesas terem ficado abaixo do plafond, impedindo que o buraco financeiro seja mais fundo, remover as telas que descrevem Mendes como “Presidente preparado” ou elogiam “o valor da experiência” implicaria gastar algumas dezenas de milhar de euros. Facilmente poupados caso se aguarde que o PSD tenha cartazes novos.Numa escala mais reduzida, é também isso que leva a que João Cotrim de Figueiredo, outro dos candidatos que não passaram à segunda volta, ainda que na terceira posição e com uma votação mais robusta, obtendo 16,01% dos votos, também tenha o seu rosto espalhado pelo país inteiro, muito embora já tenha regressado ao Parlamento Europeu. Só desaparecerá quando a Iniciativa Liberal colocar a sua propaganda.. Mais rápidos a retirar a pegada visual das suas tentativas de suceder a Marcelo Rebelo de Sousa foram André Ventura e Henrique Gouveia e Melo. No caso do líder do Chega, cujos cartazes tanto geraram polémica - foi obrigado a retirar os que tinham a frase “Os ciganos têm de cumprir a lei”, numa decisão judicial confirmada por um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa - como tiveram as telas oferecidas para remendar telhados de habitações danificados pelas tempestades que afetaram parte do território nacional, prevaleceu a máquina partidária. Não só os pendões com o rosto do candidato, colocados em postes de iluminação e afins, não tardaram a ser retirados, como os outdoors estão em permanente renovação.Já Gouveia e Melo, que não tinha cedência de espaços de nenhum partido político, teve a sua propaganda rapidamente removida pela empresa contratada para o efeito. Com a particularidade de os materiais terem sido doados às autarquias onde estiveram expostos durante a campanha presidencial.Segundo os dados registados na Entidade das Contas e Financiamentos Políticos do Tribunal Constitucional, António José Seguro gastou 250 mil euros em estruturas, cartazes e telas, empatando com André Ventura. E os dois protagonistas da segunda volta ficaram aquém dos 315 mil euros que Marques Mendes destinou a esse fim. João Cotrim de Figueiredo não foi além de 150 mil euros e Henrique Gouveia e Melo orçamentou 175 mil euros.Mas nos orçamentos de campanha houve quem fosse mais modesto nos gastos em estruturas, cartazes e telas. O deputado do Livre, Jorge Pinto, previu 23 mil euros, num total de despesas de 97 mil euros. Mais elevados foram os gastos do ex-deputado comunista António Filipe, com 70 mil euros, num total de 395 mil, enquanto a eurodeputada Catarina Martins primou pela contenção: a despesa total ficou em 50.450 euros, dos quais 16.235 para cartazes e pendões. Mantêm-se alguns, por falta de novos materiais do Bloco de Esquerda..Cartazes discriminatórios: Ventura acusa Relação de "censura" e anuncia recurso para Constitucional .Associações ciganas vão apresentar queixa no Ministério Público contra cartazes presidenciais de André Ventura