Em que é que os objetivos que apresentou ao candidatar-se à Câmara de Cascais ficaram mais fáceis com a entrada do Chega e a saída do PS no executivo?O executivo não mudou. As responsabilidades que cada um decide assumir é que podem mudar. Sempre disse, antes, durante e depois das eleições, que fosse qual fosse o resultado, com ou sem maioria absoluta, era meu objetivo convidar todos os eleitos para terem pelouros. Assim fiz. Convidei João Maria Jonet para a pasta do Urbanismo, o que ele recusou liminarmente, o PS para as Atividades Económicas e Fundos Comunitários, o que foi aceite de imediato, e o vereador eleito João Rodrigues dos Santos para assumir as áreas da Transparência, Combate à Corrupção e Canais de Denúncia, áreas que são bandeiras do Chega. O PS sabia desde o início, pois nunca escondi, nem aos eleitores. Aceitou os pelouros e, três meses depois, quando o Chega entendeu ter condições para assumir, decidiu rasgar o acordo que estava assinado, devolver as responsabilidades que tinha assumido e continuar a ter o papel que sempre teve nos últimos 20 anos em Cascais, que se resume apenas a fazer oposição.O vereador e líder concelhio socialista, João Ruivo, disse que a gestão dos entendimentos visa desestruturar o PS e o Chega em Cascais. Algo maquiavélico, já a pensar nas eleições de 2029. Vê isso como elogio ou insulto?Nem elogio, nem insulto. Considero que, mais uma vez, o líder do PS não interpretou bem os tempos atuais da política, em que já não existem dois blocos que podem dividir a liderança de um executivo. Atualmente, existem três forças políticas capazes de disputar eleições e a minha obrigação, enquanto presidente de todos os cascalenses, é tentar escolher os melhores e mais competentes para trabalhar a bem de Cascais. É o que tenho feito e também o que os vereadores que estão comigo têm feito..Tendo sido decisão do Chega não aceitar de imediato pelouros, ao contrário do que sucedeu em Sintra, onde teve vereadores com Marco Almeida desde o início, o que terá mudado para o convite acabar por ser aceite?Não sei o que mudou ou se alguma coisa mudou. Sei que não sou eu quem define os timings dos outros partidos para aceitarem ou não aceitarem partilhar responsabilidades. Mantenho o que disse antes das eleições: todos os que foram eleitos, e estão disponíveis para trabalhar a bem de Cascais, são bem-vindos, inclusive os vereadores independentes, que até agora não quiseram pelouros. No dia em que queiram aceitar estou disponível, pois haver diversidade faz-nos sempre melhores, mais ambiciosos e com mais impacto na vida dos cascalenses. No fim do dia, o que lhes importa é se o executivo está a trabalhar bem ou mal, se está ou não a ter impacto positivo.A abertura aos eleitos de outros partidos não lhe trouxe reparos dos órgãos nacionais do PSD?Não vejo o porquê de reparos. Estou na Câmara de Cascais desde 2005 e lembro-me de vereadores do PCP que faziam parte do executivo de António Capucho, e de vereadores do PS em mais de um mandato de Carlos Carreiras. Vejo com toda a naturalidade que possa existir vereadores de vários partidos no executivo municipal. Não vê nenhum risco em incluir na sua equipa o membro de um partido que tem como ambição substituir o PSD como principal força política à direita?Não. Aquilo que os eleitores vão avaliar daqui a quatro anos é se este executivo cumpriu ou não com a promessa que fez. Não para um mandato, pois apresentei um compromisso para uma década: colocar Cascais no top da qualidade de vida em Portugal.Na campanha eleitoral avançou o objectivo de construir 3600 fogos habitacionais no primeiro mandato. Passados seis meses, qual é o seu grau de confiança nessa meta?Total. Não só estamos a executar o plano delineado como tivemos oportunidade de o reforçar. Tinha dito que a estratégia local de habitação era criar 3600 novas soluções de habitação. Neste momento, a requalificação de todo o património de habitação pública municipal está concluída. No que diz respeito à construção de novos fogos, já entregámos cerca de 200 habitações nestes primeiros seis meses. Tivemos a capacidade de reforçar o compromisso com mil novas soluções de habitação e mais 150 milhões de euros. Estamos a dar um salto de 350 milhões de euros, para mais de 500 milhões de euros. Enquanto outros municípios discutem quantos fogos vão construir, como os vão financiar e onde os vão fazer, o nosso debate em Cascais é quantas chaves já entregámos e quantas vamos entregar nos próximos tempos. Para isso foi essencial assegurar a maioria absoluta que os votos não deram à vossa coligação?Tenho uma convicção muito firme de que, como a habitação pública era a prioridade das prioridades para todos os partidos, não é necessário haver maioria absoluta para garantir que se vai cumprir esse desígnio.. Uma ideia feita sobre Cascais é que é uma terra de ricos e de pobres. O que se pode fazer para consolidar a classe média?Isso é uma ideia completamente errada e de quem não vive cá. Cascais é uma terra de pessoas que todos os dias se levantam, trabalham e contribuem para o desenvolvimento do concelho e do país. Muitas vezes, as pessoas pensam exclusivamente aqui no centro. Mas o concelho tem grande diversidade e é muito mais do que a baía de Cascais. Diversificado, mas inclusivo, onde todos têm possibilidade e capacidade de subir no elevador social, que não fica apenas no primeiro ou segundo andar. Todos os que nascem, crescem e trabalham em Cascais sabem que o elevador social funciona e que se pode atingir o topo da felicidade ou do projeto de vida que querem implementar. Há questões de mobilidade que têm a ver com outras entidades, como a criação do corredor de autocarros BRT na A5 e a concessão da linha ferroviária. Que avanços houve nesses projetos?Muitos. Aliás, Cascais, no que diz respeito à mobilidade, abriu caminho. Vi o presidente da Câmara do Porto dizer que a partir de janeiro de 2027 também irá ter transportes gratuitos. É com orgulho que vemos as nossas políticas copiadas por outros municípios. É sinal de que estamos a fazer coisas bem feitas. Para mim, a mobilidade é um direito de todos os cascalenses, e por isso é gratuita. Mas tenho perfeita noção de que ainda temos desafios pela frente. Nomeadamente, dois desafios pelos quais tenho batalhado muito: a linha de caminho de ferro e o corredor do BRT. Existe, neste momento, uma das coisas mais difíceis de conseguir em política, que é o alinhamento entre os presidentes da Câmara de Cascais, da Câmara de Oeiras e da Câmara de Lisboa, e o ministro das Infraestruturas. Todos com o mesmo objetivo, que é a possibilidade de concessionar a operação da linha de caminho de ferro de Cascais. Através de uma empresa intermunicipal ou da própria TML, que tem gerido bem os transportes na Área Metropolitana de Lisboa. Isto iria permitir, em primeiro lugar, que as estações estivessem cuidadas. Não podemos querer atrair mais pessoas e tê-las degradadas. Os elevadores não funcionam, as casas de banho estão sujas, as bilheteiras estão fechadas, a iluminação não existe e não é apelativo utilizar a linha. O Ministério das Infraestruturas está a concluir a requalificação da infraestrutura. As carruagens estão encomendadas e vão começar a chegar até ao final do ano. Depois, é preciso cuidar das pessoas que usam o transporte e das estações. Estou absolutamente convencido de que uma gestão mais próxima, de quem conhece as pessoas que utilizam a linha, pode ser mais eficaz. E com a vantagem de cada município poder ter a sua própria política de mobilidade. Se Cascais quiser oferecer mobilidade completa, com bicicletas, trotinetes, estacionamento junto às estações e transportes gratuitos, pode fazê-lo. Se Oeiras ou Lisboa quiserem uma política diferente, podem tê-la. Cada um é livre de fazer o que entender, de acordo com os seus compromissos com os eleitores.De qualquer forma, isso tem de ser consensualizado, pois neste momento os seus interlocutores são Isaltino Morais, Carlos Moedas e Miguel Pinto Luz. Um dia podem ser de outros partidos...Eu falo com base na informação à data de hoje. E reforço a ideia de que Cascais, Oeiras e Lisboa têm os seus presidentes completamente alinhados com este objetivo. E os três municípios têm um alinhamento com o Governo e o ministro das Infraestruturas.A segurança é um tema em que há vantagens em ter o Chega na sua equipa, em vez do PS? Não há nenhum partido contra a aposta na segurança. Nenhum munícipe pode viver com tranquilidade e em liberdade, pode viver feliz, se não se sentir em segurança. Por isso, fizemos já o investimento que tinha de ser feito nas esquadras, equipamentos e meios de transporte da PSP e da GNR. Estamos já na segunda fase, a terminar a implementação do maior sistema de videovigilância de Portugal. São cerca de 440 câmaras no espaço público. permitindo que continue o concelho seguro que é.Na estratégia para a saúde tem dado ênfase à prevenção, numa ideia de vida saudável. Basta ou é preciso investir em meios?Mais uma vez, o município substituiu-se a uma responsabilidade da Administração Central: construímos e requalificámos todos os centros de saúde do concelho. E concorremos, em parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Cascais, a Cruz Vermelha Portuguesa e o Hospital de Cascais, ao concurso público para a Unidade de Saúde Familiar Tipo C no concelho. Por outro lado, em parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Cascais, os cascalenses sem médico de família atribuído pelo Serviço Nacional de Saúde têm um médico de saúde familiar garantido pelo município. Mas acredito que temos de passar para a terceira fase, onde nos encontramos, que é ligar tudo o que diz respeito à saúde com atividade física e prevenção. Temos uma direção municipal que junta essas áreas. E vamos oferecer a todos os cascalenses medicina preventiva, de acordo com a idade e género, pois acredito que estaremos a poupar muitos milhões de euros ao Ministério da Saúde com o que pudermos investir na prevenção e deteção precoce de determinado tipo de doenças.Cascais pode servir de exemplo para o Ministério da Saúde?Queremos, em primeiro lugar, garantir a qualidade de vida dos cascalenses. Se outros municípios, ou até o Ministério da Saúde, acharem que estamos a fazer bem, não temos problemas nenhuns em partilhar as nossas boas experiências, pois todos os portugueses ficarão a ganhar.Tendo apontado a meta de ultrapassar Coimbra em número de estudantes universitários, tem seguido as polémicas em torno da Universidade Nova de Lisboa, nomeadamente da Nova SBE?É assunto que não diz respeito ao município. O que nos diz respeito é o objetivo que estava traçado, e se mantém, de atingir 20 mil estudantes universitários no concelho. Temos, há bastantes anos, a Escola Superior de Saúde de Alcoitão e a Escola Superior de Turismo e de Hotelaria do Estoril, que integra a Universidade Nova de Lisboa, conseguimos captar para Carcavelos a Nova SBE, já deu entrada o projeto de construção da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e estamos a fechar o projeto para trazer a Medical School. Por isso, é muito real e concreto que, no ano letivo de 2029-2030, certamente teremos 20 mil estudantes universitários em Cascais.. Ter sido eleito vice-presidente da Associação Nacional de Municípios é um reconhecimento do peso de Cascais nas autarquias do PSD ou um convite para outros voos na política?Para outros voos não é de certeza. O meu objetivo sempre foi fazer política autárquica em Cascais, onde nasci, cresci, trabalhei desde sempre e nasceram os meus filhos. É aqui que quero ficar.É a sua cadeira de sonho?É o sonho de criança que, felizmente, com muito trabalho, foi atingido em outubro de 2025.O que mudou com a reconquista do estatuto de principal partido autárquico pelo PSD?Acima de tudo, temos novamente capacidade de dinamizar e reformar o país, trabalhando em conjunto com o Governo. O Governo precisa dos autarcas para estar consciente dos problemas dos portugueses?Todos precisamos sempre uns dos outros. Em política, ninguém consegue fazer nada sozinho. É muito bom sabermos ouvir, para desenhar o que é preciso fazer, a nível das autarquias e do Governo. Se não conseguimos percecionar as necessidades de quem nos elegeu, não fazemos o melhor que podemos. Estamos obrigados a sentir as necessidades de quem nos elegeu e a trabalhar para as resolver.Apesar de a coligação liderada por Luís Montenegro ter saído reforçada nas últimas legislativas, alguns ministros são muito criticados. É capaz de defender Ana Paula Martins, ou Rosário Palma Ramalho, com a mesma convicção com que defende Miguel Pinto Luz? Consigo. Acho que a ministra da Saúde tem feito um bom trabalho na grande reforma que é preciso fazer no Serviço Nacional de Saúde. Não fosse o corporativismo que existe em Portugal em determinadas classes e o seu trabalho certamente seria ainda muito mais reconhecido. Com a ministra do Trabalho é a mesma coisa. Andamos a falar do pacote laboral há demasiado tempo e determinadas corporações que representam apenas uma percentagem baixa daquilo que são hoje os trabalhadores portugueses... Refere-se aos sindicatos.Claro. E parece que o trabalho da ministra não consegue avançar. Acho que tanto uma como outra têm feito um bom trabalho, que é reconhecido pelos portugueses.Ao contrário do que acontece em Cascais, até hoje o primeiro-ministro tem tido dúvidas sobre a integração de outros partidos na coligação. Deve ser um dogma a AD ser formada pelo PSD e pelo CDS?Deixe-me dizer que não tenho nenhuma coligação com o Chega. A coligação em Cascais é entre PSD e CDS. Existe desde 2001, está bem e recomenda-se. O que existe é uma forma de ver, de estar e de trabalhar deste presidente que está aqui à sua frente, e que acha que todos os vereadores que foram eleitos devem ter a possibilidade de ter responsabilidades no executivo. Não fui eu que elegi os vereadores do Chega, nem os do PS, nem os independentes. Foram os eleitores. Se alguma coisa tem de mudar para que isto não aconteça, então mude-se a Lei Eleitoral Autárquica para as câmaras poderem ter governos de maioria simples e reforce-se os poderes da Assembleia Municipal para fiscalizar o executivo municipal. Porque, com o panorama atual da política portuguesa, cada vez o número de câmaras sem maioria absoluta será maior.Suponho que tem legítimas esperanças de que em 2029 tenha maioria absoluta e não precise da oposição.Volto a reforçar que não se trata de precisar ou não da oposição. Terei em 2029, se tudo correr como previsto, e o meu partido voltar a confiar em mim, como espero, para ser recandidato, o resultado que os eleitores de Cascais entenderem que sou merecedor. Claro que trabalho todos os dias, e continuarei a trabalhar, para que o PSD e a coligação Viva Cascais possam recuperar o número de vereadores que era tradição terem.Diria que no seu partido estão ultrapassadas as ondas de choque das intervenções públicas de Passos Coelho no início deste ano? O meu partido é Cascais.Também é dirigente do PSD.Hoje temos muito a ideia na política de que ou estamos num lado ou do outro. Esse posicionamento de ser tudo branco ou tudo preto levou-nos a dar demasiada importância aos extremos. Temos que nos voltar a recentrar no essencial, procurando os consensos necessários para que o país possa desenvolver-se e para as reformas de que todos falam há décadas. Felizmente temos agora um ministro que parece querer fazê-las, como na revisão da contratação pública e nas mudanças que é preciso fazer no Tribunal de Contas para que se possa descentralizar mais e que, de uma vez por todas, se deixe de falar num tema fechado pelos portugueses há 20 anos e se aposte na descentralização de competências, porque os municípios conseguem transformar em dez cada euro que o Estado lhes transfere. De qualquer forma, a regionalização está sempre a bater à porta...Na minha opinião, é um assunto que ficou resolvido há 20 anos. Devemos focar-nos no trabalho que é preciso fazer.Passos Coelho queixa-se precisamente de faltar intensidade e ritmo nas reformas.É o ritmo possível, de acordo com as condições políticas que existem. Não é com certeza por falta de vontade de Luís Montenegro que as reformas não são feitas. Falámos há pouco do Pacote Laboral. A ministra tem feito um grande trabalho, o primeiro-ministro tem dado o suporte de que necessita, mas infelizmente ainda não conseguimos avançar nessa matéria. Até que ponto o Governo sai enriquecido por haver um ex-primeiro-ministro e ex-líder do PSD interventivo?Todos os partidos saem enriquecidos quando aqueles que ocuparam cargos de importância no partido continuam a querer contribuir para o seu sucesso. Só não ganha nada quando se viram contra o partido. . O que falhou para na segunda volta das presidenciais o candidato apoiado pelo PS ter enfrentado o líder do Chega e não o candidato apoiado pela AD?Não sei o que falhou. Só os portugueses é que poderão fazer esse julgamento - e fizeram-no. A dispersão de candidaturas - até hoje não consigo perceber se um dos candidatos representava o centro-direita ou o centro-esquerda - levou a que o resultado fosse este.Já teve António José Seguro em Cascais?Ainda não o tive aqui enquanto Presidente, mas já enviei um ofício para visitarmos em conjunto as instalações da Presidência da República que ficam aqui em Cascais, no Palácio da Cidadela.Que avaliação faz do início do mandato de António José Seguro?Ainda é muito cedo para fazer uma avaliação séria, até porque o mandato do Presidente da República é de cinco anos..CDS afasta ruptura com o presidente da Câmara de Cascais devido a acordo com o Chega