As negociações do pacote laboral chegaram ao fim, esta segunda-feira, 9 de março, sem qualquer acordo entre Governo, representantes da UGT e das confederações patronais.As reuniões decorriam no Ministério do Trabalho mas, ao que foi possível apurar, não há solução à vista. "Houve uma falta de recuo do Governo em propostas sucessivas", o que provocou um "desencontro estrutural e uma inadequação de propostas face ao que a UGT tinha sugerido", confirma fonte desta central sindical ao DN. "Para a UGT acabou a negociação".O presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), Francisco Calheiros, confirma que o processo “terminou. Quando não se chega a acordo, dá-se o processo por terminado. Isto era um processo que se arrastava há sete meses. Não podemos prolongar isto. Nas últimas três semanas, foram 20 reuniões”, referiu, citado pelo ECO.O responsável afirma ainda que "não houve vontade política por parte da UGT” para chegar a um compromisso. “Tentou-se tudo até ao infinito. Não houve vontade, não se pode forçar“, salienta Francisco Calheiros à mesma publicação. Da mesma falta de vontade por parte da central sindical queixou-se a ministra do Trabalho. "A UGT está absolutamente intransigente. O Governo vai realizar todos os esforços para que seja possível um acordo”, garantiu Maria da Palma Ramalho, por seu lado.E Armindo Monteiro, presidente da CIP, afinou pelo mesmo diapasão, referindo que as negociações sobre o pacote laboral terminaram sem acordo por responsabilidade daquela central sindical. "É da responsabilidade da UGT não haver acordo", afirmou o líder da CIP, acrescentando que "não é habitual ver a UGT ter a atitude que teve" durante o processo de negociação da reforma laboral proposta em julho de 2025 pelo Governo.Na reação, à saída do encontro, Sérgio Monte, secretário-geral adjunto da UGT, afirma que "dizer que a UGT é intransigente é falta de verdade. Havia conciliação a quase 60 propostas. À 25.ª hora, a CIP apresentou uma proposta maximalista que não permitia consensos", considera o responsável. Sérgio Monte elencou uma série de medidas contra as quais a central sindical sempre se mostrou contra, afirmando que não seriam negociáveis, como a reintegração de um trabalhador após vencer um processo de despedimento por justa causa ou o banco de horas individual. "Não está morto o acordo", garante Monte. "Mas para a CIP, pelos vistos, está. Há várias propostas inconstitucionais. O Governo é que tem de dizer se ainda existem ou não negociações", continuou responsável que garante que não abandonarão "a mesa". "Nas traves mestras do Governo não houve alterações. Tivemos reuniões com os nossos 55 sindicatos e mais de 30 disseram que esta proposta não era suscetível de um acordo", terminou o responsável.Recorde-se que desde julho de 2025 que está em negociação a reforma da lei do trabalho, altura em que o Governo aprovou em Conselho de Ministros e, posteriormente, apresentou na Concertação Social um anteprojeto que previa cerca de uma centena de 100 alterações à atual legislação laboral.As centrais sindicais foram sempre contra o "pacotão" de medidas apresentado pelo Executivo de Luís Montenegro, e a sua discordância culminaria na greve geral de 11 de dezembro - a primeira greve geral organizada pela UGT e pela CGTP desde os tempos da 'troika', em 2013. Foi a quinta greve geral em cinco décadas de democracia. Na altura, o secretário-geral adjunto da UGT, Sérgio Monte, realçava que o Governo não estava a negociar uma alteração á lei laboral, mas sim "a impor as suas vontades“. Tiago Oliveira, secretário-geral da CGTP dizia, por seu lado, que a reforma proposta “acentua a precariedade, facilita os despedimentos, desregula os tempos de trabalho, limita a atuação dos sindicatos, e ataca a negociação coletiva. Temos de exigir, neste momento, a retirada do pacote. É neste momento. Nenhum trabalhador perdoaria se não déssemos combate”.O combate terminou hoje, assim, sem um vencedor claro. Mas vale a pena recordar que não será alheio a este resultado o facto de António José Seguro, que tomou esta segunda-feira posse como Presidente da República, já ter adiantado que não publicaria as alterações à legislação laboral tal como estão porque a questão "não fez parte" das propostas eleitorais e sem um acordo em concertação social. "Primeiro, não fez parte a proposta eleitoral dos partidos que estão hoje no lugar. Segundo, não houve acordo na concertação social", afirmou Seguro durante uma intervenção na Faculdade de Economia do Porto, ainda durante a campanha para as presidenciais. A ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho, que tem sido sempre a voz otimista destas negociações, acreditando que elas poderiam chegar a bom porto, tem feito saber, no entanto, que com ou sem acordo na Concertação Social, vai avançar com a proposta da alteração laboral no Parlamento, o que faz adivinhar que este poderá ser o primeiro teste de António José Seguro numa presidência que, fez questão de dizer e repetir durante, quer que seja de estabilidade. com Lusa