"Vamos trabalhar, trabalhar e trabalhar e vamos concentrar-nos em fazer de Portugal um país maior”, assegurou Luís Montenegro no sábado, depois de ter confirmado a sua reeleição como líder do PSD, nas diretas do partido. A declaração de intenções do primeiro-ministro não altera, porém, o cenário de fragilidade em que se move a governação, recordam ao DN politólogos e um histórico dos sociais democratas. Os professores e investigadores em Ciência Política Paula do Espírito Santos, Bruno Costa e José Adelino Maltez diagnosticam quase em uníssono que a liderança de Montenegro não está em risco imediato, mas enfrenta desafios significativos na governação e na disputa do espaço político à direita.O antigo ministro da Administração Interna do PSD Ângelo Correia aponta como a principal fragilidade do líder atual uma “falta de poder institucional”. Apesar de liderar o Governo, Montenegro continua dependente de equilíbrios parlamentares difíceis e, na opinião do antigo governante, paga também o preço de não ter procurado uma solução de coligação mais ampla quando teve oportunidade para o fazer.Mais preocupante, porém, é o contexto económico e internacional. Ângelo Correia considera que a reeleição “não altera o pano de fundo em que ele se move”, sublinhando riscos associados à geopolítica, à energia, ao comércio externo e ao turismo. “As exportações estão a baixar” e “as importações estão a subir”, alerta, defendendo que o Governo perdeu ainda a almofada proporcionada pelos excedentes orçamentais herdados do executivo anterior.Neste cenário, acrescenta, o sucesso político de Montenegro dependerá da sua capacidade para concretizar “mudanças”, num clima em que a proposta do Governo para rever a lei laboral continua num clima de incerteza. Também no plano político Ângelo Correia identifica ameaças vindas de ambos os lados do espectro partidário. À esquerda, reconhece que as sondagens têm favorecido o PS, embora veja esse fenómeno como conjuntural. “É uma ficção política”, afirma, defendendo que esse crescimento resulta mais das dificuldades do PSD do que do mérito da oposição socialista. Já à direita, o diagnóstico é mais severo. “Os ataques ao Governo e ao PSD vêm tanto da esquerda como da direita, mas desta com maior profundidade e perigosidade”, avisa. O antigo ministro considera que o crescimento de forças “nativistas, soberanistas e populistas” representa um desafio estrutural para o centro-direita português, ainda que destaque que “a maior parte do eleitorado do PSD que poderia ir para o Chega já foi”.A sombra de Pedro Passos Coelho também continua presente no debate político. O professor de Ciência Política na Universidade da Beira Interior Bruno Costa nota que o antigo primeiro-ministro deixou de se limitar a intervenções ocasionais e passou a comentar diretamente a ação governativa. Essa presença pública mais intensa, associada à proximidade circunstancial de algumas críticas feitas por André Ventura, gera “uma sombra e um desconforto” para Luís Montenegro, sobretudo num momento em que “o capital” político acumulado nos primeiros meses de governação se “evaporou rapidamente”.Para o investigador José Adelino Maltez, Montenegro tem de lidar com “uma bomba dentro do seu próprio espaço político”, que são as “vozes que clamam pela institucionalização de movimentos de direita que não sejam o Chega”. Ainda assim, explica, Montenegro, tal como José Luís Carneiro, “tem uma grande vantagem”, que é o facto de liderarem “partidos de implantação nacional” que não se limitam às figuras dos seus líderes. “O problema é se ele é um bom governante ou não. Isso ainda não o demonstrou”, conclui.A professora de Ciência Política Paula do Espírito Santo partilha uma visão semelhante. Para a politóloga, o PSD está “internamente serenado” pelo facto de ocupar o poder e dificilmente haverá condições para uma crise política no curto prazo. “Os ventos estão favoráveis a Luís Montenegro”, afirma, lembrando que nenhum dos principais partidos parece interessado em provocar novas eleições antecipadas..Reeleito líder do PSD, Montenegro promete "trabalhar, trabalhar, trabalhar" para "não defraudar expectativas" dos portugueses.Um em cada quatro militantes do PSD em Espinho preferiram votar branco ou nulo e não em Luís Montenegro