O último debate televisivo entre os candidatos à Presidência da República, único a juntar os 11 aprovados pelo Tribunal Constitucional, não acabou com as dúvidas de muitos portugueses. A começar por um antigo primeiro-ministro que é um dos mais notórios indecisos no que às eleições de 18 de janeiro diz respeito. Ressalvando que só viu uma parte das mais de duas horas de transmissão da RTP, Pedro Santana Lopes admitiu ao DN que o debate “não ajudou muito e, pelos vistos, não sou só eu a pensar o mesmo”. Até porque as sondagens que têm sido reveladas apontam cinco candidatos com hipóteses de passar à segunda volta, cuja realização, a 9 de fevereiro, está praticamente garantida, 40 anos depois da única que aconteceu em Portugal, com Mário Soares a suplantar Freitas do Amaral.Entre muita incerteza quanto ao desfecho da primeira volta, face ao equilíbrio nas intenções de voto, politólogos ouvidos pelo DN convergem num ponto ao analisarem a sucessão de debates que culminou na presença de 11 candidatos no Centro de Inovação do Instituto Superior Técnico, em Lisboa: Marques Mendes tornou-se o mais atacado, tendo dificuldade em responder a mais do que um adversário.Olhando para a dinâmica dos debates presidenciais, Paula Espírito Santo destaca a “identificcação de um alvo principal, com reflexo nas sondagens”, nume referência às mais recentes tracking polls da Pitagórica, divulgadas pela TVI e CNN, que mostram Marques Mendes a descolar do ‘pelotão da frente’, caindo para a quinta posição. Numa corrida ao Palácio de Belém “bastante equilibrada”, a professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa deteta o “acentuar de distanciamento e animosidade entre alguns pares de candidatos”. O que sucede entre António José Seguro e Catarina Martins, protagonista da recusa de desistências à esquerda, mas ainda mais entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, no seguimento do debate a dois em que o almirante questionou o papel do atual conselheiro de Estado e antigo líder social-democrata na facilitação de negócios, enquanto consultor da sociedade Abreu Advogados, optando por um registo mais assertivo do que fora anteriormente utilizado por Cotrim de Figueiredo e André Ventura.Atirar Marques Mendes, que até então disputava com André Ventura o favoritismo para a vitória na primeira volta - à qual teria acesso confirmando-se o resultado das seis sondagens anteriores -, para um “terreno para o qual não estava preparado”, ao ser confrontado com o seu passado profissional, foi a estratégia de Gouveia e Melo para retomar o rumo à segunda volta que durante muito tempo pareceu garantida. E se até agora não parece ter surtido efeitos, teve o condão de desgastar o adversário. “O almirante pode não ganhar, mas fez com que Marques Mendes perdesse um debate em que Ventura e Seguro foram vencedores”, diz José Adelino Maltez. O professor catedrático jubilado do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa realça que os ataques a Marques Mendes “não são por birra do almirante”. Aquilo que o seu alvo procura reduzir a “ordinarice” é “bem pesado para captar votos” que possam dar acesso a uma segunda volta. E à presumível vitória na sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa, partindo do princípio que o adversário será André Ventura, derrotado por uma frente de adeptos de linhas vermelhas, da extrema-esquerda ao centro-direita. Com “tudo muito equilibrado entre os cinco primeiros”, enquanto os outros candidatos se limitam a “picar o ponto para marcar presença”, Maltez antecipa que “as escolhas dos homens comuns serão irracionais” nestas eleições presidenciais, ditados por “ataquezinhos para diminuir ou puxar ódios” por um dos candidatos. Nesta pré-campanha, sobretudo nos debates televisivos, tal papel acabou por caber a Marques Mendes e não a André Ventura, que as sondagens indicam estar a conseguir manter o eleitorado que garantiu o segundo maior grupo parlamentar ao Chega.Perante cinco favoritos “que não são os cinco melhores candidatos de Portugal”, enumerando Passos Coelho, António Costa, Leonor Beleza, Helena Roseta, Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa como melhores escolhas, o catedrático jubilado defende que “é preciso lançar umas farpas” quando todos, menos Ventura, “andam a pescar na mesma água do centrão”.Dito isto, Maltez vê Mendes acossado. Embora não saiba se isso é percebido pelos votantes, considera que o advogado, comentador e conselheiro de Estado foi “metido numa camisa de 11 varas” por um “ataque difícil de responder” de Gouveia e Melo. E reconhece que o almirante “conseguiu estancar a descida” nas sondagens e explicar em que consiste a sua ideologia, entre social-democracia e socialismo..Seguro a conquistar espaço.Elevado ao primeiro lugar na tracking poll da Pitagórica, e recebendo neste último debate televisivo “alguma disponibilidade para a desistência” de Jorge Pinto, Seguro tem conseguido o que Paula Espírito Santo descreve como a “conquista gradual” de espaço à esquerda. Para a professora universitária, a campanha “está a correr bem para quem foi subavaliado pelos restantes candidatos”, juntando-se a Gouveia e Melo nas hipóteses de protagonizar a segunda volta. Ainda que o Palácio de Belém se tenha tornado, nas duas últimas décadas, marcadas pelas presidências dos antigos líderes do PSD Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, num chão salgado para a esquerda. E em particular para o PS, marcado por episódios como o cisma entre Mário Soares e Manuel Alegre em 2006.Por seu lado, José Adelino Maltez defende que “Seguro é visto como o Português Suave”, o que obriga o ex-secretário-geral do PS “a dar uns coices de vez em quando”, o que se traduziu em bons desempenhos nos debates,Com Cotrim de Figueiredo visto por Maltez como “o dandy intelectual e cosmopolita”, e Ventura encarado por Paula Espírito Santo como alguém que “não tem aspirações presidenciais, mas não podia deixar de estar no campo de batalha, transpondo o resultado para futuras legislativas”, os debates terminaram. “Os portugueses vão ter de escolher com muito cuidado a quem quererão ouvir discursos durante não sei quantos anos”, diz o catedrático jubilado, rematando que os portugueses tiveram até agora Presidentes da República que “eram todos de média de 18” e agora elegerão “quem passar dos 13 para os 14 valores”. .Debates. Seguro agrega à esquerda mais do que Marques Mendes à direita. Jorge Pinto foi a surpresa.Presidenciais. Cotrim distancia-se de Ventura na Defesa e puxa combatentes para agenda política