Marta Temido tutelou a Saúde em tempos de pandemia covid-19 e saiu em agosto de 2022, demitindo-se após a morte de uma grávida que não teve possibilidade de receber assistência num hospital. Ao Diário de Notícias, a ex-ministra aponta a falta de continuidade na Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde a Ana Paula Martins, mas insurge-se mais com as palavras de Luís Montenegro, que apelidou de “caos” o Serviço Nacional de Saúde herdado dos tempos do Partido Socialista. Eurodeputada destaca que o PS tem de procurar clareza nas soluções, pede arrojo, mas valida a moderação de José Luís Carneiro.Aponta falhas à Saúde e em concreto à ministra Ana Paula Martins?A Saúde é das áreas mais sensíveis, existe uma enorme pressão, que afeta o desempenho político. Não me pronuncio sobre casos concretos porque não há nada mais irritante do que ter um ex-ministro a falar do atual ministro. No entanto, estamos todos preocupados, percebemos que há muitos atores a falar sobre a Saúde, com alguma leviandade. Vivemos num contexto em que teremos mais necessidades e os recursos não vão crescer como gostaríamos. Nem os recursos humanos nem financeiros. O desafio é organizar melhor, há uma série de ventos que se levantam e torna-se fácil deitar pela janela fora cada reforma. Isso aconteceu com a Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde [criada pelo PS na Lei de Bases e que, em dois anos, com Ana Paula Martins, já viu duas demissões]. Porque a forma como foi desenhada não tem a ver com a forma como foi implementada. Assim é complicado, nunca levamos a experiência até ao fim. Considera que existe algum tipo de dogma ideológico na condução da Saúde em Portugal?Voltou o tema de que a Saúde tem de se libertar das amarras ideológicas, mas há amarras que estão na Constituição, que estão salvaguardadas ainda pela Organização Mundial de Saúde, nas quais se defende que os cuidados integrados têm de ser garantidos. Encontrou-se um chavão. Como se as parcerias público-privadas tivessem acabado porque o Estado o queria, por exemplo, como se não estivessem motivações liberais nessa mesma dificuldade.Luís Montenegro optou por responsabilizar o Partido Socialista pelo que se vê, na atualidade, na Saúde. Caracterizou-o como “caos”, inclusivamente. Como encarou essas palavras?Com o devido respeito, se valorizarmos a verborreia partidária nunca nos metíamos na política nem assumiríamos uma pasta de governo. Não reconheço ao senhor primeiro-ministro conhecimento setorial suficiente para dizer isso. Cada um de nós tem o seu percurso. Não me afeta.O primeiro-ministro disse que nada podia fazer em relação às dificuldades na obstetrícia. Porque está essa especialidade com tantos problemas?Sabemos que essa era a área na qual tínhamos visto mais saídas médicas do Serviço Nacional de Saúde, o que agora está a ser contrariado. Ainda assim, o horário de trabalho não se multiplica. Faltam médicos obstetras. Foram dados passos positivos na questão da repartição entre médicos e enfermeiros especialistas [passam a poder acompanhar os partos de baixo risco]. Até tentei isso e não consegui. O objetivo sempre foi tentar ter enfermeiros especialistas para dar assistência às parturientes. As corporações profissionais são chamadas a deixar os seus dogmas e a ter responsabilidade. Só podemos minimizar o problema se formarmos mais, porque existem países em que há lugares vazios nas candidaturas ao ensino superior, enquanto em Portugal não temos vagas vazias no acesso aos cursos de Medicina. Também sabemos da exigência da profissão, de que as pessoas querem ter mais tempo livre e que a Medicina é de enorme exigência. Temos de utilizar novos esquemas de organização de trabalho e pagar melhor. Olhando para o PS, José Luís Carneiro tem força política apesar de ser eleito sem oposição?O secretário-geral já foi a eleições internas no partido. Umas vezes perdeu, outras vezes ganhou. O importante é que o partido fale para fora e não para dentro. É sempre mais difícil estar na oposição do que estar no poder. O PS precisa de ter propostas alternativas. Num cenário a curto prazo, não se vislumbram eleições legislativas e o PS tem de ter propostas claras. Não serei eu, relativamente recém-chegada à política, a dar conselhos. Sei que o mundo é demasiado complexo para perdermos tempo. Ter oposição espicaça-nos, é mais sedutor do que ganhar à partida. Mas se alguém se queria apresentar contra José Luís Carneiro, porque não o fez?! Isso deve pesar sobre todos os militantes. Não cabe ao candidato ir buscar outros candidatos.Aprova a ação do secretário-geral? Concordou com a abstenção no Orçamento do Estado?Entendi a abstenção no Orçamento do Estado mesmo que não goste da ideia. O PS, neste momento, não deve estar fora da governação. Deve ter a disponibilidade para isso. Vemos na maioria das democracias europeias como é difícil formar governo sozinho. O PS não fará um bom serviço ao país se se colocar fora das discussões necessárias. Mas tem de ser claro nas linhas vermelhas e o PSD também tem de querer procurar a companhia. O presidente do PS [Carlos César] foi claro ao dizer que o PS tem o dever de apreciação, que existem temas de entendimento futuro, mas nunca caberá ao PS viabilizar o que o Governo não quer viabilizar com o PS. Para dançar, temos de seguir o ritmo do par. Pedro Nuno Santos conta para o PS?Não podemos dar-nos ao luxo de prescindir de ativos valiosos. Uns serão sempre amados por uns e odiados por outros. Não me parece sensato e útil deixar de fora os que sempre estiveram de alma e coração a defender ideais. Devemos construir com quem está dentro, esse é o desafio, mas liderar deve ser isso mesmo.Foi apontada como uma das mulheres que reuniria mais consenso a uma candidatura. Passa-lhe pela cabeça ser um dia candidata a secretária-geral?Não sei o futuro. Nunca poderia dizer, com toda a certeza, uma coisa dessas. Mas, ao dia de hoje, não me passa pela cabeça, não me considero com capacidade para fazer esse caminho. Sou militante muito recente, sou vista, acho, como uma outsider. Tenho experiência governativa, mas não tanto de política partidária, por exemplo. .Marta Temido lamenta que Portugal continue sem lei de emergência de saúde pública.Marta Temido critica "populismo" de Montenegro ao falar de Saúde.Marta Temido lamenta que Portugal continue sem lei de emergência de saúde pública