O termo "trapalhadas", originalmente lançado pela líder da Iniciativa Liberal (IL) para caracterizar o caso que envolve o Ministro da Administração Interna (MAI), acaba por servir de mote ao coro político que, este fim de semana, se recusou a calar perante um enredo que proliferou numa complexa teia de histórias ainda sem esclarecimento cabal. Se Mariana Leitão foi das primeiras a exigir explicações diretas a Luís Neves, a sua voz rapidamente encontrou eco num crescendo de exigências que culminou, sábado à noite, com uma carta do Chega que formalizava um pedido de demissão imediata. À esquerda, o deputado único do Bloco de Esquerda (BE), Fabian Figueiredo — que manifestou "enorme perplexidade" com as ligações do MAI ao empreiteiro —, exigia respostas naquele mesmo dia (que nunca apareceram). E, entre as restantes forças da oposição, a exigência de transparência e responsabilidade política tornou-se unânime.Facto é que, entre a tarde de sexta-feira e este domingo, o cerco ao ministro apertou de forma implacável, mas o próprio continua em silêncio sobre os mais recentes desenvolvimentos.Empresa de alojamento local na mira do FiscoO golpe mais recente na estabilidade do governante (re)surgiu este domingo, transferindo o escrutínio público da sua antiga gestão policial diretamente para os seus negócios familiares mais recentes. O semanário Nascer do SOL voltou a dar destaque a uma notícia que já tinha publicado na edição impressa, dando conta de que a empresa de alojamento local gerida pela mulher do ministro em Odemira estará sob escrutínio da Autoridade Tributária (AT).A empresa opera num monte alentejano — propriedade privada onde foram realizadas as polémicas obras pelo empreiteiro João Carvalho — através de um contrato de comodato (cedência gratuita de exploração). O negócio não será ilegal, mas, de acordo com fiscalistas, este modelo, sendo usado entre familiares diretos (aliado ao facto de a sociedade continuar operacional apesar de apresentar perda de capital social), arrisca-se a ter acionado os alertas do Fisco por indiciar eventuais desvios na distribuição de rendimentos, ao abrigo das regras de relações especiais previstas na lei tributária.A vertente financeira é, contudo, apenas metade do problema. De acordo com a mesma fonte, existem alegações de que o próprio Luís Neves terá intervindo de forma direta na gestão operacional diária deste alojamento turístico privado. Caso tais atos se venham a confirmar formalmente, já após ter tomado posse, o governante arrisca enfrentar uma potencial violação do regime de exclusividade de funções que a Constituição impõe aos membros do Executivo.A polémica ganha ainda mais tração política pelo facto de este negócio ter sido inicialmente omitido por Luís Neves na declaração entregue inicialmente à Entidade para a Transparência, uma falha que Neves retificou posteriormente sob a justificação de se ter tratado de um "mero lapso".O atrelado com precursores de drogaEsta nova frente de suspeitas legais surge para adensar uma crise que já vinha em significativa escalada desde sexta-feira, dia em que foi confirmada a localização de um atrelado de pesados (uma galera) nas instalações da Construbarcelos — empresa de João dos Santos Carvalho, o amigo empreiteiro que realizou obras na sede da PJ e na casa do ministro.O veículo em causa tinha sido apreendido em dezembro de 2024 na Operação Pacoba, que desmantelou um dos maiores laboratórios de produção de cocaína da Europa. O atrelado, que conteria bidões com precursores químicos altamente inflamáveis, estava guardado numa instalação da Marinha, na Margem Sul do Tejo. Com a chegada do verão de 2025, a Marinha emitiu um alerta formal urgente à Polícia Judiciária (PJ), advertindo para o risco real de explosão dos químicos devido à subida das temperaturas.Notícia da RTP permitiu saber, este fim de semana, que a PJ, sem verbas imediatas para proceder à destruição segura do material, terá aceitado a proposta do empreiteiro João Carvalho para transportar e armazenar temporariamente a galera nos seus terrenos em Barcelos.Ou seja, segundo as investigações, um bem apreendido à ordem de um processo criminal foi cedido a uma empresa privada, alegadamente, por autorização do próprio Luís Neves, à data Diretor Nacional da PJ.A destruição dos químicos, esses, nunca chegou a ser consumada. Os bidões de substâncias ilícitas foram encontrados pela própria PJ nas instalações da construtora. A mesma empresa que, em paralelo, acumulou cerca de 1,9 milhões de euros em contratos públicos (como se apurou) com aquela polícia criminal. Mas que, como noticiou o Observador, estará a operar sem alvará de construção ativo desde o final de março deste ano, aparentemente por falta de pagamento de uma taxa ao regulador do setor (IMPIC) um impedimento legal que inviabilizaria a realização de quaisquer obras, sejam públicas ou privadas. Paradoxalmente, a empresa mantém ativa e válida a credenciação de segurança emitida pelo Gabinete Nacional de Segurança (GNS). Uma certificação do GNS que foi, precisamente, um dos argumentos utilizados pelo próprio Luís Neves para fundamentar a sua relação de total confiança com o empreiteiro, justificando assim a contratação da empresa quer para as polémicas empreitadas na PJ quer para as obras particulares nos seus montes.Perante todos estes dados, a Procuradoria-Geral da República (PGR) confirmou ao DN a abertura de um inquérito-crime para apurar a legalidade da movimentação de bens arrestados à ordem da justiça, ao mesmo tempo que a PJ conduz uma investigação interna sobre o caso.Entre o ultimato do Chega e o compasso de espera do PSO acúmulo de suspeitas do fim de semana precipitou uma reação em cadeia na arena parlamentar, onde a oposição desenhou duas estratégias de desgaste distintas.Por um lado, o Chega lidera a ala da rutura imediata. André Ventura formalizou este sábado à noite uma carta ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, exigindo a demissão imediata do MAI. Ventura acusa o Governo de "inércia cúmplice" e resgatou o precedente de Miguel Macedo — que se demitiu da Administração Interna em 2014 a propósito do caso dos "Vistos Gold" para salvaguardar a autoridade do Estado — para defender que a permanência de Neves "corrói irremediavelmente a confiança nas instituições".Por outro lado, o Partido Socialista adota uma postura mais recatada e focada no topo do poder. Embora classifique os dados mais recentes como "graves", a liderança de José Luís Carneiro recusa pedir formalmente a demissão. O PS prefere exigir esclarecimentos rápidos e transferir o foco para a responsabilidade política de Luís Montenegro na escolha e proteção da sua equipa. Esta prudência socialista prender-se-á, também, com o facto de Luís Neves ter sido nomeado para a liderança da PJ por governos do PS, gozando ainda de simpatia pessoal em várias franjas da bancada parlamentar.Certo é que com a PGR e a Autoridade Tributária a investigarem duas frentes distintas da vida pública e privada do governante, o silêncio de Luís Neves começa a asfixiar a sua margem de manobra política. E no fim do dia há uma personagem que tem todos os trunfos políticos do caso: o primeiro-ministro, Luís Montenegro. .IL e PS cobram esclarecimentos de Luís Neves; Chega defende demissão.Luís Neves desagradado com comunicado da PJ. Ministro vai alegar que entrega do atrelado está documentada.Ventura escreve a Montenegro a dizer que "tem de agir" no caso Luís Neves para manter "autoridade no Governo".BE exige explicação cabal a Luís Neves sobre relações com empreiteiro ainda este sábado