O ministro da Administração Interna, Luís Neves, deverá aplicar a máxima de que o silêncio é de ouro no que toca às notícias sobre as suas ligações ao empresário de construção civil João Santos Carvalho e alegadas irregularidades em obras realizadas numa propriedade no concelho de Odemira. Fragilizado politicamente, embora negue ter favorecido o empreiteiro, que se apresenta como sendo seu amigo, na adjudicação de contratos quando foi diretor nacional da Polícia Judiciária, e agastado com o inquérito interno decidido pelo seu sucessor, para apurar as circunstâncias em que um atrelado apreendido numa operação de combate ao tráfico de droga ficou na posse do dono da Construbarcelos, conta com o primeiro-ministro para resistir às pressões para que deixe o Governo a que se juntou há meio ano.Tendo garantido, no início do debate sobre o Estado da Nação, que mantém “plenamente” confiança no seu terceiro escolhido para a Administração Interna, após Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral, Luís Montenegro estará pouco disposto a conceder o que seria visto como uma vitória política a André Ventura.O líder do Chega, que acusa Neves de lhe ter feito ameaças verbais no último debate quinzenal, enviou no sábado uma carta ao primeiro-ministro, divulgada à comunicação social, apelando a que não mantenha em funções o ministro da Administração Interna depois de serem conhecidas notícias que “comprometem gravemente a confiança dos portugueses nas instituições e denotam uma cultura de gangsterismo que não é compatível com o exercício do poder democrático”. Instando o primeiro-ministro a agir, sob pena de arrastar o Governo “irremediavelmente para a cumplicidade criminosa”, Ventura voltou a insistir nesta segunda-feira na saída de Neves.Numa conferência de imprensa convocada devido aos problemas na correção dos exames nacionais, o líder do maior partido da oposição reafirmou que impendem sobre o ministro da Administração Interna “suspeitas de atividades ilícitas e criminais, eticamente reprováveis e criminalmente relevantes, e de flagrante abuso de autoridade”. E dirigiu-se a António José Seguro, a quem denunciara “descoordenação do Governo”, numa audiência no Palácio de Belém, na passada terça-feira, defendendo que o Presidente da República “deve alertar o Governo que Luís Neves não tem condições para continuar ministro”. Nesse sentido, deu o exemplo de outro ex-secretário-geral do PS eleito Chefe de Estado, dizendo que Jorge Sampaio assim fez a Armando Vara “por motivos muito menos contundentes”. Tal como na carta enviada a Montenegro comparara Luís Neves ao já falecido social-democrata Miguel Macedo, que se demitiu de ministro da Administração Interna devido a acusações relacionadas com a atribuição de vistos gold, sendo posteriormente inocentado pela justiça, para que a autoridade do Estado não ficasse posta em causa pelos seus problemas judiciais.Sendo muito improvável que o Presidente da República pressione o primeiro-ministro a prescindir qualquer um dos seus ministros em xeque - com críticas mais abrangentes (e relacionadas com o desempenho governativo) no que toca a Fernando Alexandre -, a favor de Luís Neves está ainda a habitual relutância de Montenegro em deixar cair membros do seu Governo que enfrentam problemas. Algo muito patente na longevidade de Ana Paula Martins no Ministério da Saúde..Ataque de dirigente do PSD.Sem o mesmo grau de apoio dentro do partido que tem sido dedicado a Fernando Alexandre, até por deputados e outros dirigentes que admitem falhas do Ministério da Educação nos exames nacionais, Luís Neves teve direito a críticas abertas do conselheiro nacional do PSD Vitório Rosário Cardoso, que apelou “a todos os patriotas portugueses” para que estejam atentos a movimentações de pessoas próximas do ministro da Administração Interna, escrevendo, numa publicação nas redes sociais, que “não poderemos deixar que qualquer tipo de dinâmica de bando capture o Estado Português”.Conotado com a ala mais conservadora do PSD, Vitório Rosário Cardoso, que é um dos dois representantes dos militantes de Fora da Europa no Conselho Nacional, defende que se deve aumentar o escrutínio político e público sobre “indivíduos promovidos” por Luís Neves quando este tomou posse como ministro da Administração Interna, no início do ano. “Vão cair na tentação de nomear gentes de confiança para controlo e minimização de danos, na defesa cerrada aos seus interesses de bando dentro da máquina do Estado”, prevê.Antigo secretário pessoal de José Cesário, quando o histórico social-democrata voltou a assumir a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, no primeiro Governo de Luís Montenegro, Vitório Rosário Cardoso fez uma intervenção no último Congresso do PSD em que desafiou Luís Neves a filiar-se, garantindo ter consciência de que este nunca o faria, “devido à sua verticalidade socialista”. E advoga agora que o partido “deve cortar imediatamente qualquer ligação ao polvo do PS, dinâmicas de avental e demais socialistas”..Cronologia.10 de julhoA manchete do semanário Nascer do Sol revela que João Santos Carvalho realizou obras numa propriedade detida por Luís Neves, no concelho de Odemira, apontando uma relação pessoal (o empreiteiro apresenta-se como amigo do ministro da Administração Interna) e profissional iniciada quando o governante era diretor nacional da Polícia Judiciária. Essa entidade pública adjudicou contratos à Construbarcelos, num total de 1,9 milhões de euros, incluindo ajustes diretos. Contactado no âmbito da investigação jornalística, Neves negou qualquer favorecimento do empreiteiro, cujos trabalhos no monte alentejano terão sido pagos mediante fatura, dizendo ainda não ter tido interferência na escolha da sua empresa em contratos públicos.12 de julhoEm entrevista à TVI, o ministro desvaloriza os trabalhos na sua propriedade, reduzindo-os a “três paredes, uma casa de banho com sete metros quadrados, um alpendre e um tanque”. Alegando que ainda não sabe quanto gastará no monte alentejano, destinado a turismo de habitação, calculou tratar-se de uma quantia entre 20 e 30 mil euros. Sobre duas faturas à Construbarcelos, cada qual no valor de 2500 euros, assegurou dizerem respeito a cinco mil euros que deu a João Santos Carvalho, em 2025, “para fundo de maneio”. Por outro lado, disse ter avisado o primeiro-ministro de que haveria uma notícia sobre o caso.13 de julhoO programa “Exclusivo”, da TVI, põe em causa o custo das obras avançado por Neves, ironizando que, segundo empresários do setor, seria mesmo “preço de amigo”. Por seu lado, a Câmara de Odemira diz que a piscina construída na propriedade é uma obra urbanística, pelo que carecia da emissão da licença que o ministro admitiu estar em falta. E não encontrou qualquer processo de licenciamento ou de comunicação de início de obras.16 de julho Na primeira ronda de perguntas do debate sobre o Estado da Nação, em resposta a André Ventura - que dois dias antes defendera a saída do Governo de Neves numa audiência com o Presidente da República -, Luís Montenegro diz que mantém “plenamente” confiança no polícia de carreira que é o terceiro titular da pasta da Administração Interna desde que é primeiro-ministro, tendo o próprio ficado responsável pelo ministério após a demissão de Maria Lúcia Amaral. 17 de julhoUma nova manchete do Nascer do Sol adensa os problemas de Luís Neves, devido à notícia de que um atrelado apreendido pela Polícia Judiciária em 2024, numa operação de combate ao tráfico de droga, foi encontrado nas instalações da empresa de João Santos Carvalho. A atual direção nacional da polícia de investigação anunciou um inquérito interno para apurar as circunstâncias que levaram à deslocação, de um parque da Autoridade Marítima, no Seixal, até às instalações da empresa de construção, em Barcelos, daquilo que chegou a funcionar como um “laboratório móvel” para fabricar estupefacientes..MAI sob pressão crescente. Luís Neves mantém o silêncio.IL e PS cobram esclarecimentos de Luís Neves; Chega defende demissão