Ao ser eleito secretário-geral, Carneiro manteve escolhas locais da gestão de Pedro Nuno Santos.
Ao ser eleito secretário-geral, Carneiro manteve escolhas locais da gestão de Pedro Nuno Santos.FOTO: GERARDO SANTOS

Liderança “sensata” de Carneiro permite trégua ao cargo de secretário-geral

José Luís Carneiro é o único candidato. Alexandra Leitão, Ana Mendes Godinho, Miguel Prata Roque e Duarte Cordeiro valorizam estabilidade. Prata Roque pede primárias futuras e saída de Carlos César.
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Ao final desta quarta-feira ainda não existia anúncio de outra candidatura a secretário-geral do Partido Socialista, o que indicava, com forte dose de certeza, de que José Luís Carneiro se irá manter no cargo que assumiu em junho de 2025 por liderar a única lista a apresentar-se hoje, prazo limite, ao secretariado nacional. Há atualmente, como o DN escreveu, pacificação interna: os resultados nas Autárquicas sinalizaram alguma retoma, apesar da derrota global para o PSD, e a postura de respeito de Carneiro pelas federações, nas escolhas autárquicas e das concelhias, agradou às estruturas locais. A própria digressão pelo país, deslocando-se às várias regiões, é valorizada, sabe o nosso jornal. Sem se apropriar de uma vitória de António José Seguro, naturalmente é enaltecida a estratégia, que começou por ser de demora no apoio, mantendo-se sempre de retaguarda (até a pedido do Presidente-eleito).

Como tal, para comprovar esse momento de consonância, o DN apresenta a visão de quatro figuras que chegaram a estar aventadas ao cargo de secretário-geral. Alexandra Leitão, Ana Mendes Godinho, Duarte Cordeiro e Miguel Prata Roque concordam com a ideia geral, de que a continuidade de Carneiro faz sentido.

Não vendo que a condução do Partido Socialista tenha erros graves nesta fase, Alexandra Leitão declara ser “preciso paciência no PS”, vincando ao Diário de Notícias perceber que “ninguém se vá apresentar”. Por isso, a ex-ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública entre 2019 e 2022, anteriormente apoiante de Pedro Nuno Santos e agora vereadora em Lisboa, defende que “é preciso dar tempo a José Luís Carneiro” e primar por uma “oposição construtiva.”

Ana Mendes Godinho, ministra do Trabalho e Solidariedade Social de 2019 a 2024, era outro nome apontado à liderança, sendo candidata a Sintra, onde agora é vereadora de oposição. É mais elogiosa quanto a Carneiro. “José Luís Carneiro tem sido a pessoa certa, tem conhecimento de causa, capacidade de moderação e diálogo e tem visto o fundo do país, procurado momentos conjuntos, tentando que o PS esteja disponível para negociar em prol do país”, advoga ao DN, avançando que “o PS tem de responder às necessidades das pessoas e ser intransigente na luta pela manutenção das conquistas dos trabalhadores”.

O professor universitário Miguel Prata Roque é o mais crítico. Diz ser “incompreensível e surpreendente não existir outra candidatura” face à tradição de “o PS sempre ter tido sociais-liberais e democratas-cristãos”, acrescentando que o partido “não está morto, mas mortiço, sem atrair a dinâmica necessária”. Por outro lado, considera “natural que existam listas à Comissão Nacional”, por exemplo. Especificamente sobre a atuação de Carneiro, o ex-secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros de António Costa classifica-a de “sensata”, concordando que “tem resolvido problemas ao Governo como no Orçamento do Estado, na política externa ou na nomeação de Aguiar Branco para presidente da Assembleia da República”, vendo “benefícios na estabilidade”. Ainda assim, pede primárias para uma legitimação antes das eleições. “Há uma concentração em pequenos diretórios e o PS tem de se abrir à sociedade. José Luís Carneiro prometera, na moção estratégica anterior, debate e havia a referência de primárias. Tendencialmente, é o secretário-geral que deve ir a eleições legislativas, portanto quem for eleito daqui a dois anos em novo congresso. Mas deve ir a candidato a primeiro-ministro quem ganha as primárias, portanto com votos das pessoas não inscritas no partido que se possam pronunciar. Não tenho visto muito interesse em falar-se disso”, sustenta Prata Roque, relembrando a única vez em que isso aconteceu no PS, em 2014, quando António Costa derrotou Seguro com a participação de 177 mil pessoas, estimando-se metade destes apenas simpatizantes, não filiados no PS.

Afirmando perentoriamente não ter pensado em “avançar para uma candidatura”, Prata Roque lamenta que “não se esteja a fazer o balanço das coisas bem e menos bem feitas de 2015 a 2024” e que o PS funcione, em certos casos, “como um centro de emprego”. Lembra que “quem apoia Guterres, Sampaio, Sócrates ou Costa também apoia Carneiro”, pedindo vozes críticas internas. Recorda ainda que apesar de ser “sensato” que Carneiro não se aproprie da vitória de Seguro, “os portugueses preferiram dar a Presidência a um socialista que esteve afastado da política”.

Apresentando-se crítico dos estatutos “por haver eleições diretas antes do Congresso”, o que, segundo Prata Roque, “esvazia o debate”, lamenta também que seja necessária uma “candidatura a secretário-geral para se apresentarem moções estratégicas”. Além disso, o jurista defende “alternância” no cargo de presidente. “O PS deve prezar a rotatitividade e a limitação de exercício de mandatos”, diz, aconselhando: “Seria benéfico procurar outro estado demográfico e outra visão do mundo”. Carlos César é presidente desde 2014 e foi reeleito em 2024 com 90,36% dos votos.

Duarte Cordeiro, antigo ministro do Ambiente e Ação Climática, salienta a necessidade de o PS, na oposição, tentar “políticas convergentes”, até porque algumas anteriores, do Governo de Costa, “foram interrompidas pelo Governo atual”. Não acha, porém, que “o papel do PS seja pedir constantemente reuniões ao Governo”. Terça-feira, na Antena 1, pediu que “se torne mais claro onde o PS é divergente do Governo”. Considera que “o sucesso ou o insucesso de José Luís Carneiro resulta do seu trabalho” e confirmou esperar que este vá às próximas legislativas. “É natural que alguém que vá construindo um trabalho possa depois, mais tarde, se candidatar com a preparação que fez”, destaca, recusando “comprometer-se” com o apoio, porque “pode acontecer que durante este período surjam alternativas com as quais me identifique mais”. Vincou não ter “planos de desempenho futuro no partido” e que, “dependendo da leitura do líder do PS, pode fazer parte dos órgãos nacionais, embora clarifique: “Para a direção nacional do Partido Socialista não estarei disponível”.

Regionalização e aposta na indústria vão à moção

Na moção estratégica que será apresentada e que ainda tem detalhes a serem ultimados, o DN apurou que José Luís Carneiro dá grande relevância ao potenciar da economia local. E é nesse sentido que um debate no congresso de final de março, em Viseu, poderá ajudar o PS a apresentar um projeto de revisão da lei autárquica, mas também um caminho, ainda longo, no sentido de procurar que haja novamente uma conversa nacional em relação à regionalização. Essa é uma forma de também dar destaque às comunidades locais, à aproximação territorial e à resposta rápida em casos de emergência com menor dependência do Estado central. Nesta fase, por exemplo, estuda-se a possibilidade de as capitais de distrito terem um papel mais ativo na convocação de reforços ou gestão de fundos.

Nesta mesma aproximação territorial, serão valorizado reforços da rede de portos e linhas ferroviárias, nomeadamente com garantias obtidas junto do Governo em relação à junção até Viana do Castelo, e contratos territoriais a larga escala. O PS deverá seguir as propostas de simplex de licenciamento, algumas delas que o Governo tenciona agora colocar em prática, até no urbanismo. A economia, pelo que o DN pôde saber, tem papel chave, uma vez que é a área onde o partido entende ter forma de negociar, via Parlamento, acordos com o Governo. E há partilha de opinião, nomeadamente no investimento em clusters industriais e na capacitação de produção de forma dual: ou seja, que se torne possível as empresas dedicarem-se a mais do que um produto, principalmente de alto valor, para exportação.

Nas conversas tidas com empresários, sempre de forma reservada, Carneiro vai amealhando pedidos para benefícios fiscais às pequenas e médias empresas e ouve queixas quanto à falta de mão-de-obra. Um dos grandes planos do PS é reinstaurar a aposta no ensino profissional, de modo a alimentar a indústria local, estancar a saída de jovens, e preparar, tecnicamente, os profissionais do setor. Paralelamente, são incluídas nas propostas da moção estratégica parcerias e protocolos entre empresas e sistema científico, pedindo um interface tecnológico para aumentar a competitividade do tecido empresarial. Há ainda a previsão de que se possam fazer testes de Inteligência Artificial, como já preconizou o Governo no recente PTRR, e avaliar as dinâmicas no Trabalho.

A aposta, aconselham a Carneiro, passa também por investir em produtos que sejam mais raros no mercado e, portanto, elevem o valor da procura. Recorde-se que no investimento de 5% para a Defesa, o secretário-geral, concertado com a visão do Presidente da República, já defendera a utilização dual dos militares, com estímulo à economia e reforço dos meios também para Proteção Civil e Forças de Segurança. Existe o levantamento de três centenas de empresas poderão produzir nacional e internacionalmente têxteis para o efeito, por exemplo. Olhando à economia, o PS defende a regulação do próprio turismo e salienta a importância de diversificação de receita.

Está claro que o PS vai manter a luta contra a revisão do código do Trabalho e que quer reformas tanto na Saúde como na Justiça, estando disposto a negociações, mas sem revoluções nas leis de bases.

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