José Manuel Pureza perfez este sábado, dia 30 de maio, seis meses à frente do Bloco de Esquerda. O coordenador viu a moção que integra a ter 65 dos 80 lugares na Mesa Nacional após a Convenção de novembro e vê aproximações e mobilizações que fazem acreditar numa recuperação da base eleitoral do partido. "Acho que o momento das diferentes moções, das diferentes sensibilidades se fazem sentir na Convenção. Essa diversidade é uma riqueza, não um estorvo. De então para cá, o Bloco tem procurado fazer uma escuta permanente. Tenho estado em permanente conversa com todas as moções. Na dinamização do trabalho local, na organização para a greve geral, não olho para as diversas sensibilidades. Tenho sentido um espírito de unidade muito grande a nível local e nacional. Há uma assumida vontade de convergência que permita ao Bloco ser forte. Não me lembro até ao momento de nenhuma divisão forte em termos de orientação política. Não há unanimismo, mas há capacidade de aproximação", destaca em início de conversa com o Diário de Notícias, confirmando que a recuperação das estruturas locais "é um trabalho de paciência depois de vários revés em muitos distritos", embora diga estar confiante na "dinamização e renovação."Sobre a relação com antigos dirigentes, Pureza assume que tem procurado ouvir figuras históricas do Bloco. "Só assim faria sentido", reforça, enumerando os nomes de Mariana Mortágua, Marisa Matias, Francisco Louçã, Catarina Martins, Fernando Rosas ou Luís Fazenda. "Tenho de ter a humildade de procurar ensinamentos e reflexões, especialmente de quem já esteve com o cargo de coordenador", afirma.Fabian Figueiredo, em entrevista ao DN, realçou que o Bloco tem de ser "voz que pode governar Portugal". Nesse sentido, José Manuel Pureza rechaça uma proximidade ao Partido Socialista ou um cenário de coligações, mas deixa claro estar mais recetivo a isso do que a direção anterior. "Quem vive com dificuldades com o seu salário, quem sofre de tempestades, essas pessoas exigem soluções concretas e isso é responsabilidade da esquerda. Uma força política como o BE tem de ter proposta para ganhar maiorias para mudar a vida das pessoas", enfatiza, corroborando que "a expressão esquerda de pontes é associada à direção do BE", mas sem gostar de ser caracterizado como "moderado"."Olho para coisas concretas como o custo de vida, o combate ao pacote laboral, a denúncia da guerra e das consequências horríveis que ela tem. Não temos feito outra coisa que não seja procurar construir pontes, espaços amplos de alternativas. São aproximações que têm a ver com sintonia a estes desafios", responde, expressando, portanto, consonância com os partidos de esquerda na maioria dos assuntos. Quando questionado novamente sobre uma aproximação ao PS, Pureza prefere olhar para a generalidade do Parlamento. "Quem são os interlocutores? São os que tiverem de ser. Temos a responsabilidade de criar maiorias definidas, claras. O Bloco esteve envolvido em iniciativas plurais contra a guerra que tiveram vozes da direita favoráveis. A nossa vontade de criar espaços inclusivos é prática, não é apenas discurso político. Vem quem quer vir", conclui.Abater pacote laboral é prioridade máximaO Bloco de Esquerda convocou a Mesa Nacional do partido, órgão máximo de discussão dos representantes da Direção e restantes moções, para este sábado com duas prioridades claras. A mobilização para a Greve Geral de quarta-feira, bem como a resposta às intempéries que assolaram o país e que podem ter consequências descontroladas nos incêndios de verão. "No dia 23 houve um encontro nacional com bloquistas e não bloquistas, na qual abordámos os contributos, as alternativas que devemos dar à Lei do Trabalho. E temos claro que é preciso defender os mais frágeis. Discutimos nesta mesma Mesa Nacional a vontade de o Bloco estar presente nesta mobilização contra a proposta agressiva e humilhante apresentada na Assembleia da República", advoga, atacando a "mesquinhez do Governo", que diz ainda ser "subserviente dos que vivem muito bem e da agenda e visão do Chega."Intempéries e custo de vida eram prioridade, mas agora ocupam mais vezes o discursoNa retórica, o Bloco de Esquerda realça querer "falar para as pessoas." Por isso, Pureza refere serem "seis meses não voltados para dentro, mas sim para fora." Não entende que a posição interventiva na defesa de uma resposta à emergência climática seja uma nova prioridade, ainda que seja, hoje, muito mais mencionada do que na direção anterior. "O país está numa situação perigosíssima face à vaga de calor que está a viver. Muito por incúria do Governo existem condições para uma desgraça nacional com incêndios de larga dimensão. As tempestades e os incêndios levam a que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso olhe para isto como prioridade. O Bloco não descobriu isto agora, há muitos anos temos nisto referência porque a questão das alterações climáticas tem um fundo político e económico contra o qual nos insurgimos e para os quais tentamos ter alternativa", riposta.Nesse mesmo capítulo, o Bloco de Esquerda enviou perguntas a dez ministérios do Governo com o intuito de aferir, em concreto, qual a preparação que o Executivo terá, nas várias áreas, para enfrentar o super El Niño, já categorizado por meteorologistas como uma ameaça à Península Ibérica tanto pelo agravamento do estado de seca como do risco de incêndios. O DN teve acesso aos documentos enviados aos ministérios da Saúde, Economia, Agricultura, Ambiente, Trabalho, Educação e Administração Interna, Defesa, Infraestruturas e Presidência. A título de exemplo, ao ministério da Economia e Coesão Territorial de Castro Almeida, Fabian Figueiredo indaga sobre "mecanismos de articulação" entre a tutela e os 308 municípios do território nacional e apela a uma "linha de financiamento extraordinária para apoiar os municípios, em particular os do interior, para a execução dos planos de resposta ao calor extremo." À tutela da Agricultura, nomeadamente, o Bloco de Esquerda dirige a atenção para o excesso de material lenhoso pelo território, em especial o Pinhal de Leiria. "Qual a percentagem já removida à data atual, e qual o calendário previsto para a conclusão das operações antes do início efetivo da época crítica de incêndios?", questiona o partido no documento assinado por Fabian Figueiredo, deputado único.No final da conversa com o Diário de Notícias, Pureza realça a representação parlamentar de Fabian Figueiredo. "Todos reconhecem a combatividade, iniciativa, capacidade de proposta, tenacidade no confronto com a extrema-direita da nossa representação parlamentar. Todos olham para o trabalho parlamentar do Bloco e reconhecem qualidade. Sou o primeiro a reconhecê-lo com a maior alegria. Nunca tive dúvidas de que Fabian Figueiredo fosse ter esta capacidade", elogia, revelando que tem conversas diárias com cidadãos que têm "atenção crítica" ao que o partido faz e que isso representa, na sua ótica, "confiança para o futuro.".José Manuel Pureza e Paulo Raimundo encontram-se e concordam na rejeição ao pacote laboral.Fabian Figueiredo: "Eleitores pediram humildade ao Bloco, mas humildade não significa silêncio".José Manuel Pureza pressiona Seguro: "Lei laboral é o teste do algodão do Presidente da República"