O PS, baseado numa notícia do Correio da Manhã que deu conta de que o Governo adquiriu, através da empresa irlandesa NewsWhip, uma ferramenta de Inteligência Artificial (IA) que monitoriza “meios de comunicação online”, exigiu esta segunda-feira, 13 de abril, ao Executivo liderado por Luís Montenegro uma resposta sobre esta plataforma que “cria rankings individuais de jornalistas, classificando-os pelo número de notícias que produzem e pelo impacto que essas notícias têm”. Numa conferência de imprensa, o membro do Secretariado Nacional do PS André Moz Caldas acusou, assim, o Governo de ter “uma dificuldade persistente em compreender o papel da comunicação social numa sociedade livre e democrática”.Num comunicado através da plataforma Esquerda.net, também o BE observou com “gravidade” que a “contratação do Governo passa não só por essas listas serem incompatíveis com a liberdade de imprensa consagrada na Constituição, mas também pelo facto de a Secretaria Geral do Governo, que contratou o NewsWhip, estar sob tutela do mesmo ministro, Leitão Amaro, que tem a pasta da comunicação social”.Logo de seguida, a Secretaria-Geral do Governo (SGG) emitiu um comunicado no qual rejeitou “liminarmente as acusações de que foi contratada uma ferramenta para a catalogação e monitorização de jornalistas ou de vigilância geral”, alegando que o que estava em causa era uma “ferramenta para pesquisa em fontes abertas e de conteúdos públicos”, que “cumpre todos os requisitos legais”.O mesmo documento garantia também que “a ferramenta é contratada pela SGG, sem que os gabinetes governamentais tenham acesso à mesma”.André Moz Caldas, em nome do PS, disse ver esta contratação não como “um acidente”, mas como “um padrão”, que tem como antecedentes as “reações do próprio primeiro-ministro quando confrontado com perguntas incómodas”.“Já o víramos na prática sistemática de evitar iniciativas em que os jornalistas possam questionar livremente e na preferência por aparições controladas, concebidas pela Central de Comunicação do Governo, para serem transmitidas sem contraditório”, lembrou.André Moz Caldas exigiu, através das declarações públicas, que o Governo esclarecesse “para que fins é utilizada a funcionalidade de ranking de jornalistas e quem tem acesso a essa informação”. “A Comissão Nacional de Proteção de Dados foi consultada antes da celebração deste contrato?”, questionou ainda, antes de lançar um terceiro desafio ao Executivo, que passa por dizer “que garantias existem de que esta ferramenta não é nem será utilizada para fins partidários”.“Se o Governo não tiver nada a esconder, estas perguntas têm resposta o mais urgentemente possível nas próximas horas”, concluiu.Na página da NewsWhip, é referido que a ferramenta AI Digest, que está em causa, permite a “monitorização de como os órgãos de comunicação e o público” reagem a “conteúdos em torno de campanhas e anúncios de decisões políticas”.Através desta ferramenta, promete a empresa irlandesa na página, “vamos ajudá-lo a identificar as vozes e publicações dominantes e fornecer-lhe resumos diários ou semanais”.O DN ouviu Dora Santos Silva, professora no Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que, recusando ser “fatalista” e “sem dramatizar o uso da ferramenta de IA”, questionou o que se pode fazer com esta plataforma, alertando para a eventualidade de haver “um uso completamente abusivo e irresponsável”.Sobre o ranking de jornalistas, a investigadora lembra que tanto Governos como partidos políticos “fazem isto, só que não conseguem fazer de forma tão eficiente” e “é para isso que os assessores também servem”.Relembrando que o papel dos jornalistas é “informar as pessoas, mas de forma a que elas possam tomar as melhores decisões sobre as suas vidas”, Dora Santos Silva considera que os governos têm “uma relação muito errática” com a comunicação social. Para a também fundadora do Observatório de Inovação nos Media, o Governo está “muito preocupado com a questão da visibilidade”, motivo pelo qual vemos “Luís Montenegro a fazer vídeos a partir do seu carro” sem pôr o cinto de segurança, acontecendo o mesmo “quando temos Leitão Amaro a fazer vídeos na altura do comboio das tempestades”.“O Governo está aqui mais preocupado em gerir a sua visibilidade e a sua comunicação política, em vez de utilizar o jornalismo como verdadeiro mediador de informação”, explica a professora, falando em “tensões” que são notórias em conferências de imprensa, onde o Executivo demonstra uma “relação abusiva que têm com o jornalista, na percepção de que os jornalistas estão todos com uma agenda negativa em relação à política”..Atitude de Ana Abrunhosa "não honra a tradição do Partido Socialista".Governo nega vigilância a jornalistas e diz que contratou apenas um serviço de "clipping moderno".Ministro da Presidência: "Eu não quero a Lusa nas mãos de um novo Sócrates"