O acordo interpartidário celebrado entre PSD, Chega e PS para a eleição dos órgãos externos da Assembleia da República teve o seu elo mais fraco em Tiago Antunes, indicado pelos socialistas para a Provedoria de Justiça. O antigo secretário de Estado dos Assuntos Europeus e Adjunto do Primeiro-Ministro nos governos de António Costa só teve 104 deputados a aprovar o seu nome, enquanto 86 votaram em branco e houve 36 nulos.O resultado da mais antecipada das 17 votações desta quinta-feira - foi adiada a 18.ª, para o Conselho de Opinião da RTP, devido à falta de um parecer da Comissão Parlamentar de Transparência sobre a elegibilidade de três deputados do Chega, e os juízes do Tribunal Constitucional só serão escolhidos em maio - evidenciou que faltaram mais votos além dos 60 do partido de André Ventura, que levantara reservas a ser preterido numa indicação habitualmente reservada ao maior partido da oposição, e dos nove da Iniciativa Liberal, que liderou a contestação ao professor da Faculdade de Direito de Lisboa, alegando que este participou numa “máquina de intoxicação e manipulação da opinião pública” durante o Governo de José Sócrates.O elevado risco de dissidência entre sociais-democratas levou Hugo Soares a apelar à mobilização dos deputados, e o líder parlamentar esteve entre os primeiros a dirigir-se à Sala do Senado, onde decorreu a eleição, forçando o preenchimento de 17 boletins de voto e o seu depósito nas urnas respetivas. Mas a soma dos eleitos socialistas e do resto da esquerda torna evidente que Tiago Antunes teve apoio de menos de metade dos deputados do PSD. O antigo líder da Iniciativa Liberal, Rui Rocha, que liderou a contestação a Antunes, ao ponto de lhe chamar Miguel Abrantes - pseudónimo usado em blogues que defendiam a governação socialista e atacavam figuras da oposição e da comunicação social -, durante a audição parlamentar, disse ao DN que o resultado da votação foi “uma vitória da decência e uma humilhação para Hugo Soares, que se prestou ao papel de mendigar apoio para um candidato com passado ligado a José Sócrates e acabou derrotado pela própria bancada”.Já o líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, anunciou, no final do plenário, que os socialistas iniciaram um período de reflexão após terem “cumprido de forma escrupulosa o acordo interpartidário”. Dizendo que ainda “é cedo” para Tiago Antunes decidir se estará disponível para uma segunda votação, elogiou o candidato à Provedoria de Justiça, que “já serviu a República e o País em variadas circunstâncias”. E o seu grupo parlamentar, dizendo que “mostrou ser adulto e fortemente confiável”, aprovando as listas conjuntas para os diversos órgãos externos. Quanto aos votos que faltaram para assegurar maioria qualificada (dois terços dos 226 que votaram) a Tiago Antunes, comentou que “nem todas as lideranças parlamentares têm a minha sorte”. Brilhante Dias disse ainda que Carlos César, único eleito da lista proposta pelo PS para os cinco representantes da Assembleia da República no Conselho de Estado, “entrou à frente do partido de extrema-direita”. Um raciocínio que alicerçou pelo facto de essa lista ter contado com 67 votos, mais do que os 60 deputados do Chega, embora André Ventura fosse o segundo da lista conjunta com o PSD, que somou 141 votos, pelo que foi eleito antes de César seguindo o método de Hondt, antecedido apenas pela cabeça de lista Leonor Beleza.Também no Conselho de Estado foram claras as dissidências, pois o PSD tem 89 deputados e o Chega 60. Dos 230 deputados, votaram 225 para esse órgão, com oito votos em branco e nove nulos, indiciando que alguns deputados da direita não aprovaram a lista vencedora..Eleitos para os órgãos externos.Conselho de EstadoA lista conjunta PSD-Chega foi a mais votada, com 141 votos, colocando Leonor Beleza, André Ventura, Carlos Moedas e Pedro Duarte. Já a lista do PS teve 67 deputados, a dois de eleger mais alguém além de Carlos César.Conselho Económico e SocialO social-democrata Luís Pais Antunes foi reeleito presidente. Teve 192 votos a favor, 30 em branco e quatro nulos.Conselho Superior de MagistraturaA lista única negociada entre os três maiores partidos, incluindo Rui Gomes da Silva e Nuno Gonçalves Martins, indicados pelo Chega, não teve anticorpos: 193 votos favoráveis, 22 em branco e 11 nulos.Conselho Superior do Ministério PúblicoA lista que juntava o social-democrata Fernando Seara, o ministro-sombra da Administração Interna do Chega, Fernando José da Silva, e outros indicados pelo PSD, PS e CDS-PP, teve 194 votos a favor, 21 em branco e 11 nulos.Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e FiscaisOutra lista PSD-Chega-PS, com o juiz Hélder Pombo indicado por André Ventura, teve 186 votos favoráveis, 27 brancos e 13 nulos.Conselho Superior de InformaçõesOs deputados Paulo Lopes Marcelo (PSD) e Filipe Neto Brandão (PS) tiveram a pior votação de entre os que foram eleitos: 159 votos a favor, 52 brancos e 15 nulos.Conselho Superior da Segurança do CiberespaçoÚnico órgão externo em que a representação parlamentar escapou aos três maiores partidos, dividida entre os deputados Jorge Miguel Teixeira (Iniciativa Liberal) e Patrícia Gonçalves (Livre), contou com 176 votos a favor, 36 brancos e 14 nulos..Tiago Antunes falha eleição para provedor de Justiça.Rui Rocha acusa Hugo Soares de "traição à direita" por defender Tiago Antunes na Provedoria de Justiça