Foi o Chega a abrir o debate quinzenal que marcava o regresso do Parlamento, após a pausa para a campanha das Presidenciais. E o tom foi de desafio, para que Montenegro apoiasse André Ventura na “luta contra o socialismo”. Foi o líder parlamentar do Chega a dar o mote para o tema que dominou atenções. “Temos, como direita, uma oportunidade única de derrotar o socialismo, que deixou o caos na Saúde e a imigração descontrolada. Não podemos criticar os socialistas e depois dar-lhes a mão. Não pode ficar em cima do muro - vai estar com o socialismo ou com quem combate o socialismo?”, indagou Pedro Pinto. “No nosso caso a votação esteve dispersa. Ao Governo cabe respeitar a decisão dos portugueses, o nosso espaço [aponta para PSD e Iniciativa Liberal] tem de acatar as consequências de ter havido dispersão de votos”, respondeu o primeiro-ministro que, como presidente do PSD, não se furtou a comentar o tema. Realçou que todos “criticaram a presença em campanha” e que “agora todos querem a sua presença na campanha”, reafirmando que “vai votar, mas não tomará qualquer posição”, isto apesar de saber que Cavaco Silva, ao DN, e muitos outros sociais-democratas se associaram a António José Seguro na luta contra André Ventura. O PSD, por Hugo Soares, gastou os seus minutos a exaltar a política de habitação do Governo e a criticar a “incoerência de o Chega vir agora pedir apoio.” .A Iniciativa Liberal optou por olhar para o passado e questionar a falta de apoio a Cotrim de Figueiredo. “O nosso espaço político não está representado na segunda volta. Porque colocou os interesses partidários à frente do país, fazendo com que não haja um candidato presidencial desta área política na segunda volta?”, questionou Mariana Leitão, presidente da Iniciativa Liberal, que ouviu críticas de todo o Parlamento por não se posicionar quanto ao apoio a um dos candidatos. Paulo Núncio, do CDS-PP, saiu em defesa de Montenegro e deixa a ideia de que o partido, que ontem à noite reunia, deverá mesmo ficar sem escolher o candidato a apoiar. “O PS tenta convencer o país de que teve uma vitória estrondosa. É uma hipocrisia e um oportunismo político. Oiço dizer que a segunda volta vai ser entre um democrata e um antidemocrata. Qualquer candidato que ganhe eleições tem legitimidade democrática, de esquerda ou de direita”, disse, preferindo atirar ao PS na sua intervenção.A esquerda foi voraz na crítica. Isabel Mendes Lopes considerou “inaceitável” que o PSD não consiga “escolher entre um democrata e outro que quebra o regime, que é apoiante de Trump”. A seguir ao Livre, Paulo Raimundo e Fabian Figueiredo concordaram nos argumentos. O comunista diz que Montenegro “quer manter no PS uma reserva para quando for preciso acenar a chantagem como fez no Orçamento do Estado, ao mesmo tempo que quer apoio do Chega para o que é a sua governação, para descer o IRC ou desmantelar o SNS”. Já o deputado do Bloco usou a afirmação da ministra do Trabalho, Palma Ramalho, de que “o pacote laboral avança, mesmo se não existir acordo com sindicatos” e perguntou: “Não se coloca ao lado de Seguro por querer depois os votos do Chega nesse pacote?”, sugeriu Fabian Figueiredo. Inês de Sousa Real acusou Montenegro de “navegar na neutralidade”, esperando que “um não seja mesmo um não”, que “não se transforme num talvez.” .JPP e PS foram os únicos a não puxarem o tema Presidenciais. No caso, os socialistas têm o seu candidato na segunda volta e José Luís Carneiro optou por usar o tempo para fazer os ataques mais acérrimos ao Executivo. Perguntou pelos investimentos no INEM, se datavam de tempos do PS, tendo resposta, detalhada, com Montenegro a rechaçar “uma reação” aos problemas na Saúde, explicitando que a demora se justificou um ano “pelos processos de adjudicação.” O secretário-geral do Partido Socialista prosseguiu na Saúde, relembrando os dados de que se registaram mais 20% de óbitos em Portugal neste período, ao que Montenegro respondeu que se devia “à epidemia de gripe não exclusiva de Portugal”, comentando que “noutros países registam-se números equivalentes”. Chega e Iniciativa Liberal apontaram críticas na Saúde também. A IL falou num Governo de “propaganda”, tendo Montenegro recuperado o voto contra no Orçamento do Estado para perguntar “com quem quer a IL negociar?”O PCP falou em “política de sacrifício do SNS” e Fabian Figueredo usou Fernão de Magalhães para pedir “uma mudança de rota” e “uma navegação com dados”, perguntando se Montenegro deixaria cair Ana Paula Martins. O primeiro-ministro recusou, diversas vezes, o “caos” na Saúde e assinalou investimento, mas também a melhor resposta em 2025 nas chamadas para a linha SNS24. .O PS apontou também baterias à política fiscal. “Tenho as duas portarias que mostram o aumento dos combustíveis e da habitação. Se atendermos aos mesmos critérios que usou para criticar governos do PS, então o Governo aumentou a carga fiscal em 6,8%. Entendo a explicação para a atualização do valor do ISP ou sobre o custo construtivo, mas tem de assumir que nestas atualizações as faça à nossa frente”, atacou José Luís Carneiro. Montenegro disse que o líder do PS “desceu baixo” e que “não pode ignorar que o Governo não mexeu nas taxas”, reafirmando que baixou “quatro vezes o IRC” e que o índice de pobreza “nunca foi tão baixo”. Já sem tempo para reagir, Montenegro ouviu de Carneiro a expressão “eleitoralista”, com o líder do PS a reivindicar que o Governo “preferiu suplementos extraordinários nas pensões”, em vez do “aumento estrutural” sugerido pelos socialistas. Num debate monotemático, o Executivo valorizou 27 revisões salariais na administração pública e a isenção de selo na compra da primeira casa, bem como o complemento de garantir a parte que não é assumida pelas entidades bancárias no crédito à habitação a jovens ou jovens casais.Livre lembra Gronelândia, PAN o clima, PCP a lei laboralSem temas diversos e poucas propostas das bancadas parlamentares, destaca-se que o Livre foi o único partido a pedir um posicionamento do Governo português em relação a Trump e à Gronelândia. “Portugal disse não querer tomar uma posição. O que faríamos se Trump anexar os Açores? Portugal tem de ser vocal”, pediu Isabel Mendes Lopes. “Já defendi o respeito pela integridade dos territórios, disse logo isso em dezembro quanto à Gronelândia e vou dizer o mesmo aos parceiros europeus”, respondeu Montenegro. Paulo Raimundo direcionou para a lei laboral. “Não insista. O seu pacote está rejeitado e será retirado mais cedo ou mais tarde. Aproveite para a valorização dos salários e dos trabalhadores”, desafiou o secretário-geral do PCP, tendo como resposta que o Governo “continua os diálogos.” O PAN perguntou se o PSD seguirá ideias da IL na lei de bases do clima e quanto à central fotovoltaica Sophia, que o primeiro-ministro disse ter “parecer negativo da Agência Europeia do Ambiente.” A finalizar, o deputado Filipe Sousa (JPP) questionou se o Governo assume a mobilidade aérea ou se continuará a transferir esses encargos para os residentes nas ilhas. Ficou sem resposta na revisão da lei das finanças das regiões autónomas..Mesmo sem apoio de Montenegro, Seguro promete relação institucional intacta em caso de eleição.PSD divide-se no apoio a Seguro e Luís Montenegro terá decisão a tomar.Luís Montenegro segura Ana Paula Martins num debate quinzenal em que a oposição diagnosticou o colapso do SNS.Debate quinzenal marcado por um Montenegro irredutível na recusa em manifestar apoio nas Presidenciais