Entre prescrições de como deverá funcionar daqui para a frente a direção socialista e que tipo de oposição o PS deve fazer ao Governo da AD, os militantes usaram a sua voz e José Luís Carneiro garante ter ouvido, justificando as várias perspetivas com uma vitalidade que diz ser própria do partido. Foi assim que decorreu o 25.º Congresso Nacional do PS, este fim de semana, em Viseu, assumindo uma prova de vida do partido e um rol de recados ao Executivo de Montenegro.Foi neste ambiente que o líder do PS deixou, no discurso de encerramento do Congresso, a garantia, já várias vezes dada, de que, “tal como foi, até agora, apresentada a proposta de reforma laboral do Governo merecerá a rejeição do PS”.“No trabalho, rejeitamos qualquer retrocesso nos direitos conquistados e defendemos salários mais altos, valorização do trabalho e crescimento assente na produtividade”, afirmou o líder socialista, lembrando que “o Governo apresentou uma proposta de alteração da legislação laboral que visa dinamitar os progressos alcançados com a Agenda do Trabalho Digno”.Ainda assim, a rejeição não é liminar, deixando margem para negociações. Por isso, José Luís Carneiro explicou que, “respeitando o diálogo social em curso”, o partido está disponível “para melhorar a legislação laboral que garanta empregos de qualidade, que enfrente os desafios das transições digital e verde, que enquadre as novas formas de trabalho, que garanta condições de trabalho mais seguras, menos precariedade, salários mais justos, igualdade salarial entre homens e mulheres, mais igualdade de género, acesso a melhor educação e formação ao longo da vida, sindicalização e negociação coletiva mais forte e dinâmica”.“Tudo ao contrário da linha do Governo”, rematou.Logo no arranque, na noite de sexta-feira, o líder socialista lembrou que assumiu a liderança do PS num “momento difícil”, em que “muitos questionavam” o “futuro” e determinavam a entrada do partido “em declínio”. Referia-se ao resultado eleitoral de maio de 2025, nas legislativas, quando, pela primeira vez em democracia, a bancada socialista ficou relegada para um terceiro lugar no hemiciclo, logo atrás do Chega. E isso foi lembrado, mesmo que não tivesse sido explícito ao longo da reunião magna do PS. . “Hoje podemos afirmar com serenidade que o Partido Socialista respondeu com unidade, com responsabilidade e com trabalho. E é dessa unidade que nasce a esperança”, garantiu, acrescentando que os seus “objetivos foram reconquistar a confiança das portuguesas e dos portugueses e unir o partido”, até porque, acrescentou, o PS é “um partido que quer governar o país”, o que implica, para que isso aconteça, que saiba “unir-se a si próprio”.Esta ideias seriam replicadas ao longo de todo o Congresso por vários militantes, que muitas vezes assumiam a aparência de ex-governantes.Com a defesa da ideia de que o partido que lidera é a “grande expressão da pluralidade, da diversidade”, Carneiro lembrou que, na últimas eleições autárquicas, em outubro de 2025, os socialistas confirmaram a sua “força”, tal como voltou a acontecer nas presidenciais.Ainda assim, foram vários os alertas e recados sobre a liderança de Carneiro na oposição ao Governo, com várias intervenções a sugerirem um PS mais exigente, de Santos Silva a Alexandra Leitão, passando por Ana Mendes Godinho, Mariana Vieira da Silva, Pedro Silva Pereira e em especial a moção setorial intitulada Socialismo com Futuro, que teve como primeiro subscritor o deputado Miguel Costa Matos, com avisos para que o partido não se relegue “a parceiro de consensos e acordos com o PSD”.Resumidamente, o Congresso cumpriu os objetivos para os quais foi criado, como definir os órgãos internos do partido - como a Comissão Nacional, que acabou por ser eleita com 88,9% de votos favoráveis e uma taxa de renovação de 50,2% entre 251 membros que a compõem; ou a reeleição de Carlos César como presidente.Mas as sombras do PSD e do Chega continuaram a ser afastadas e evocadas ao mesmo tempo. Carneiro, logo na abertura, não deixou que ficasse esquecido o bloqueio na eleição dos juízes para o Tribunal Constitucional, que até aqui tinha sido decidida, historicamente, entre PS e PSD. No entanto, com o Chega em segundo lugar na aritmética parlamentar, a negociação é diferente e esteve presente no Congresso.“Cabe ao Governo decidir se quer a via da moderação, em que poderá contar connosco, ou se prefere capitular perante a demagogia e o populismo”, alertou o líder socialista, não evitando o tema.“É altura de exigirmos à AD que se decida”, rematou. “Se quer continuar o muro de silêncio com que recebe os nossos contributos enquanto chega a acordos com a extrema-direita ou abrir-se a convergências moderadas connosco”, descreveu, concluindo que “o PS é responsável e é firme”.“Há linhas que não se negoceiam, a Constituição não se relativiza e a democracia não se instrumentaliza”, defendeu, antes de lançar mais um aviso: “Se tentarem desfigurar os equilíbrios do nosso sistema democrático, começando por tentar desequilibrar o Tribunal Constitucional, ouvirão da nossa parte um rotundo não.” “Não por cálculo partidário, mas por dever democrático” concluiu..Carneiro foi a Viseu deixar uma mensagem para o exterior: "Estamos vivos".Jovens do PS imunes aos “discursos fáceis” da extrema-direita