André Ventura escuta, com a mesma atenção acelerada que dedica a todos os interlocutores amigáveis com que se cruza nas ações de campanha, alguém que lhe diz precisamente o que não quer ouvir. “Nestas eleições vai ser difícil... Esperemos que nas próximas seja eleito primeiro-ministro ou Presidente da República”, diz-lhe uma das últimas pessoas que encontra na arruada em Sobral de Monte de Agraço, no final da manhã de uma sexta-feira com agenda condicionada. “Vamos lutar por isso”, responde o líder do Chega, antes de retomar a marcha até à viatura que o levará ao Palácio de Belém. Por enquanto, na qualidade de membro eleito pela Assembleia da República do Conselho de Estado, o órgão consultivo que Marcelo Rebelo de Sousa decidiu convocar uma última vez, para debater a situação na Venezuela e Ucrânia.Exorcizar a descrença alheia nas suas reais possibilidades de triunfar na segunda volta, marcada para 8 de fevereiro, é um dos desafios de Ventura nos últimos dias de campanha eleitoral para a primeira volta, tendo contra si as sondagens que vão antecipando derrotas contra qualquer um dos eventuais oponentes. Algo que tem sido repetido por João Cotrim de Figueiredo, em apelos ao voto útil dos eleitores do Chega, tal como pela generalidade dos comentadores políticos. E agora, à porta de um estabelecimento da Avenida Marquês de Pombal, por um militante “com cartão” do Chega, cujos pingos de tinta na camisa evidenciam ter-se deparado com o homem que espera ver a liderar Portugal, em São Bento ou em Belém, a meio de um dia de trabalho nas obras.Embalado pela tracking poll da Pitagórica, que na noite anterior o pusera à frente pela primeira vez - desde então, foi relegado para terceiro, atrás de António José Seguro e de Cotrim de Figueiredo, mas a pouca distância -, Ventura percorre as ruas da sede de um dos concelhos menos populosos do distrito de Lisboa com o conforto de ser bem recebido num território rural que, à partida, não será o mais propenso ao Chega. O partido foi o mais votado nas legislativas, com 1608 votos a representarem 26,19% do eleitorado, à frente da AD e do PS, mas nas autárquicas nem um vereador elegeu, baixando para 597 votos (10,17%), e testemunhando a vitória histórica da coligação PSD-CDS, que pôs termo a quatro décadas e meia de gestão autárquica comunista.. Apesar de o ponto de encontro para a ação de campanha ser a Praça Dr. Eugénio Dias, onde se encontra a sede do município, a social-democrata Raquel Soares Lourenço, mais jovem presidente de Câmara de Portugal, nunca será avistada nessa manhã. Pelo contrário, Fernando Lopes Pais, que foi o candidato autárquico do Chega, é um dos que agitam bandeiras à espera do candidato. Junto ao coreto, de onde as figuras do presépio só serão removidas no final da manhã, enquanto um cidadão indostânico tenta vender o Borda d’Água, pedindo moedas a quem não demonstra interesse na publicação que ensina a melhor altura do ano para semear qualquer cultivo, concentra-se uma pequena multidão, com reforços de peso vindos de fora, como os deputados Patrícia Almeida e Pedro Pessanha, eleitos pelo Círculo de Lisboa.Quando o candidato presidencial aparece, ouvindo gritos de “Ventura! Ventura! Ventura!”, intercalados por “Vitória! Vitória! Vitória!”, dirige-se primeiro aos jornalistas. Num dia abreviado de campanha há que marcar a atualidade política, e o líder do Chega, bem-disposto ao ponto de experimentar os óculos escuros de uma repórter que acompanha a sua comitiva, aproveita para distribuir ataques aos adversários e anunciar que pediu uma sondagem que lhe dá “uma margem mais significativa”. Considerando que é “mais ou menos incontornável, a menos que aconteça qualquer coisa imprevisível”, que as presidenciais tenham a segunda volta que não mais voltou a ocorrer desde 1986, enuncia os sinais que crê prenunciarem a sua passagem à fase seguinte.“Sinto nas ruas que está a haver um aumento da transversalidade do eleitorado. Temos conseguido furar a fronteira do Chega e chegar a outro eleitorado. E a grande novidade destas últimas sondagens é que havia uma quantidade de indecisos na casa dos 18% ou 20%, e agora está na casa dos 11% ou 12%, o que significa que grande parte decidiu votar em mim. É um bom sinal para os últimos dias de campanha”, defende quem está “convencido de que vamos alargar mais a margem e vencer com toda a clareza esta primeira volta”.. Prometendo um “modelo de Presidente que seja capaz de fazer o escrutínio que tem de ser feito ao Governo”, tanto acusa Marques Mendes de “tentar arranjar subterfúgios para nunca responsabilizar o Governo”, preferindo apontar responsabilidade à Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde pelas mortes associadas a atrasos no socorro do INEM, como aponta baterias a Cotrim de Figueiredo. Aquele candidato que, apesar de no início desta semana ter admitido votar em si caso não passe à segunda volta, Ventura equipara ao antigo líder social-democrata na falta de apetência para aquilo a que chama “corte com o sistema”. “Votar em João Cotrim de Figueiredo ou em Marques Mendes é a mesma coisa. Não querem mais segurança, não querem mais luta contra a corrupção, não querem menos imigração e não querem controlar subsídios”, acusa, por entre críticas a quem encara as eleições presidenciais como um “desfile de misses”.Para quem acredita que os portugueses “querem dar um abanão no sistema”, nada melhor do que apontar defeitos ao antigo líder da Iniciativa Liberal. “Os portugueses sabem que votar no João Cotrim de Figueiredo nem chega a ser um toque na mesa. Se votarem em mim, é um murro na mesa. Se votarem no JCF é assim”, comenta, fazendo um gesto em que toca leve, levemente, com a ponta dos dedos nos microfones que tem à sua frente.Alguns metros à frente, troca palavras com um casal de sem-abrigo que anda “há mais de um ano à procura de sustento”, minutos após defender que “dois ou três milhões de euros” de entre os 360 milhões gastos anualmente no Rendimento Social de Inserção deviam ser utilizados para comprar ambulâncias - e de perguntar se “não podemos gastar um milhão a pôr macas nos hospitais quando gastamos 10 milhões de euros por ano em subvenções vitalícias”.Acompanhado pela máquina do Chega, da assessoria de imprensa aos seguranças, incluindo o antigo atleta olímpico Marco Fortes, Ventura desce a Avenida Marquês de Pombal naquilo que, à escala de Sobral de Monte Agraço, passa por um banho de multidão. Mesmo que auxiliado pela quantidade de jornalistas e de figuras do partido. Consigo tem Cristina Rodrigues, Marta Silva e Ricardo Regalla, três dos elementos do seu grupo parlamentar que lhe são mais próximos. Ou a menos conhecida Eugénia Murjal, candidata à Câmara de Alcochete e atual vereadora, uma das principais animadoras da arruada em Sobral de Monte Agraço, lançando palavras de ordem como “Ventura Presidente, para Portugal ficar decente”.Mas para entrar no Palácio de Belém primeiro há que passar à segunda volta. É isso que Ventura pede, a cada entrada numa loja, seja para comprar um cacho de bananas ou beber uma ginjinha, a cada contacto na rua, com transeuntes e automobilistas que travam para o cumprimentar. “Não vou ser um Presidente como os outros. Vou dizer ao Governo o caminho por onde não pode ir, e o caminho por onde deve. Se não querem que diga, não votem em mim”, desafia..André Ventura: "Revejo-me em Ramalho Eanes. Os meus adversários só querem discutir picardias"