"Recentrar o PSD deu-lhe mais 10 anos de vida enquanto grande partido da democracia portuguesa"

Uma estrela em ascensão no PSD de Rui Rio, o barcelense Carlos Eduardo Reis, 37 anos, tornou-se discretamente num dos homens mais influentes no partido. Em vésperas do Conselho Nacional diz quem tem e quem não tem lugar na lista de deputados

Rui Rio venceu as diretas, mas Paulo Rangel ainda teve 47,5% dos votos dos militantes. De que forma é que esta margem, ainda bastante significativa, terá influência na escolha dos candidatos a deputados do PSD?

É natural que o líder eleito queira trabalhar com gente mais próxima e de confiança, segundo alguns critérios. Não excluindo à partida ninguém, até porque é preciso respeitar as indicações de secção e as indicações distritais, há que definir quais são aqueles que dão mais garantias ao partido neste novo ciclo político.

O líder do partido, na semana passada, fez uma referência à lista de deputados dizendo que contava com pessoas que ele avalia como competentes e leais. Acho que são dois bons critérios e que se enquadram naquilo que é o perfil do próprio presidente do partido.

Recuando dois anos, Rui Rio nas eleições de 2019 trouxe para o Parlamento, com o voto do povo, uma das maiores remodelações em termos do número de deputados: 41 deputados novos em relação à legislatura anterior. Esse sinal de refrescamento é importante.

Conto que agora esse refrescamento não vá ser tão grande, até porque há um conjunto de deputados que tem a expectativa de ficar e que ainda são novos na casa, que ainda não fizeram uma legislatura completa. Mas conto ainda que, com uma perspetiva de governo e com a dinâmica que o Dr. Rui Rio tem imprimido nos últimos tempos, possa também ir buscar algumas pessoas à sociedade civil que lhe possam dar garantias de mais acutilância também na forma como fazemos política na Assembleia da República.

Portanto, ir buscar independentes também está nas prioridades?

Sim, o PSD hoje está mais preparado para conversar com a sociedade civil e receber esses contributos.

E vai Rui Rio ter a capacidade de unir o partido? É uma prioridade essa união tendo em conta estes 47,5% versus 52,5%?

Entendo que a união não é matemática só. O facto de o Dr. Rui Rio ter sido legitimado nestas circunstâncias e na forma como esta eleição decorreu lhe dá uma grande legitimidade para poder fazer a união. Mas também lhe dá a legitimidade para poder fazer algumas escolhas dentro da lista de deputados.

Recordo que toda a gente esperava que em 2019 o Dr. Rui Rio fizesse aquilo que alguma imprensa chamou uma "grande purga" e não aconteceu. Juntou toda a gente, deu até liderança em alguns distritos a pessoas que não eram nem são, e vieram a revelar-se que não são mesmo, próximas dele e ele soube juntar toda essa gente.

Mas não considera que unir o partido é o principal desafio do líder do partido neste momento, face ao estado do país também?

O principal desafio do líder do partido é conseguir materializar o sentimento que há lá fora em relação à confiança que as pessoas têm nele.

Aquilo que sentimos durante estas eleições diretas é que há muita gente que vota ao centro, e que votou PS nas últimas eleições, que quer votar no PSD"

Aquilo que sentimos durante estas eleições diretas é que há muita gente que vota ao centro, e que votou no Partido Socialista (PS) nas últimas eleições, que quer votar no PSD e confia no Dr. Rui Rio. Acho que esse é o primeiro e o principal objetivo no momento.

Ele provou que tem um grande apoio dentro do partido contra aquilo que chamam as estruturas. Estou convencido que aquilo que o Dr. Rui Rio disse na noite eleitoral, que há um conjunto de portugueses não filiados no PSD que influenciou esta eleição, é um dado muito importante e acertado.

Portanto, essa unidade faz-se com foco nas nossas propostas, em sermos uma alternativa do Governo e não só nas listas de deputados. Acho que reduzir isto à matemática e à lista de deputados é politicamente curto.

Os 47% que votaram em Paulo Rangel significa, ainda assim, que houve uma fratura no partido?

O PSD sempre foi um partido muito inquieto e sendo um partido inquieto e personalista é um partido que precisa sempre de legitimar os seus líderes e de discutir as suas lideranças. O Dr. Rui Rio não ganhou uma eleição para a liderança do partido. Venceu três eleições diretas com adversários de grande categoria e isto não é um dado de somenos.

A unidade não se faz só olhando para os 50 e pouco por cento e 47%, faz-se percebendo qual é o objetivo a seguir. Há uma responsabilidade que alguns militantes têm de ter, e militantes qualificados, que é de perceber que o PSD agora tem que falar diretamente para os portugueses.

Não é só a direção que tem de dar sinais de que quer unir o partido. Alguns militantes têm que ser responsáveis e tirar algumas ilações do seu posicionamento, principalmente nos últimos dois anos. Acho que é um trabalho de todos, não é um trabalho só da direção do partido.

Quer dar exemplos?

Não vou fulanizar as questões. Há alguns colegas que aqui tenho do Parlamento que pelo seu posicionamento e por não se reverem no líder do partido já se puseram fora das listas. A unidade deve ser feita pelo sentimento que temos enquanto militantes e dirigentes de quem não concorda com o rumo que o país tem tomado até agora, de perceber que estamos próximos de ser Governo e de fazer diferente do que estas últimos seis anos de "geringonça" e do primeiro-ministro António Costa.

Se estivermos a fulanizar, se estivermos só a olhar para a aritmética sem nos colocarmos na posição do que é que nós podemos fazer pelo partido e o partido pelo país, então nunca nos vamos entender e vamos andar sempre de eleição direta em eleição direta até a circunstância política nos colocar no Governo.

Rui Rio garantiu que não iria haver uma "limpeza étnica" no partido, referindo-se a possíveis dispensáveis apoiantes de Rangel. Como interpretada esta declaração?

O PSD tem várias etnias, de facto. É um partido quase catch-all, no sentido que vai buscar várias sensibilidades. Acho que há um conjunto de militantes e não militantes que pode fazer parte das listas de deputados e que pode dar essa ideia de abertura sem estarmos a recorrer unicamente aqueles que estão nas concelhias e aqueles que estão nas distritais.

Quanto às declarações, vou deter-me naquilo que acho que foi mais importante: o tom sereno, tranquilo e cordato com que o presidente do partido as fez. Acho que isso denota que ele percebe que é importante ir de encontro a este sentimento dos militantes.

Mas temos que convir que depois do senhor presidente do partido ter ganho estas eleições quando não tinha o apoio de grande parte da estrutura eleita, os militantes, é natural que se sinta ainda mais legitimado por sentir que há um conjunto muito alargado de pessoas dentro e fora do partido que, apesar dos líderes locais e distritais apoiarem A, B ou C, tem o discernimento de perceber que há uma pessoa dentro do partido que neste momento é o melhor quadro para ser candidato a primeiro-ministro de Portugal.

Quem é que não tem lugar nas listas de candidatos a deputados?

Quem não quiser vencer António Costa e o PS não cabe na lista de deputados. Fundamentalmente, quem não comunga do sentimento de que é preciso dar uma nova alternativa ao país.

Quem achar que está tudo bem, quem achar que não temos aqui uma oportunidade para dar uma década de desenvolvimento ao país, então acho que essas pessoas não devem fazer parte das listas de deputados. Cabe aqui quase tudo. Estarmos a excluir à partida pessoas porque apoiaram A, B ou C não acho que seja inteligente da parte da direção do partido.

Voltando ainda às diretas, o Dr. Rui Rio afirma que tinha sido uma vitória das bases. Qual é a distância que existe entre o aparelho do partido e os militantes?

Existiu um conjunto de dirigentes que entendeu que o Dr. Paulo Rangel serviria melhor como candidato a primeiro-ministro e os militantes entenderam exatamente o contrário.

"houve uma miopia por parte de alguns dirigentes do partido em relação aquilo que os militantes verdadeiramente queriam e que muita gente da sociedade civil quer, que é uma alternativa ao PS"

Dir-lhe-ei que houve uma miopia por parte de alguns dirigentes do partido em relação aquilo que os militantes verdadeiramente queriam e que muita gente da sociedade civil quer, que é uma alternativa ao PS. Acho que houve um desencontro entre a vontade dos militantes e dos dirigentes.

Eu próprio venho de um processo autárquico em que, com as devidas distâncias, aconteceu exatamente um divórcio entre aquilo que os dirigentes locais e distritais queriam e aquilo que o povo barcelense queria, no caso falo da minha terra natal.

Porquê? Porque esse povo com um candidato escolhido pela Comissão Política Nacional deu uma vitória clara numa câmara que tinha sido perdida há 12 anos para o PS. Porque foi há muito pouco tempo, nas ultimas autárquicas, encontro nesse episódio muitas semelhanças com o que se passou agora com as eleições diretas do PSD.

Há outros critérios que estão na base da seleção de candidatos a deputados além dos que falou?

Acho muito difícil encontrar outros critérios que sejam tão válidos, além da competência e lealdade, considerando ainda as indicações que as secções e as distritais fazem e que chegam à Comissão Política Nacional e um conjunto de pessoas da sociedade civil e até do Conselho Estratégico Nacional, que o Dr. Rui Rio considerará. Há aqui uma coisa muito importante.

"A vitória de Rui Rio significa que o Grupo Parlamentar do PSD vai ser maior e vai ser ainda mais decisivo na governação do país, independentemente de qual seja o resultado"

A vitória de Rui Rio significa que o Grupo Parlamentar do PSD vai ser maior e vai ser ainda mais decisivo na governação do país, independentemente de qual seja o resultado 30 de janeiro. Recentrar o PSD deu-lhe mais 10 anos de vida útil enquanto grande partido da democracia portuguesa.

Portanto, este recentramento político que o Dr. Rui Rio conseguiu, à custa também de muita crítica, é um grande serviço que foi feito ao PSD que nos dá uma longevidade muito maior, que não nos retira capacidade de dialogar à direita, mas que nos dá, fundamentalmente, capacidade para ir buscar votos ao centro e dialogar com o maior partido, neste momento, parlamentar, que é o PS.

Quando diz mais 10 anos de vida é porque sentia ameaçada essa vida?

Quando digo 10 anos de vida é quase um soundbite, no sentido de ser uma imagem que estou a tentar transpor. Se nós tivéssemos nestas eleições um discurso virado para o lado direito do hemiciclo, que só falava para os eleitores da Iniciativa Liberal, do Chega!, do CDS e outros partidos sem representação parlamentar, acho que estávamos a diminuir a capacidade do PSD de servir o país. É isso, é só isso. Acho que essa estratégia de afunilamento à direita é uma estratégia que dá menos futuro ao PSD.

Depois de tudo o que se passou nos Açores, considera que é útil manter a porta aberta ao Chega!?

Analisando as eleições diretas com uma vista fina, uma das grandes vantagens foi o presidente do partido ter afastado totalmente uma coligação com o partido Chega!.

Tive alguns contactos com pessoas que não são filiadas, que até votam normalmente à esquerda, que ficaram muito agradadas porque perceberam que poderiam votar no PSD com confiança e com a certeza de que não haveria uma coligação com o Chega!

Quando estamos a ir buscar votos ao centro não temos que estar preocupados se fazemos uma coligação ou não com o Chega!. Teremos sempre outros parceiros.

E acordos parlamentares?

Se o PS for responsável vai viabilizar um Governo do PSD, que foi algo que nunca aconteceu. Sinceramente, não sei se este PS está preparado. Sei que há muita gente dentro do PS, uma ala mais moderada, que verá com melhores olhos viabilizar um Governo do PSD do que entregar o PSD a uma negociação à direita que não será benéfica para o futuro do país. Há quem se esqueça, mas Francisco Sá Carneiro também procurou conversar com Mário Soares antes de negociar com a direita.

Sendo próximo de Rui Rio, o que é que viu mudar nele quando se apercebeu desta vitória? E que impacto é que se vai ter daqui para o futuro?

Acho que não mudou nada e essa é realmente a vantagem dele. Por não ter mudado nada com esta vitória só vem confirmar aquilo que ele tem vindo a dizer, que tinha muito apoio lá fora com aquilo que tem feito no partido.

Mas analistas políticos dizem que Rui Rio ressuscitou com estes números. Não sentiu isso?

Ressuscitou? Enfim, acho que ele tem vindo a ser, nos últimos seis meses, bem mais acutilante com o governo do que aquilo que a imprensa ou alguns críticos analisam. Passos Coelho, por exemplo - e faço este comparativo porque foi o último líder do partido antes do Dr. Rui Rio - tinha sempre muitos pruridos até em pedir algumas demissões de ministros.

"A responsabilidade política nunca foi um problema para António Costa, muito menos para os seus ministros"

O Dr. Rui Rio nunca teve esses pruridos e fez vários pedidos de demissão. Se o primeiro-ministro entendeu muito tempo que Eduardo Cabrita estava bem como ministro da Administração Interna ou até que o ministro João Cravinho, independentemente de todos os problemas que houve na sua pasta, não se deve demitir ou não lhe retira a confiança política, isso é um problema de legitimidade política do Governo e da gestão que António Costa faz desses dossiers. Não tem a ver propriamente com termos uma oposição mais ou menos frouxa. A responsabilidade política nunca foi um problema para António Costa, muito menos para os seus ministros.

Rui Rio não mudou a sua forma de ser e de estar por causa desta eleição, ela tem sido apreciada, porque senão não teria sido votada e nós não estaríamos, em condições para poder disputar estas eleições para vencer o PS de António Costa.

Foi uma má notícia para António Costa a eleição de Rui Rio. Porque Rui Rio tem o que poucos políticos portugueses tiveram, ou têm, que é a capacidade de falar direto com as pessoas, uma linguagem muito simples. Se ele conseguir manter essa sua qualidade acho que é uma grande vantagem.

Aliás, olhando para as últimas eleições legislativas, de onde partimos de muito lá atrás, a subida que ele teve em campanha, e a descida do PS, foi evidente. Prevejo um fenómeno igual sendo que desta vez nós vamos cruzar as linhas, a descida do PS com a nossa subida.

Como é que comenta ser chamado "o homem do corredor"? Sente-se um barão do PSD neste momento?

Barão não, porque isso faz-me logo mais velho (risos)! Mas venho de uma família de políticos e, portanto, é natural que a política esteja no meu dia-a-dia desde muito novo. Encarei sempre este tipo de epítetos de uma forma natural.

Homem do corredor deve ser uma alusão ao facto de na última década, tirando estes últimos três anos, ter feito política quase sempre em oposição e quase sempre criando formas de participação política que não nos era dada por quem dirigia o partido.

Eu começo a fazer listas ao Conselho Nacional porque havia um conjunto de pessoas que não tinha espaço nas suas secções, não tinha espaço nos seus distritos e eu não tinha espaço a nível nacional. Mas criámos o nosso próprio espaço político.

Portanto, gosto de sentir que faço parte de uma equipa onde aquilo que digo conta e se me pergunta se ser homem de corredor é isso, pronto, sou homem de corredor. Acho que a minha opinião conta, sinto-me valorizado por isso, mas trabalharia da mesma forma se isso não acontecesse, sobretudo para que a minha opinião contasse mais à frente.

No âmbito do seu trabalho como deputado e vice-presidente da Comissão de Defesa, com o terminar desta legislatura, como se sente pelo facto de estar ainda esclarecida a responsabilidade política em relação à derrapagem das obras do Hospital Militar de Belém. Esta conduta é uma exceção à regra do Ministério da Defesa?

Não é uma exceção à regra. O Ministério da Defesa, infelizmente, está envolvido numa série de episódios menos abonatórios para as Forças Armadas, esse foi só mais um. Tudo o que podíamos fazer para o escrutínio parlamentar foi feito.

Mas há outros casos em que o PSD esteve sempre na linha da frente do combate político. Aliás, nesta última audição que tive oportunidade de fazer ao presidente das Indústrias de Defesa (Marco Capitão Ferreira) cheguei a ouvir por parte do PS que o PSD tinha uma atitude demagógica e irrealista como se fosse o PSD que tivesse inventado uma série de nomeações que merecem, no mínimo, algum escrutínio.

Enquanto deputado do PSD nesta área estou de consciência tranquila, embora tenho que dizer que me soube a pouco porque acho a Defesa nacional, até por causa da pandemia, ganhou uma centralidade no debate político e ficámos a meio de vários dossiers e isso deixa-me um amargo de boca sentir que poderíamos ter ido mais além.

Um deles é o Arsenal do Alfeite. Ouvimos precisamente o presidente da holding dizer no início deste ano que este ia ser um "ano de viragem" no Arsenal. Que informação é que têm a "viragem"?

Vemos a questão do Arsenal do Alfeite com muita preocupação. Estamos fartos de ver anúncios relacionados na área da Defesa com novos ciclos que depois nunca se concretizam. Chamámos os presidentes dos conselhos de administração, o ministro da Defesa nacional e o secretário de Estado do Tesouro e foi quase a ferros que retirámos qual era a estratégia do Governo para o Arsenal do Alfeite. Que não é nenhuma.

O secretário de Estado do Tesouro foi uma pessoa séria que nos veio dizer que conseguiu resolver momentaneamente o problema do Arsenal do Alfeite rapando, se me permite a expressão, 5 milhões de euros ao Orçamento do Estado para viabilizar pelo menos os salários e os subsídios de Natal e de férias. Capitalizou a empresa, mas não resolve o problema para a frente.

É inacreditável como é que um país com uma plataforma continental extraordinária quando se debate até a sua extensão, que não aposte no Arsenal do Alfeite! Não investindo no Arsenal do Alfeite além de miopia política é não perceber que a área da Defesa nacional e o mar estão absolutamente interligados.

Apesar deste tipo desencontros com a política do Governo, o PSD acabou por apoiar o Governo numa medida bastante controversa, que foi reforçou os poderes do Chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas. Em algum momento, principalmente quando se começaram a avolumar críticas vindas quer de ex-chefes quer de outros partidos e figuras públicas, sentiram que podia não ser a altura certa para dar esse apoio?

O PSD não apoiou o PS. O PSD foi consequente com o programa que já tinha há muito tempo sobre a reforma na estrutura superior das Forças Armadas e da Defesa nacional. Se concordamos com o timing em que o Governo o fez? Não.

O Governo conseguiu fazer uma reforma da estrutura superior das Forças Armadas em tempo recorde, mas não conseguiu ainda aprovar o quadro permanente de praças para o Exército e para a Força Aérea, por exemplo, que o PSD propôs.

Aliás, a única reforma que foi feita durante os seis anos da "geringonça", mesmo que seja só na estrutura superior das Forças Armadas, foi na área da Defesa nacional porque contou com o apoio do PSD. Mas com certeza que não somos imunes ao apelo de pessoas de quem gostamos e respeitamos, como o professor Cavaco Silva e o General Ramalho Eanes.

Tive a oportunidade de dizer nesse debate que a nossa prioridade e a nossa preocupação não está na estrutura superior das Forças Armadas. A nossa preocupação está cá em baixo, está no recrutamento e na retenção de efetivos. Estamos muito longe dos 32 mil efetivos que dizem os especialistas ser o ideal.

O timing é que foi errado e o debate não foi feito da forma conveniente. Se o PSD tivesse feito essa reforma estou certo, com as pessoas que conheço que tratam a área da Defesa nacional no PSD, tinha havido mais diálogo, tinha-se tentado um consenso maior.

Mas, enfim, não pudemos deixar de votar essa lei porque está inscrita nos programas do PSD há muitos anos. Isso não quer dizer que tivéssemos concordado com tudo e não tivéssemos alertado que o problema das Forças Armadas não está na sua estrutura superior, está cá em baixo.

Falando de estrutura superior, como é que vê o impasse da nomeação para Chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA) do vice-almirante Gouveia e Melo?

Infelizmente foi mais um processo gerido de forma errática pelo PS e também na área da Defesa nacional. Foi infeliz do Governo o timing em que decidiu colocar esse tema em cima da mesa. Este tipo de situações revelam falta de sentido de Estado e que estão completamente ao arrepio da forma como os militares costumam tratar estas questões de soberania.

Com certeza que a nossa consideração pelo Almirante Gouveia e Melo é tremenda. Mas este tipo de substituições deve ser feito no recato dos gabinetes em articulação com a Armada, com o Ministério da Defesa nacional, com o senhor Presidente da República, enfim.

Pode ser até o episódio, que mostra da melhor maneira a falta de uma boa gestão política feita pelo atual ministro João Cravinho que tem gerido alguns dossiers de uma forma muito errática. Esse foi só mais um.

O PSD se for Governo quer apaziguar o ambiente que está nas Forças Armadas?

O PSD se for Governo, da mesma maneira que respondi em relação ao Alfeite, tem como prioridades a questão da abertura de um quadro de praças no Exército e na Força Aérea e, naturalmente, a revisão da tabela salarial dos militares, aproximando-os das forças de segurança.

Não quero com isto penalizar as forças de segurança, acho é que os militares merecem porque têm esse reconhecimento. Havia uma relação, não vou dizer fria, diferente, ou não havia a perceção de uma relação boa entre os portugueses e os militares que foi completamente esbatida durante esta pandemia. Hoje há uma confiança nos militares que acho que deve ser consequente.

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