O homem no corredor – quem é o novo barão do PSD?

"A política é a atividade de navegar num mar sem margens ou fundo. Não há porto de abrigo nem chão onde ancorar. Não há ponto de partida nem destino traçado. A viagem passa por manter o navio à tona quando o mar é, ao mesmo tempo, nosso aliado e nosso adversário". A definição foi escrita por Michael J. Oakeshott, um dos maiores filósofos políticos do século XX, e é também a epígrafe adequada à história que se segue.

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Os automóveis não permitiam que o barulho das ondas chegasse ao estacionamento. Estava um nevoeiro alto e um vento seco no Guincho, mas suficiente para fazer com que alguma areia voasse da praia para a entrada do restaurante.

O barcelense, mais jovem do que aparentava, chegara primeiro, vindo da autoestrada. Não havia sinal do outro. Não quis telefonar logo, até por faltarem minutos para a hora agendada, e acendeu um cigarro. Na via rápida entre as dunas, um carro despistou-se, perdido na gravilha, mas o barcelense não se moveu, deixando-se estar ao longe, como se o desastre houvesse ocorrido numa tela de cinema, noutra realidade.

Mudou de posição, para o vento não lhe fumar o tabaco, e viu outro homem parado e também a fumar, como se partilhassem a espera. A princípio não lhe dera importância. A distância era comprida e a oftalmologia uma inimiga antiga. Mas havia, além do cabelo curto e da forma mais entroncada, qualquer coisa de familiar no vizinho fumador. Era ele, o velho conhecido que lhe telefonara. Deram um abraço, apesar de nenhum dos dois apreciar esse tipo de excessos físicos. Afinal, não haviam acordado ainda coisa alguma ou visto sequer as ementas.

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Na noite autárquica de 26 de setembro, alguém ganhou mais do que os demais. Não em números, não em votos, não em mediatismo. A sua notoriedade é residual e o seu nome quase anónimo, mas a sua vitória mudou os equilíbrios no seu partido, na sua região e na discussão sobre quem vai ser o próximo candidato a primeiro-ministro, em 2022. A sua terra é Barcelos. O seu partido é o PSD. O seu nome é Carlos Eduardo Reis.

Até há dois anos, esse seria um nome totalmente desconhecido para o eleitorado português. Hoje, para muitos, ainda o será. A erupção mediática do caso Tutti-Frutti pôs termo ao anonimato, mas a fama indesejada não o matou politicamente. Em 2019, foi eleito deputado. Em 2021, recuperou a Câmara Municipal de Barcelos, que o seu pai havia perdido em 2009 para o PS.

Volvidos dois anos, Carlos Eduardo Reis não é arguido ou acusado no processo que investiga adjudicações diretas de juntas de freguesia a dirigentes do PSD e do PS. Vendeu todas as empresas e desinteressou-se do setor privado. Tornou-se, entretanto, uma das figuras mais poderosas do maior partido da oposição. Quem tiver ambições no PSD está obrigado a sentar-se à mesa com ele. A questão é: como? Como é que um empresário de 37 anos, ex-JSD, que nunca havia exercido cargos públicos, foi de alegado membro de uma rede de tráfico de influências a deputado, vereador e novo barão do Partido Social Democrata?

A saga é longa - e humorada -, exigindo regressar a um passado algo longínquo.

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Quando as votações no último congresso do PSD terminaram, há quase dois anos, em Viana do Castelo, as listas mais votadas para o Conselho Nacional do partido foram quatro: uma de cada um dos três candidatos à liderança - Rio, Montenegro, Pinto Luz - e outra encabeçada por Carlos Eduardo Reis. Nesse congresso, Reis conquistaria exatamente o mesmo número de votos que um dos candidatos à liderança (102) e o dobro que a outra lista da sua geração. Nessas diretas, foi essencial para o sucesso de Rio contra Montenegro, coordenando um call-center e reencontrando operacionais com quem já trabalhara na campanha de Santana Lopes.

Olhando para os números que saíram dessa reunião magna do PSD, em 2020, Rio só tinha maioria no partido se contasse com os seus votos. E olhando para as restantes candidaturas dava-se por membros do seu grupo um pouco por todo o lado. Joana Barata Lopes, apoiante de Montenegro, fez questão de escrever nas redes sociais, quando deixou o parlamento, que o seu lugar era para Carlos Reis. Nestas autárquicas, também foi assim. Um candidato do seu grupo em cada distrito do país.

O último congresso, no entanto, não foi o primeiro em que Reis se impôs entre nomes mais célebres ou experientes. Em Espinho, no congresso da reeleição de Passos Coelho para o pós-troika, a sua lista ficou logo atrás do maior crítico do passismo - Pedro Duarte - com uma votação decente e nomes tão particulares quanto André Ventura (esse), Sofia Vala Rocha, Luís Newton ou Clara Marques Mendes. Ventura seguiu outro caminho, mais estridente, mas a porta de entrada do PSD foi-lhe aberta por alguém que preferia a discrição.

Entre 2015 e as autárquicas que levaram à saída de Passos, o destaque de Reis foi residual porque a relevância do Conselho Nacional - o parlamento interno do PSD, onde se aprovam candidaturas e se demitem direções - também o era. O congresso de 2017, em Lisboa, mudou radicalmente essa tradição, dando ao órgão uma importância que hoje perdura.

Rui Rio e Pedro Santana Lopes optarem por apresentar uma lista conjunta após o confronto pela liderança fortaleceu o grupo de Carlos Reis, assim eleito o terceiro conselheiro nacional do partido. Quando Santana sai para fundar o Aliança, a unanimidade fabricada cai e Rio fica sem maioria, isto é, obrigado a negociar com o partido. Reis, que apoiara Santana, não se fez rogado. Viu a oportunidade e estendeu-lhe a mão sempre que pôde: quando Rio substitui a liderança parlamentar, dispensando Hugo Soares, Reis apoiou publicamente a escolha de Fernando Negrão; quando Rio é forçado a mudar de secretário-geral, após o escândalo académico de Feliciano Barreiras Duarte, o grupo de Reis vota favoravelmente o nome de José Silvano para lhe suceder; quando se alteraram regulamentos ou aprovaram listas eleitorais, Reis esteve lá para ajudar os rioístas; quando Luís Montenegro provocou a apresentação de uma moção em Conselho Nacional, foram os votos de Reis que salvaram Rui Rio da tentativa de golpe. Nestas autárquicas, foi a sua estratégia em Barcelos que brindou o PSD com a reconquista do município, doze anos depois: escolheu o cabeça-de-lista, negociou a coligação e foi o seu mandatário.

Factualmente, é indesmentível: as dificuldades ao longo da liderança de Rio foram sempre superadas com a influência deste homem, de que praticamente ninguém, fora do PSD, ouviu falar. Primeiro, graças ao peso singular que o Conselho Nacional ganhou na vida do partido nos últimos quatro anos. Em segundo, devido ao período de instabilidade interna que a transição do passismo para o rioísmo representou - e que nunca cessou de vez. Em terceiro, porque um líder frágil suscita, quase sempre, um aparelho forte. E, finalmente, por duas animosidades que os dois partilham: o passismo e o Ministério Público.

O líder do PSD não ignora nem as demonstrações de lealdade nem os pontos em comum. Em 2019, indica Reis para deputado. Em 2021, passa por cima das estruturas e apoia o seu projeto autárquico. Em ambos os casos, o barcelense é eleito. No Conselho Nacional em que Rangel surgiu contra Rio, há semanas, a votação para o adiamento da disputa foi feita de braço no ar. Reis foi o primeiro, dos que restaram, a levantar-se a favor do líder.

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Dentro do PSD, seria falso considerá-lo um rosto novo. Carlos Eduardo Reis é filho de um dos mais proeminentes autarcas do barrosismo. O seu pai, Fernando Reis, foi presidente da Câmara de Barcelos, líder da poderosa distrital de Braga, deputado europeu e coordenador autárquico de José Manuel Durão Barroso.

Carlos Eduardo, batizado em tributo a um dos Maias de Eça, foi educado nos corredores do poder. Andou de calções pela sede nacional do partido, na São Caetano à Lapa, passou férias na Moledo dos políticos da década de "90, cresceu ao som de campanhas eleitorais ao ponto de não conseguir guiar um carro sem uma bandeira do PSD no porta-bagagens. Conheceu Relvas antes de este ser "o Miguel Relvas" e Marcelo Rebelo de Sousa quando este já era "o Marcelo".

Fez caminho no associativismo académico, chegando a presidente da associação de estudantes da Católica do Porto, onde concluiu a licenciatura em Direito com José Azeredo Lopes a diretor e Paulo Rangel a professor. Na JSD, não hesitou em comprar guerras contra o status-quo, o que o levou a fazer um caminho sempre por fora e a abandonar a "jota" precocemente, antes de atingir a idade máxima (os 30 anos regulamentares).

O referido distanciamento ao tempo do passismo não é tanto ideológico, mas mais pessoal. A direção de Passos vetou-o em 2011, recusando ter familiares nas listas de deputados e preferindo o seu irmão mais velho (Nuno Reis), quando antes (com os Barreiras Duarte) tal não sucedera. Talvez mais profundamente, a mágoa autárquica de ter visto o PSD perder drasticamente as eleições locais de 2013 e 2017 - pecado, para o filho de um autarca, imperdoável - fez dele um crítico da liderança de Passos Coelho.

A estrada de enfant-terrible a barão, no entanto, foi sendo feita.

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Sentei-me com ele no Guincho, onde nos havíamos conhecido pela primeira vez. Enviei-lhe uma mensagem a dizer "vou escrever a sua história" e o convite para jantar apareceu de pronto. Eu cheguei atrasado; ele chegou de gabardine aos ombros, como se fosse passar o fim-de-semana em caçadas. Perguntou-me pelo CDS, contou-me que a mulher fora militante dos centristas, elogiou dois senadores democratas-cristãos e escolheu o vinho. Não me perguntou uma única vez o que - ou onde - iria escrever. Passara um inferno breve, mas quente. O turbilhão judicial envelhecera-o e acinzentara-lhe as sobrancelhas. Deixara, para o bem e para o mal, de estar na sombra do holofote.

Politicamente, Carlos Eduardo Reis vê-se confrontado com um cenário novo. Alguém que correu sempre por fora está agora, necessariamente, a andar por dentro. Alguém que sempre escolheu quando aparecia está agora no palco político por excelência - a Assembleia ‒, onde é vice-presidente da comissão parlamentar de Defesa. O processo em que se viu envolvido, nas suas várias dimensões, terá sempre a imprevisibilidade expectável de algo por terminar. Ao ganhar a Câmara de Barcelos, ancestral bastião do PSD, com um acordo entre o seu partido e um movimento de ex-socialistas, corporizou no terreno o que Rio sempre apregoou e nunca materializou: ganhar ao centro. A tensão com a distrital de Braga, que considerou a candidatura "ilegal", não sossegou com a vitória. Nem o apoio do pai teve.

Ao jantar, todavia, não discutimos nada disso.

No fim da refeição, uma garrafa de whisky velho chegou à mesa e o barcelense brincou: "Quando estivemos aqui pela primeira vez, você não conseguia beber isso sem gelo". Eu ri-me e pedi gelo ao empregado da sala. O restaurante fora alvo de remodelações e devemos ter ficado os dois a pensar nisso porque ninguém falou durante uns minutos. Ele quebrou o silêncio novamente. "Então e a história, já sabe que título lhe vai dar ou não?". Respondi-lhe. "O homem no corredor". Desta vez, riu-se ele e disse: "Por acaso, tenho de ir ali fazer uma chamada". E foi, com uma conhecida sigla a reluzir no ecrã do telefone, ser o que é. O homem no corredor.

Colunista

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