Nasceu um novo António Costa. O que está disponível para "falar com todos"

O líder do PS deixou de falar em "maioria", muito menos "absoluta" - agora o que pede é uma "grande vitória". Costa já admite de novo diálogos "com todos" (menos o Chega). João Oliveira, do PCP, recordou o óbvio: esta conversa "não é muito diferente" da tida na fundação da geringonça

O António Costa que no frente a frente com Rui Rio disse, mais taxativamente do que nunca, que "a geringonça não é possível", excluindo assim a possibilidade de entendimentos permanentes à esquerda, deu esta segunda-feira lugar, numa entrevista à Rádio Renascença, ao António Costa disponível para, a seguir às eleições, "falar com todos" (menos o Chega).

"Nunca recusei qualquer conversa com o Bloco de Esquerda, só tenho mesmo pena que o BE tivesse impedido que as conversas sobre o Orçamento do Estado para 2022 tivessem continuado para além da generalidade e tivessem prosseguido na fase da especialidade", afirmou. Acrescentando: "Vamos ter de falar com o Bloco e com todos os partidos com assento parlamentar, à exceção do Chega, com quem não há muito a falar", sendo o objetivo "garantir uma boa solução de governação para o futuro."

"Respeitarei naturalmente a escolha que os portugueses fizerem e em virtude disso verei qual a melhor solução para assegurar uma maior estabilidade."

Vendo o chão a fugir-lhe debaixo dos pés, com sondagens já a dar o PSD à frente, o líder do PS já não fala tanto na necessidade de uma "maioria" para o seu partido - e muito menos usa a expressão "maioria absoluta". Esta segunda-feira, ao final da tarde, em Bragança, fez apelos à mobilização mas definindo um outro objetivo: "uma grande vitória".

Aliás, já nem diz que se demitirá da liderança do PS caso o partido não vença as eleições. Na entrevista à Renascença, afirmou: "Respeitarei naturalmente a escolha que os portugueses fizerem e em virtude disso verei qual a melhor solução para assegurar uma maior estabilidade." Ou, dito de outra forma: "Respeitarei sempre a decisão dos portugueses e na noite de dia 30 saberei interpretar os resultados eleitorais [e] encontrar para o país a melhor solução de Governo."

"Antes de 4 de outubro de 2015, o que íamos ouvindo não é muito diferente do que ouvimos agora e povo português decidiu com uma maioria de esquerda."

A "conversa" à esquerda começa assim a ficar parecida com a de 2015 - quando o PS, mesmo não tendo vencido, formou Governo, assente na maioria de esquerda que então formava com a CDU e com o Bloco de Esquerda.

E ontem o cabeça de cartaz da campanha do PCP, João Oliveira - com Jerónimo ainda recuperando de uma cirurgia ao coração e João Ferreira em casa com covid - falou precisamente dos cenários fundadores da geringonça, há seis anos.

"Antes de 4 de outubro de 2015, o que íamos ouvindo não é muito diferente do que ouvimos agora e povo português decidiu com uma maioria de esquerda", afirmou Oliveira aos jornalistas, à margem de uma ação de campanha em Beja. O PCP - disse ainda - não tem "nenhuma ilusão de autossuficiência" e, por isso, pretende "contar com todas as forças políticas e sociais" para construir as "soluções" para o país.

E, face aos resultados, depois o Presidente da República terá "de fazer também um balanço daquilo que foi o exercício das suas competências e das suas responsabilidades, considerando a resposta que os portugueses derem". "Há uma necessidade, obrigatoriamente, de respeitar o resultado que decorre da expressão do voto e há uma obrigação de respeitar a correlação de forças que existam na Assembleia da República e as soluções que dali decorram."

Já Catarina Martins tirou a conclusão óbvia: "O PS deixou de falar de maioria absoluta e fala de necessidade de entendimentos, ainda bem". O que importa, à esquerda, é "construir soluções" e "ter a capacidade de fazer as pontes para criar soluções de maioria que afastam a direita do Governo."

Faltam quatro dias para a campanha acabar e seis para as eleições e o espírito da geringonça voltou.

joao.p.henriques@dn.pt

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