Condenação por discriminação racial. Ventura diz que decisão do Supremo é "injusta" mas aceita-a

Líder do Chega continua "a defender que não utilizou uma linguagem racista".

O presidente do Chega, André Ventura, considerou esta segunda-feira "injusta" a confirmação pelo Supremo Tribunal de Justiça da sentença que condenou o deputado e o partido por "ofensas ao direito à honra" de uma família do Bairro Jamaica (Seixal).

"A nosso ver é uma decisão injusta. [O Supremo Tribunal de Justiça] não admite o recurso, embora o tenha feito por pressupostos formais e não por pressupostos materiais", disse André Ventura, em declarações à CNN Portugal.

O deputado do Chega adiantou que aceita a "decisão da justiça portuguesa", defendendo não ter utilizado linguagem racista durante o debate televisivo para as eleições presidências, com Marcelo Rebelo de Sousa.

"[...] Continuo a defender que não utilizei uma linguagem racista com o Bairro da Jamaica, com as suas famílias, e continuo a entender que em política esta linguagem não pode estar proibida. [...] Eu aceito a decisão da justiça, mas não vou mudar a minha forma de ver, nem vou mudar a minha linguagem no espaço público", afirmou.

André Ventura disse ainda que "manteria as mesmas declarações", reiterando não ter utilizado uma linguagem excessiva.

Recorde-se que o líder do Chega exibiu, no debate televisivo das presidenciais com Marcelo Rebelo de Sousa, a 6 de janeiro, uma fotografia de sete membros da família Coxi, um dos quais uma criança de três anos, com o Presidente da República, aquando de uma visita do chefe de Estado ao bairro da Jamaica, apelidando aquelas sete pessoas, que não identificou, de "bandidos" e "bandidagem".

Disse Ventura: "Esta fotografia mostra tudo o que a minha Direita não é. Nesta fotografia, o candidato Marcelo Rebelo de Sousa juntou-se com bandidos, um deles é um bandido verdadeiramente. (...) Porque esta fotografia que está aqui, (...) não foi tirada depois na esquadra de polícia, foi tirada só, entre aspas e vão-me desculpar a linguagem, à bandidagem. E, portanto, talvez seja aqui uma diferença entre nós: eu não tenho medo de ser politicamente incorreto, de lhes chamar os nomes que têm de ser chamados e dizer o que tem de ser dito. (...). Eu nunca vou ser presidente dos traficantes de droga, nunca vou ser presidente dos pedófilos, nunca vou ser presidente dos que vivem à conta do Estado, com esquemas de sobrevivência paralelos, enquanto os portugueses de bem pagam os seus impostos, todos os dias a levantar-se de manhã à tarde para os pagar e o que fez aqui não tem nenhuma justificação... (...) Muitos destes indivíduos vieram para Portugal para beneficiar única e exclusivamente daquilo que é o Estado Social."

Na manhã do dia seguinte, no programa de Manuel Luís Goucha, na TVI, o líder do Chega voltaria a designar depreciativamente aquelas sete pessoas, usando de novo a palavra "bandidagem". A imagem da família com Marcelo seria também usada pelo partido num tuite de 22 de janeiro, antevéspera das eleições, como contraponto a uma fotografia de Ventura - este frente à Assembleia da República, com três homens brancos, um dos quais com uma tshirt do Movimento Zero (que se apresenta como um movimento de polícias anónimos e surgiu na sequência da condenação de agentes da PSP por agressão, sequestro e insultos a jovens negros do bairro da Cova da Moura). A legenda é: "Eu prefiro os portugueses de bem."

O Supremo Tribunal de Justiça confirmou esta segunda-feira a condenação de André Ventura e do Chega no caso sobre "ofensas ao direito à honra" de uma família do Bairro Jamaica (Seixal), ao negar o recurso do deputado e do partido.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG