Marcelo Rebelo de Sousa termina o trajeto como Presidente da República e, como é natural em política, ouviu críticas de vários quadrantes, mas sai praticamente incólume de grandes ataques vindos do centro, centro-esquerda e social-democracia. Significativo após dois mandatos, com reflexo claro de que a estratégia dos candidatos mais ao centro interpretou que as vitórias eleitorais categóricas ainda fazem do professor de Direito uma figura popular e que críticas mais acesas poderiam ter mais ricochete do que benefício. Escapou a ataque desses mesmos candidatos em relação ao envio dos documentos relativos à Lei da Imigração e Nacionalidade para o Tribunal Constitucional, por exemplo. Em setembro, Marques Mendes prometia não ser um candidato “de continuidade de mandato”, diferenciando-se por se considerar “mais contido no uso da palavra”, na altura criticando afirmações de que Trump se comportara como “ativo soviético”. “Sucessor não, amigo sim”, respondeu em novembro. Quanto ao Conselho de Estado marcado em plena campanha, defendeu a atitude do Presidente da República. Desde 2024, com apontamentos à forma de conduzir os bloqueios no Orçamento do Estado e respetiva convocação de eleições, que Marques Mendes não é vocal em relação ao companheiro de partido. Tem referido não ser o “candidato do Governo”, contudo guardou sempre uma certa reserva na hora de, enquanto candidato, comentar a ação do social-democrata, prometendo mesmo ser “equidistante” e não interferir tanto no Governo como os rivais prometem fazer.Depois de uma possível polémica sobre a tentativa de Marcelo Rebelo de Sousa condicionar a sua candidatura, Gouveia e Melo - que desmentiu que tenha afirmado tal coisa - não elegeu o presidente cessante como modelo, mas foi sempre cordial. “O atual Presidente da República fez muito por Portugal após termos saído da ‘troika’, altura em que os afetos eram muito necessários”, declarou o ex-chefe do Estado-Maior da Armada, na passada quinta-feira, vincando que os “desafios são completamente diferentes” e que Portugal precisa de um Presidente “exigente com a governação”. Só foi ao ataque após a consideração de Marcelo em relação a Trump. “O Presidente não deve fazer comentários pessoais ou de índole pessoal, porque representa o Estado português, e nós somos um Estado aliado do Estado norte-americano.”António José Seguro foi mais crítico na Saúde. “Fiquei admiradíssimo quando o senhor Presidente da República anunciou, ao fim de nove anos e meio de mandato, que iria propor ou que propôs um pacto para a Saúde. E depois não vi nenhuma iniciativa. Não vou esperar nove anos e meio”, atacou em novembro, repetindo que é preciso “firmeza e exigência”, sugerindo na passada semana, a propósito das falhas no socorro do INEM, que o chefe de Estado chame a Belém Luís Montenegro para obter explicações face às três mortes que se registaram. Na apresentação de candidatura, em junho, falando sobre os poderes do Presidente, Seguro afirmou que “o chumbo do Orçamento do Estado não implica necessariamente a dissolução do Parlamento”, uma vez que o “país não pode andar de eleições em eleições”. Como tal, sugeriu que, em vez de ter dissolvido a Assembleia da República por três vezes, duas delas no espaço de ano e meio, Marcelo podia ter feito diferente. Desde aí, poucas vezes retomou ao tema.Nos quadrantes afastados do centro as críticas são mais vastas. João Cotrim de Figueiredo rejeitou a ideia de que Marcelo deveria “pressionar o Governo”, privilegiando que o Presidente seja “discreto” e que evite ser “uma espécie de governo sombra ou um contrapoder”. A 28 de dezembro, vincou que é preciso “fazer as perguntas certas e ser um chato de morte”. No último mês, avaliou mais vezes o segundo mandato de Marcelo. “Esta decisão [convocar o Conselho de Estado] não é congruente com o facto de não ter feito o discurso de Ano Novo [Marcelo optou por um discurso mais contido do que é hábito, alegando o aproximar da campanha]. Tem sido incoerente e atabalhoado este fim de mandato”, sublinhou. Já André Ventura atacou em vários flancos. Considerou “inoportuno o Conselho de Estado”, criticou o “silêncio” de Marcelo Rebelo de Sousa quanto às incidências na emergência médica e propôs ser um Presidente “que exige e faz escrutínio ao Governo”, avançando mesmo que pediria demissões de ministros, como é o caso na Saúde, embora não se preveja esse mesmo ato na Constituição. Apesar de distribuir abraços nas arruadas, demarca-se do perfil. “Há 10 anos havia algumas pessoas que acharam que pela proximidade Marcelo podia ser diferente. Não foi, hoje sabemos que não foi”, disse em Samora Correia, na passada quarta-feira. Atacou também os envios da Imigração e Nacionalidade para o Tribunal Constitucional. “Vai haver uma lei de estrangeiros, quer o presidente goste ou não goste”, pronunciou em diversas ocasiões. Em novembro, atacou a postura de Estado, afirmando que Marcelo ficou “calado e aos abraços” em Luanda, após comentários de João Lourenço sobre a “escravatura feita por Portugal” durante cinco séculos.Na sexta-feira, Catarina Martins disse que Marcelo devia “pedir a demissão da ministra da Saúde, tendo há duas semanas assinalado o “bar aberto” na promulgação de diplomas quanto a propostas para a Segurança Social, apontando “a falta de palavra para problemas diários, como o custo de vida.” A ex-coordenadora do Bloco de Esquerda posicionou-se contra uma eventual promulgação da Lei da Nacionalidade, independentemente do que derivasse do Tribunal Constitucional. Foi a mais acérrima a dizer que Marcelo “descredibilizou as instituições”, achando que tem papel importante no “crescimento do extrema-direita” e garantindo que existiam outras “soluções” após o fim do Governo de António Costa.Jorge Pinto corroborou. “O que vai ficar do legado [de Marcelo Rebelo de Sousa] são as múltiplas dissoluções da Assembleia da República e a ascensão da extrema-direita, que aconteceu fruto dessas dissoluções e eleições antecipadas”, explicou em novembro à Antena 1. O candidato apoiado pelo Livre criticou os “dois pesos e duas medidas” quando Marcelo foi vocal “sobre ministros de outros governos”, abandonando, depois, essa mesma bitola. Defendendo maior intervenção do Estado no mercado imobiliário, António Filipe considerou que Marcelo foi “pouco interventivo na habitação”. Por outro lado, pediu, logo em julho, vigilância do Presidente à lei laboral e aplaudiu as confirmações de “inconstitucionalidade.” Falou ainda da “necessidade de cumprir a Constituição”, deixando, subentendido, que há “desigualdades por resolver.” Criticou a repetição da ideia de “consenso” e da “estabilidade governativa.”Até no Parlamento, em 2021, disse ser Marcelo “o maior foco de instabilidade política.” Certo é que nenhum candidato elegeu Marcelo Rebelo de Sousa como o Presidente a seguir. Seja por motivos táticos ou não. .Ramalho Eanes, há dez anos, valorizou a candidatura de Sampaio da Nóvoa. Em 2025, a esposa, Manuela Eanes, demonstrou apoio a Marques Mendes. O social-democrata, apesar do apreço pelo antigo Presidente, não foi exaustivo sobre o Chefe de Estado em que se revê. Gouveia e Melo, apesar de militar como Eanes, prefere Soares. Ainda assim, disse que o general “foi importantíssimo numa fase da democracia”, demarcando-se de Spínola e Costa Gomes. Ventura foi claro: “Ramalho Eanes foi quem melhor representou, com autoridade, com sobriedade, o modelo de Presidente.”.“O Presidente de que mais gostei e no qual me revejo, até como ser humano, é Mário Soares”, disse à Lusa Gouveia e Melo. “Tenho admiração. Jorge Sampaio foi uma sequência”, elegeu. No debate com André Ventura, Gouveia e Melo rejeitou ter elogiado Soares. Ventura foi o mais crítico. “Só se estivesse louco é que Soares era o meu modelo de Presidente”, atirou. Marques Mendes considerou Soares “decisivo para a integração europeia”. Nas ações de rua, o slogan “Soares é fixe” tem sido adaptado a António José Seguro, também ele antigo secretário-geral do PS. Cavaco Silva foi, acima de tudo, elogiado como primeiro-ministro. “Foi aquele que modernizou, desenvolveu, reformou o país e mais fez aproximar Portugal do nível de vida médio da UE”, elegeu Marques Mendes. “Lembro-me dos seus consulados, quer como primeiro-ministro, quer como Presidente da República, mas sobretudo como primeiro-ministro, e da forte carga reformista que tiveram os seus Governos”, elogiou Cotrim de Figueiredo, acreditando que é na candidatura do liberal que “mais está representado”, uma provocação a Marques Mendes.Sem ser taxativo em elogios a outro Presidente, António Filipe destacou que Seguro “não era Sampaio”, o que, em crítica ao rival, pressupõe elogio ao último Presidente socialista. No debate com Gouveia e Melo, Catarina Martins afirmou que “Jorge Sampaio é um grande caso na coesão” e, antes, já o tinha apontado como “figura central da democracia.” Jorge Pinto disse que Sampaio “foi o melhor Presidente em democracia” e que teve “coragem de dizer que os portugueses não iam participar” na invasão ao Iraque. Seguro também falou sobre o antigo Presidente: “Seguirei aquilo que Sampaio fez, defenderei a Constituição”. .Cotrim de Figueiredo considerou “atabalhoado e incoerente o fim do segundo mandato”, aumentando o tom de crítica recente. André Ventura extrapola as próprias competências e diz que Presidente devia pedir demissões de ministros. Atacou os envios da Imigração e Nacionalidade ao Constitucional, que os rivais elogiaram.Direita ataca Marcelo.Jorge Pinto, Catarina Martins e António Filipe querem ter estilo diferente e posicionam Marcelo como uma das causas para o crescimento da extrema-direita, acusando-o de ter descredibilizado instituições e não ter procurado outras alternativas que não eleições antecipadas.Esquerda culpa Marcelo por eleições antecipadas.Marques Mendes classificou-se “mais contido”, Gouveia e Melo valorizou “os afetos do período de pandemia”, mas pediu mais “exigência”. Seguro centrou insatisfação na Saúde e apontou dissoluções do Parlamento, concordando nesse capítulo com a esquerda.Centrão comedido na crítica.Marcelo Rebelo de Sousa espera promulgar “brevemente” diplomas do SNS devolvidos ao Governo ."Marcelo Rebelo de Sousa descredibilizou as instituições".Presidenciais. António José Seguro acaba ao bailarico sem ajustar o seu chapéu às cedências.Cerca de 218 mil eleitores inscreveram-se no voto antecipado em mobilidade nas Presidenciais