Segunda volta disputa-se a 8 de fevereiro
Segunda volta disputa-se a 8 de fevereiroLeonardo Negrão

Entre "regenerar a democracia" e "redefinir a direita". O choque de leituras sobre a segunda volta

DN ouviu Ana Gomes, ex-candidata presidencial e uma figura do PS, e Jaime Nogueira Pinto, politólogo e uma figura da direita, sobre o que está em jogo na segunda volta das Presidenciais, entre António José Seguro e André Ventura
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A antiga eurodeputada e ex-candidata presidencial Ana Gomes considera que a segunda volta das eleições representa uma decisão crucial para o futuro do país e deixa um alerta: André Ventura deverá moderar a forma do discurso, mas o conteúdo pode tornar-se mais duro do que nunca, refletindo, na sua perspetiva, um confronto direto entre democracia e autoritarismo. Já Jaime Nogueira Pinto sustenta que o “Centrão” e os seus eleitores estão a ser forçados a uma definição clara e admite um cenário em que ambos os candidatos podem sair a ganhar: André Ventura como líder incontestável da direita e António José Seguro como Presidente da República.

A escolha é entre "democracia e ditadura”, defende Ana Gomes

 Ana Gomes, socialista, antiga deputada ao Parlamento Europeu e ex-candidata à Presidência da República, considera que o que está verdadeiramente em jogo nesta segunda volta das eleições é a regeneração da democracia portuguesa. Para a antiga eurodeputada, a democracia não se salvará se continuar no mesmo caminho, pois, “tal como está, frustrou os desejos e as expectativas dos cidadãos”, abrindo espaço ao “canto de sereia” de André Ventura. Na sua perspetiva, é indispensável regenerar os fundamentos da democracia, começando pelo reforço da classe média, que quer ver de novo forte, e pelo combate às desigualdades, “acentuadas por políticas neoliberais seguidas tanto por governos de direita como de esquerda”. 

 Questionada sobre se esta segunda volta deve ser encarada como um referendo a André Ventura ou como uma escolha positiva por António José Seguro, Ana Gomes rejeita essa leitura. Afirma que não se trata nem de um referendo ao líder do Chega nem apenas de uma escolha pessoal por Seguro, mas sim de uma decisão mais profunda: reforçar e salvar a democracia. Para a socialista, esta é uma escolha que coloca em jogo liberdade e justiça, “valores essenciais do regime democrático.” 

 Nesse sentido, defende que a direita “com consciência da importância da democracia, aquela que não quer ver o país resvalar para uma ditadura, não pode apoiar um populista nem um falso propagandista”. Essa direita, diz, “não quer seguramente regressar à asfixia, à miséria e à falta de liberdade que caracterizaram a ditadura, pelo que deveria posicionar-se claramente em defesa do regime democrático”. 

Ana Gomes foi candidata a Belém em 2021, mas sem apoio do PS.
Ana Gomes foi candidata a Belém em 2021, mas sem apoio do PS.Gerardo Santos / Global Imagens

 Quanto às consequências práticas da vitória de um ou de outro candidato no funcionamento das instituições, Ana Gomes, numa referência crítica a Marcelo Rebelo de Sousa, sublinha que o país “não precisa de génios, mas de pessoas sérias e decentes, capazes de exercer os cargos com sentido de responsabilidade e respeito pelas instituições democráticas”. 

 Relativamente à polarização entre socialismo e populismo autocrático, Ana Gomes questiona a própria definição de socialismo em Portugal. Na sua opinião, “nunca houve verdadeiramente socialismo, mas apenas um Partido Socialista que, de resto, tal como governos de direita, aplicou em alguns casos políticas neoliberais”. Considera natural que André Ventura tente impor essa polarização como estratégia política, mas acredita que António José Seguro irá centrar o debate no que realmente está em causa: “a escolha entre democracia e ditadura”. 

 Sobre o eleitorado decisivo nesta segunda volta, Ana Gomes afirma que todos os eleitores são determinantes. Manifesta a esperança de que os democratas do PSD e de outros partidos à direita não sigam nem acompanhem a falta de coragem e de liderança que, no seu entender, Luís Montenegro e João Cotrim de Figueiredo demonstraram ao assumirem a neutralidade nas respetivas reações aos resultados da noite eleitoral de domingo. Para Ana Gomes, essa atitude revela uma estratégia de curto prazo, “que acaba por dar espaço e força ao Chega, partido que acabará por canibalizar a direita tradicional”. 

 No que diz respeito ao tom da campanha, Ana Gomes acredita que André Ventura já iniciou um processo de adaptação do discurso. Classifica-o como um “boneco de borracha”, que começou com cartazes agressivos e tentou depois assumir uma postura mais institucional. Considera que Ventura sabe que não pode extremar a forma do discurso, embora alerte que, no conteúdo, “o debate poderá tornar-se mais duro do que nunca”. 

 Por fim, independentemente de quem vença as eleições, Ana Gomes considera inevitável que algo tenha de mudar no dia seguinte. Defende que o país precisa de uma “regeneração democrática profunda” e afirma acreditar que António José Seguro “é a pessoa certa” para ajudar Portugal a fazer esse caminho.

Jaime Nogueira Pinto: “O confronto não é entre democratas e anti-democratas" 

Para o politólogo e escritor Jaime Nogueira Pinto, o que está em jogo nesta segunda volta é uma clara bipolarização entre a direita nacional conservadora e popular e aquilo a que chama “o resto”: a direita consentida, a “direita da esquerda”, o “Centrão”, o centro-esquerda e a esquerda radical, que considera hoje residual, valendo menos de 4%. Na sua leitura, a direita não-socialista está com André Ventura e este poderá ainda atrair eleitores dos candidatos que ficaram pelo caminho na primeira volta.

 Jaime Nogueira Pinto considera que António José Seguro é o candidato do “Centrão” preferido por parte da direita, até porque é, nas suas palavras, “um espécimen raro, numa classe política onde um político honesto tende a aparecer, aos olhos do povo, como um bem escasso”. Destaca ainda a composição “curiosa” do eleitorado de Seguro, que inclui “socialistas moderados e centristas, mas também, a contragosto, a esquerda do PS, mobilizada pelo ‘anti-fascismo’ e pelo argumento de ‘salvar a democracia’”, bem como todos os eleitores afetados pelo que designa por SDAV - Síndrome Disfuncional Anti-Ventura -, “fenómeno que, como se viu na noite eleitoral, pode gerar reações descontroladas até nos comentadores mais moderados”.

Em síntese, para o politólogo, "porque António José Seguro pertence a uma esquerda moderada e é pessoalmente respeitável, desta vez será fácil contar com a direita claramente anti-socialista mas mais difícil contar com a direita que não se identifica com a direita nacional conservadora ou que ainda não consegue votar em Ventura".

Jaime Nogueira Pinto rejeita a ideia de que a polarização em curso seja entre socialismo e populismo autoritário, ou entre democráticos e anti-democráticos, como muitos defendem. Recorda que as autocracias “são poderes não democráticos por herança, sem limites e derivados da força ditatorial”, enquanto André Ventura é, segundo afirma, “essencialmente, um fenómeno democrático que vive em democracia, da democracia e do voto popular”. Sublinha ainda o crescimento rapidíssimo do Chega, que em seis anos multiplicou por vinte o seu eleitorado, acrescentando que António José Seguro “também não é tão socialista como isso”.

Jaime Nogueira Pinto
Jaime Nogueira Pinto

Na sua perspetiva, estes candidatos “não têm grande necessidade, nem interesse, em radicalizar excessivamente” a campanha. Na opinião do politólogo, André Ventura poderá “aproveitar a sua visão de direita para denunciar o estado de um país governado pela esquerda há meio século, com exceção dos períodos do primeiro cavaquismo e do governo de Passos Coelho”. Já António José Seguro poderá “deixar a radicalização para os anti-fascistas e surgir como uma figura conciliadora”.

Nogueira Pinto sublinha ainda a importância da abstenção, que considera potencialmente decisiva, observando que, “de certo modo, foi essa a recomendação implícita deixada por figuras e forças políticas que ficaram de fora, como Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo e o PSD”.

Em conclusão, Jaime Nogueira Pinto afirma que o “Centrão” e os seus eleitores estão a ser “forçados a uma definição clara”. E admite um cenário em que ambos os candidatos podem sair a ganhar: “André Ventura como líder incontestável da direita e António José Seguro como Presidente da República”.

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