O regresso a uma segunda volta em Presidenciais não teve partidos de direita a tomarem posições públicas sobre o caminho a seguir. Entre António José Seguro e André Ventura, Luís Montenegro não se posicionou, falando mesmo de um “campo político não representado”, Marques Mendes disse que tinha “uma preferência pessoal”, que se pressupõe ser Seguro dada a amizade e visão institucional da Presidência que partilham, mas não desdisse o que o presidente do PSD pensa da eleição. Cotrim de Figueiredo categorizou uma “escolha péssima” para a segunda volta, já depois de, há sete dias, ter dito que não descartava apoiar Ventura, declaração que depois se arrependeu de fazer. Nesta equação em que a direita não se separa do presidente do Chega, apesar de lhe apontarem sempre críticas ao “extremismo”, começaram a surgir nomes que se posicionam ao lado de Seguro. Dos sociais-democratas, os maiores nomes até ao fecho desta edição eram António Capucho e Miguel Poiares Maduro, ex-ministros, o ex-secretário de Estado José Eduardo Martins, Duarte Pacheco e Pedro Duarte, este último presidente da Câmara do Porto. O partido tem muitas das figuras a pensar de modo díspar e é natural que surjam mais apoios a Seguro, mas também se pressupõe que exista uma reunião da Comissão Política para afinar a melhor estratégia, até porque o Chega tem sido parceiro de governação no Parlamento, excetuando o momento do Orçamento do Estado, mas também nas autarquias, onde o Chega tem viabilizado propostas sociais-democratas, com Lisboa a ser o caso mais flagrante.“Do ponto de vista do PSD, também é mais importante e será melhor um presidente como António José Seguro do que como André Ventura. O principal objetivo de André Ventura é substituir o PSD na governação, não vejo que o PSD tenha interesse em alimentar essa aspiração”, considerou Poiares Maduro, exortando Montenegro a privilegiar o centro e Seguro, uma leitura que é partilhada por diversos quadrantes dentro do partido e que gera fracionamento.Ainda assim, sem ministros a público ou outras figuras de grande relevo na máquina social-democrata, espera-se nova declaração de Montenegro para breve. Certo está que o próprio primeiro-ministro está ciente de que, pronunciando-se favorável a Seguro, estaria a permitir que Ventura pudesse colar os sociais-democratas ao socialismo que diz querer “combater.” Pelo que o DN pôde apurar, há alguma surpresa por Montenegro não se ter posicionado claramente contra Ventura, mesmo que não entregasse, diretamente, o voto aos socialistas.A declaração de Cotrim deixou a presidente da IL, Mariana Leitão, entre a espada e a parede. Ora entre seguir o que o candidato que deu a maior votação ao partido, ora em distanciar-se do seu pensamento político e do próprio Chega. “Tenho de ouvir os órgãos do partido”, prometeu. Mário Amorim Lopes, líder da bancada parlamentar, salientou ao DN a “liberdade interna” e garantiu o voto em Seguro, não se querendo pronunciar sobre a decisão coletiva. Vincou que Ventura pode fazer “ataque ao Estado de Direito”. Rodrigo Saraiva, outro deputado e pessoa influente na definição estratégica da IL, diz privilegiar Seguro por querer “manter as coisas como estão” em detrimento de quem “quer tudo destruir.O mandatário de Cotrim, José Manuel Júdice, que descartara, de início, apoiar Marques Mendes, sempre deixou claro que, se não estivesse o liberal na corrida, seria Seguro que iria apoiar. Aliás, chegou mesmo a acompanhar o lançamento da obra biográfica do socialista, ao lado de Manuel Alegre, por exemplo.No CDS, haverá reunião da Comissão Executiva esta quarta-feira, depois de a Juventude Popular ter declarado não estar com qualquer dos candidatos. Salientando a “campanha digna”. o secretário-geral centrista, Pedro Morais Soares remeteu a decisão para o futuro. O antigo líder do partido, Francisco Rodrigues dos Santos, que acompanhava Gouveia e Melo, é o primeiro elemento de vulto do CDS-PP a associar-se a Seguro.Gouveia e Melo não se pronunciou ainda, mas haverá a tendência de uma verbalização importante em prol de Seguro, até porque alguns ex-ministros socialistas tinham preferido apoiar o almirante inicialmente.Seguro valoriza apoiosAntónio José Seguro, depois de vincar durante as últimas duas semanas, o apelo ao voto da social-democracia, disse ver nestes apoios uma “manifestação de confiança” e que estes “correspondem ao apelo que fiz”, adiantando saber “que outros estão em via de se tornados públicos”, referiu, em antecipação num encontro com jornalistas nas Caldas da Rainha. Voltou a colocar travão à euforia para dizer que “nada está ganho”, mesmo tendo o melhor resultado do PS em presidenciais desde 2001 e mais votos do que Mário Soares em 1986. “A minha candidatura está a fazer o seu caminho e cada vez vai somando mais apoios, uns mais à esquerda, outros mais à direita e também muitos apoios de pessoas que não se reveem nesses quadrantes políticos. São pessoas que vivem fora da política”, acrescentou.O Volt já tinha expressado o apoio a Seguro, e esta segunda-feira também o PAN reforçou o apelo devido a uma “decisão entre a defesa da democracia ou um ataque às instituições e à estabilidade democrática”, defendendo que o socialista representa “equilíbrio e compromisso com os valores democráticos.” Também os Verdes se pronunciaram favoráveis ao ex-secretário-geral do PS. Carneiro criticou a ausência de posicionamento de Montenegro, Pedro Nuno Santos, também ex-secretário-geral, diz que “Montenegro legitimou a transferência de voto da AD para o partido de André Ventura” para “cair nas boas graças do eleitorado Chega”, comentando que “mais depressa se transferem eleitores da AD para o Chega do que do Chega para a AD.” Até ao fecho da edição, não existiam vultos políticos fora do Chega a expressar apoio a André Ventura na segunda volta..Poiares Maduro diz que o PSD não tem “interesse em alimentar a aspiração” de governação do Chega, logo incitando o primeiro-ministro para declarar apoio a Seguro. Leitura é partilhada por vários quadrantes. PS esperava ataque a Ventura.Poiares Maduro aconselha Montenegro.Primeiro-ministro e figuras principais avaliam se é benéfico distanciar-se de Ventura. Mariana Leitão escolherá se se afasta de Cotrim.Decisão política.Esquerda critica postura do PSD e da ILOs líderes de Bloco de Esquerda, Livre e PCP e também os candidatos por eles apoiados expressaram, logo na noite eleitoral, estarem com Seguro, prometendo a “rejeição” a Ventura. Ao DN, concordam na crítica generalizada à ausência de posicionamento de PSD e IL.“Os resultados à esquerda mostram que houve uma responsabilidade eleitoral, ao contrário da direita. PSD e IL cometem erro estratégico ao não conseguirem posicionar-se entre um democrata pró-Europa e favorável à Constituição. Antagonizaram um eleitorado que se situa no centro e centro-direita, que ficou órfão. É um eleitorado ao qual o Livre vai falar. É triste ver a direita ter esta deriva”, atira Rui Tavares, porta-voz do Livre, ao DN, considerando que “a estratégia discursiva foi a certa”, negando que haja uma tentativa para que Seguro modele as convicções. Elogiou-lhe a “disciplina”, prometendo “defender que o Livre dê apoio formal”, embora revele que “gostaria de ter mais garantias quanto à não revisão constitucional”, um tema que, vinca, “foi trazido para a agenda por Jorge Pinto.”O Bloco reuniu esta segunda-feira a Mesa Nacional, mas havia a convicção de que o apoio a Seguro era um detalhe. “Acredito que vai ser uma discussão fácil. Não é um apoio negociado, Seguro fará a campanha que quiser fazer, mas temos claro que a luta é contra a extrema-direita e não é o momento de identificar diferenças. Catarina Martins já as vincou: Seguro tem as posições que tem, mas queremos ajudar à contraposição a Ventura”, declarou José Manuel Pureza, coordenador do Bloco de Esquerda, ao DN. “Trata-se de um voto em Seguro, que é parte de um consenso neoliberal, mas que é necessário nesta fase, porque temos de expulsar a política reacionária e retrógrada que representa o Chega e André Ventura”, comenta Bernardino Soares, que explica ao DN que haverá reunião do Comité Central do PCP na terça-feira..Nas Caldas da Rainha, jogou-se mais pelo Seguro na hora de celebrar a ida à segunda volta.Mesmo sem apoio de Montenegro, Seguro promete relação institucional intacta em caso de eleição