José Sócrates na saída do Campus da Justiça, em Lisboa, após adiamento do seu julgamento, 19 de outubro de 2026.
José Sócrates na saída do Campus da Justiça, em Lisboa, após adiamento do seu julgamento, 19 de outubro de 2026.Foto: Lusa / TIAGO PETINGA

Julgamento de José Sócrates adiado. "Abriu o teatro do absurdo", diz antigo PM

Defesa do antigo primeiro-ministro questiona "duplo julgamento" pelos mesmos factos no âmbito da Operação Marquês. Ministério Público pede três dias para se pronunciar. Nova data é 30 de outubro.
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"O que é que eu posso dizer? Isto é um absurdo, abriu o teatro do absurdo". Foi assim que José Sócrates reagiu, à saída do Campus de Justiça, em Lisboa, ao adiamento da sessão em que seria julgado por branqueamento de capitais. A audiência chegou a ser iniciada, nesta segunda-feira, 19 de outubro, mas apenas para que o juiz-presidente do coletivo, Rúben Vieira, anunciasse a transferência para 30 de outubro.

"O juiz declarou a sessão aberta e depois declarou-a fechada", disse o antigo primeiro-ministro aos jornalistas. "Isto é uma violência e um arbítrio absolutamente nunca visto. Alguém falava em direitos... isto não tem a ver só com direitos, tem a ver com garantias do Estado", completou.

O motivo do adiamento é para que o tribunal possa decidir questões prévias que podem pôr em causa a realização do julgamento. A decisão foi anunciada na sequência de dois requerimentos apresentados na sexta-feira, 16 de outubro, pela defesa de José Sócrates, sobre os quais o Ministério Público pediu um prazo de três dias para se pronunciar.

"Por que foram apresentados apenas na sexta? Porque o Dr. Filipe Batista só é meu advogado a partir de terça, portanto ele só subscreveu esses requerimentos, só teve dois dias para fazer isso", explicou José Sócrates sobre a entrega dos pedidos.

O que dizem os requerimentos?

Neste processo, que resultou da decisão instrutória do processo Operação Marquês, datada de 2021, é ainda arguido o empresário Carlos Santos Silva, igualmente por branqueamento de capitais. Em causa está a alegada utilização pelos arguidos, entre 2011 e 2014, de contas bancárias de uma sociedade controlada pelo empresário Carlos Santos Silva, da mulher deste e do motorista de José Sócrates para que entrassem na esfera do antigo primeiro-ministro verbas com origem ilícita.

Segundo a acusação do Ministério Público (MP), datada de 2017, o empresário terá sido um dos testas-de-ferro a quem o chefe de Governo entre 2005 e 2011 terá recorrido para ocultar montantes com os quais terá sido corrompido para beneficiar o Grupo Lena, o Grupo Espírito Santo e o empreendimento de luxo de Vale do Lobo.

A defesa de José Sócrates alega que estes factos já estão a ser analisados no âmbito de outro julgamento. Os crimes de corrupção estão a ser julgados em Lisboa desde 03 de julho de 2025 no processo principal da Operação Marquês, que conta com 21 arguidos, incluindo José Sócrates e Carlos Santos Silva.

Os requerimentos pretendem mostrar que o julgamento que agora se inicia é "um absurdo, porque julga os mesmos factos e isso viola os direitos e as garantias que todos os cidadãos têm de não serem julgados duas vezes pelos mesmos factos. É um duplo julgamento, a isso chama-se uma dupla perseguição penal", declarou José Sócrates.

"O Dr. Pedro Delille saiu do processo e entrou Filipe Batista. Eu não posso obrigar um advogado a correr em oito horas a apresentar um requerimento", reforçou José Sócrates sobre o momento da entrega dos pedidos, destacando que não houve nenhuma novidade. "Tal como a Dra. Paula Lourenço explicou, já tinham apresentado esta questão, duplo julgamento sobre os mesmo factos, ao anterior juiz, que aliás concordou connosco, isto é um absurdo", esclareceu Sócrates.

No processo que arranca hoje, José Sócrates, de 69 anos, e Carlos Santos Silva, de 67, vão ser julgados por um coletivo de juízes composto por Rúben Vieira, Armandina Silva Lopes e Helena Leitão, que não está em exclusividade no julgamento, informou o Conselho Superior da Magistratura.

O julgamento vai decorrer no Tribunal Central Criminal de Lisboa até pelo menos abril de 2027. Os arguidos negaram a prática de qualquer crime.

Inicialmente, José Sócrates e Carlos Santos Silva respondiam também por falsificação de documento neste processo, tendo o crime prescrito entretanto.

Com Lusa

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