O PAN celebra 15 anos de existência e Inês de Sousa Real faz um balanço da atividade do partido e das causas que defende. Ao DN, nesta primeira parte de entrevista, deixa críticas acérrimas a Luís Montenegro e ao ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes. Elogia postura dialogante que tinha com António Costa.. O PAN celebra 15 anos, onde o situa nesta fase? Numa fase de afirmação ou num combate já que o clima parece não ser hoje tão destacado?Temos muitas conquistas que conseguimos alcançar ao longo dos anos como foi a questão do fim dos abates nos canis municipais e poupar mais de 200 mil vidas ou até mesmo com a licença para a reestruturação das vítimas de violência doméstica, o apoio também às pessoas com deficiência. Hoje, existem lideranças tóxicas como a de Donald Trump, que põem em causa direitos humanos que achávamos que até aqui estavam mais do que adquiridos, ou até mesmo de outros líderes, como é o caso da invasão da Rússia à Ucrânia ou até mesmo o que se está a acontecer na Palestina ou no Irão, que efetivamente acabam por ter um reflexo negativo nas políticas nacionais. Há uma grande tendência para ir atrás de uma agenda mais conservadora e que nega direitos humanos fundamentais, como é o caso do crescimento do Chega. A esfera de preocupação das pessoas já não está tanto em matérias como a questão climática, tínhamos milhares de estudantes a sair todos os dias à rua a pedir alterações na legislação para acompanhar as suas preocupações no clima. Essas preocupações não desapareceram, mas há outras dificuldades que comandam o dia a dia: a dificuldade no acesso à habitação, os problemas na Saúde. Independentemente de termos um governo de direita ou de esquerda, conseguimos ser uma das forças políticas que mais aprovações tem no Parlamento.E não vai abdicar desse centro ideológico, ou seja sem se posicionar à esquerda ou à direita? Esta semana que passou aprovámos no Parlamento, na generalidade, uma iniciativa legislativa de cidadãos que já cá tinha vindo várias vezes, que é mais do que justa, a licença parental remunerada a 100%. Do mesmo modo, as verbas para a proteção animal desde que o PAN entrou na Assembleia da República passaram de dois milhões de euros para 14. Já conseguimos inscrever no Orçamento de Estado mais de 50 milhões de euros para ajudar a causa animal e na questão ambiental também tem sido o PAN a marcar a diferença.Acha que é possível atingir a redução de 60% das emissões de carbono até 2030 sem prejudicar a economia? Claro que sim, temos de saber de facto colocar as verbas da União Europeia nas áreas fundamentais. Não podemos continuar a dar grandes borlas fiscais a quem mais polui e lucra, como é o caso das petrolíferas, porque esse dinheiro está a chegar aos grandes grupos económicos. Temos várias empresas em Portugal que se dedicam, por exemplo, à produção de leite vegetal, de leguminosas, que não têm tantos subsídios como tem a pecuária. Temos de ter hoje a agricultura de precisão. Devíamos aproveitar esta oportunidade única, deste pacote, que vai estar distribuído porque sabemos que o investimento na Defesa, para um projeto europeu de cooperação, vai canalizar outros fundos.Acha que a Europa caminhará para aí? Muito provavelmente. Não podemos estar nas mãos dos Estados Unidos, nem da China, nem da Rússia de Putin. Portanto, é inevitável que exista uma maior aposta na cooperação europeia em matéria de Defesa, mas isso tem um custo. O PAN tem defendido que cada cêntimo investido em Defesa deva ser igualmente aplicado na área social. Infelizmente em Portugal, isso ainda não tem acontecido, aliás temos visto aqui algumas prioridades deste Governo que não compreendemos muito bem.. Está preocupada com a política ambiental deste Governo?Este Governo tem ficado pela rama e tem-se deixado capturar pela agenda do Chega. Já estamos muito atrasados, quer no cumprimento da Lei de Bases do clima, quer nos compromissos internacionais para a redução das emissões de carbono. Até pelos fogos florestais anuais, faria todo o sentido estarmos a olhar neste momento para a floresta, para protegermos as populações, apostar mais na prevenção e na vigilância, nomeadamente com a proposta que o PAN tinha feito para a aquisição dos drones. Estamos a correr contra o prejuízo e isso implica a perda de vastas áreas do território florestal, com uma perda de biodiversidade irreparável, além de perdas de vida humanas. O PAN faz exatamente aquilo que fazia com um Governo socialista, somos sempre colaborativos. As pessoas não querem saber se as propostas são de esquerda ou de direita. Temos uma vasta área do território que tem estado ao abandono, com área altamente inflamável através das resinosas, seja o eucalipto, seja até mesmo o pinheiro. .Disse-me há três meses que era mais fácil negociar com António Costa do que com Luís Montenegro. Mantém essa afirmação?Timidamente, Luís Montenegro já percebeu que tem de abrir-se ao diálogo com as outras forças políticas, mas existia uma marca de governação muito mais dialogante. António Costa foi, de alguma forma, um grande professor para todos nós na política. Podemos discordar ideologicamente de muitas das coisas que fez, mas seja com a geringonça, seja através nas sucessivas crises que o país enfrentou, das soluções parlamentares ou da própria gestão da Covid-19, António Costa fez política de uma forma completamente diferente. O PAN não deita, no entanto, a toalha ao chão e temos procurado ir ao encontro desse diálogo e exigir de Luís Montenegro e dos seus governantes, precisamente, essa capacidade de perceber que existem diferentes visões de sociedade. Os portugueses continuam a querer proteção dos animais, aliás, basta ver como as pessoas se indignaram com estas recentes declarações do ministro da Agricultura, em relação ao ICNF. Estamos a falar de empresas, mais uma vez, cujo capital não é detido por pessoas do nosso país, que quer destruir o património natural.Depois de o ministro da Agricultura ter avançado que se pode mudar a lei para se fazer aprovar projetos, tem confiança política em José Manuel Fernandes ou vamos vê-la a pedir a demissão do ministro?Não tenho, de todo. Aliás, já estava a ser bastante difícil acompanhar as opções políticas de Luís Montenegro em relação ao ministério da Agricultura e em particular à Secretaria da Agricultura. Eu recordo que muito recentemente o PAN veio de facto colocar em causa a continuidade de João Moura, pelos conflitos de interesse que existem em relação àquilo que são as suas áreas, quer de negócio, quer a tutela que tem da proteção e bem-estar animal. Neste caso, o ministro da Agricultura procurou condicionar a emissão de pareceres que é dado pelo ICNF, um instituto que tem na sua responsabilidade a instalação ou destruição vasta área de sobreiros. Luís Montenegro optou por uma dupla tutela, em nosso entender mal, e acreditamos que uma boa forma que tem de sair desta situação é retirar a tutela do ministro da Agricultura para o Ambiente. Há uma tentativa de desmantelar este instituto ou de condicionar a sua atuação. Pedimos que este passasse para a tutela do Ambiente. Não pode ser o ministério da Agricultura a ditar as regras ambientais. Aliás, é o contrário, tem de ser o ambiente a ditar aquilo que é o tempo da agricultura. Um ministro tem de saber respeitar o próprio lugar que ocupa e o lugar dos outros. As pessoas têm o direito a sentir-se lesadas quando algum ministro tenta condicionar a sua atuação. Não cabe a um técnico aplicar algo fora daquilo que a lei prevê. Se o ministro não concorda, assume a responsabilidade política de querer mudar a lei e se as pessoas não concordarem que pague a fatura por ter ido contra aquilo que são os interesses das presentes gerações.."António Costa foi, de alguma forma, um grande professor para todos nós na política."Inês de Sousa Real, porta-voz do PAN."O ministro da Agricultura procurou condicionar a emissão de pareceres que é dada pelo ICNF."Inês de Sousa Real, porta-voz do PAN.Inês de Sousa Real: "A Iniciativa Liberal parece uma versão fofinha, mas ameaça direitos fundamentais".Inês de Sousa Real: "Seria ingrato deixar o partido no contexto político atual"