Seguro disse que "faltam cada vez mais as palavras do meio", por si descritas como "mais de tolerância do que de exclusão" e "mais de disponibilidade do que de afastamento".
Seguro disse que "faltam cada vez mais as palavras do meio", por si descritas como "mais de tolerância do que de exclusão" e "mais de disponibilidade do que de afastamento".Foto: Ana Rocha Nene/Presidência da República

Dia de Portugal: António José Seguro contrapõe esperança à polarização e populismo do "tempo de trincheiras"

Presidente da República foi a Angra do Heroísmo fazer elogio das "palavras do meio" e do "chão comum", sem esquecer recados ao Governo. Críticas mais diretas a Trump ficaram para Miguel Monjardino.
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O Presidente da República, António José Seguro, terminou o seu discurso na cerimónia oficial do Dia de Portugal, realizado em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira (Açores), como um apelo à esperança, por si identificada como "uma das palavras do meio que combatem a polarização" entre os portugueses.

Falando em "tempos de trincheiras", marcados por "ansiedades" ligadas à economia, à geopolítica e à segurança nas cidades, que "criam o impulso de cerrar fileiras e erguer muros", Seguro disse que "faltam cada vez mais as palavras do meio", por si descritas como "mais de tolerância do que de exclusão" e "mais de disponibilidade do que de afastamento", que considerou serem "um antídoto para o vírus da polarização, que tende a substituir a argumentação, o debate e a negociação".

António José Seguro apresentou a sua eleição, numa segunda volta das eleições presidenciais disputada com o líder do Chega, André Ventura, como tendo sido marcada pelo desejo de unir os portugueses. E retomou uma expressão que lhe é muito cara, referindo-se à pátria como "um chão comum onde há lugar para todos", incluindo quem tem origens e credos distintos, para rematar que Portugal vive um tempo "que nos pede a coragem de fazer escolhas difíceis, sem ceder ao populismo".

O Presidente da República também deixou recados ao primeiro-ministro Luís Montenegro, que aplaudiu o seu discurso, lamentando que muitos jovens continuem a sair de Portugal porque "o que se ganhou em qualificação não tem sido acompanhado na remuneração" e a habitação "é praticamente inacessível" para os orçamentos familiares.

Nesse sentido, Seguro apelou a "políticas que fixem talento em vez de o exportar", a "salários que reflitam a produtividade e qualificação", a "habitação que permita aos jovens construírem uma vida no país onde nasceram" ou a um Estado "que simplifique em vez de complicar".

O primeiro discurso do antigo secretário-geral do PS no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas começou com uma citação do escritor açoriano Vitorino Nemésio - "Quando penso no mar, o mar regressa" -, que serviu de mote para uma reflexão sobre a forma como o Atlântico ensinou os portugueses "a olhar mais longe", com uma visão que moldou a alma coletiva, "resiliente perante as tempestades, humilde perante a imensidão e determinada perante o desconhecido".

A importância estratégica dos Açores - e em particular da ilha Terceira, onde se encontra a base das Lajes, utilizada pelos Estados Unidos - levou o Presidente da República a abordar de forma subliminar as relações de Portugal com a atual administração norte-americana, afirmando que se trata de um lugar que obriga a assumir responsabilidades e deveres, "no quadro da afirmação plena da nossa soberania, dos nossos interesses e do nosso futuro estratégico". Sublinhando que isso decorre "sempre no respeito mútuo do que está assumido, seja com um país, seja com a comunidade internacional e a Carta das Nações Unidas", algo que fez questão de identificar como uma situação que "não está dissociada das outras".

Seguro disse que "faltam cada vez mais as palavras do meio", por si descritas como "mais de tolerância do que de exclusão" e "mais de disponibilidade do que de afastamento".
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"A garantia da segurana dos países europeus só é possível em articulação com os nossos aliados, numa relação de equilíbrio e reciprocidades, de respeito pela soberania dos Estados, assente em valores que, apesar da incerteza dos tempos, não mudam: a Paz, a Liberdade, os Direitos Humanos e o Multilateralismo", disse António José Seguro.

Monjardino diz que "teremos de estar atentos aos nossos aliados e adversários"

Mais fortes e diretas foram as críticas à atual administração norte-americana ouvidas no primeiro discurso, com o professor universitário e analista de política internacional Miguel Monjardino, escolhido por António José Seguro para presidir às comemorações de 10 de Junho, a referir-se a "uma cortina de medo que tem vindo a descer sobre Portugal", o que disse ter provavelmente a ver com "a consciência de que um longo ciclo histórico iniciado em 1945, após o final da Segunda Guerra Mundial, chegou ao fim nos últimos anos".

"Um mundo multilateral e apoiado em instituições internacionais que nos foi altamente benéfico está a desaparecer e a ser substituído por um mundo mais hierárquico, complexo e fragmentado", disse Miguel Monjardino, que tem sido muito crítico da política externa de Donald Trump, mencionando no discurso o "uso descontrolado" de uma estratégia de "invocação do poder e da força para defender interesses e privilégios".

Monjardino defendeu que Portugal deverá "ter a capacidade de compreender atempadamente" como as mudanças em curso no mundo terão impacto, pois só assim o país estará "em condições de contribuir para a reinvenção da NATO e do seu pilar europeu", de "participar ativamente na União Eurpeia" e de "fortalecer e diversificar" as relações diplomáticas "pelo mundo fora".

O presidente das comemorações do Dia de Portugal, que começara o discurso com os versos "Heróis do Mar", mencionou ainda os surfistas Hugo Vau e Joana Andrade, que "mostraram a Portugal e ao mundo" que é possível enfrentar as ondas enormes da Nazaré, para dizer que até 2030 "viveremos tempos de urgência", nos quais "a desordem e a ignorância são os nossos principais inimigos". E em que, "tal como Camões e o surfistas da Nazaré", os portugueses dependerão de si mesmo. "Teremos de estar atentos aos nossos aliados e adversários. Uma nação livre não deve ter medo. Deve é estar prevenida e preparada", rematou.

Além do primeiro-ministro Luís Montenegro, do antigo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, e do presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, presentes na cerimónia estiveram também membros do Governo como Paulo Rangel (Negócios Estrangeiros), Nuno Melo (Defesa) e António Leitão Amaro (Presidência). E líderes parlamentares do partidos representados na Assembleia da República.

A cerimónia incluiu uma homenagem aos militares que morreram ao serviço de Portugal, com uma esquadrilha de quatro aviões F-16 a sobrevoar o local. Segue-se um almoço com a população, no Pavilhão Multiusos do Porto Judeu, e ao final do dia as cerimónias encerram com o arriar da bandeira no Pátio da Alfândega de Angra do Heroísmo.

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