O Presidente da República, António José Seguro, terminou o seu discurso na cerimónia oficial do Dia de Portugal, realizado em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira (Açores), como um apelo à esperança, por si identificada como "uma das palavras do meio que combatem a polarização" entre os portugueses.Falando em "tempos de trincheiras", marcados por "ansiedades" ligadas à economia, à geopolítica e à segurança nas cidades, que "criam o impulso de cerrar fileiras e erguer muros", Seguro disse que "faltam cada vez mais as palavras do meio", por si descritas como "mais de tolerância do que de exclusão" e "mais de disponibilidade do que de afastamento", que considerou serem "um antídoto para o vírus da polarização, que tende a substituir a argumentação, o debate e a negociação".António José Seguro apresentou a sua eleição, numa segunda volta das eleições presidenciais disputada com o líder do Chega, André Ventura, como tendo sido marcada pelo desejo de unir os portugueses. E retomou uma expressão que lhe é muito cara, referindo-se à pátria como "um chão comum onde há lugar para todos", incluindo quem tem origens e credos distintos, para rematar que Portugal vive um tempo "que nos pede a coragem de fazer escolhas difíceis, sem ceder ao populismo".O Presidente da República também deixou recados ao primeiro-ministro Luís Montenegro, que aplaudiu o seu discurso, lamentando que muitos jovens continuem a sair de Portugal porque "o que se ganhou em qualificação não tem sido acompanhado na remuneração" e a habitação "é praticamente inacessível" para os orçamentos familiares.Nesse sentido, Seguro apelou a "políticas que fixem talento em vez de o exportar", a "salários que reflitam a produtividade e qualificação", a "habitação que permita aos jovens construírem uma vida no país onde nasceram" ou a um Estado "que simplifique em vez de complicar".O primeiro discurso do antigo secretário-geral do PS no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas começou com uma citação do escritor açoriano Vitorino Nemésio - "Quando penso no mar, o mar regressa" -, que serviu de mote para uma reflexão sobre a forma como o Atlântico ensinou os portugueses "a olhar mais longe", com uma visão que moldou a alma coletiva, "resiliente perante as tempestades, humilde perante a imensidão e determinada perante o desconhecido".A importância estratégica dos Açores - e em particular da ilha Terceira, onde se encontra a base das Lajes, utilizada pelos Estados Unidos - levou o Presidente da República a abordar de forma subliminar as relações de Portugal com a atual administração norte-americana, afirmando que se trata de um lugar que obriga a assumir responsabilidades e deveres, "no quadro da afirmação plena da nossa soberania, dos nossos interesses e do nosso futuro estratégico". Sublinhando que isso decorre "sempre no respeito mútuo do que está assumido, seja com um país, seja com a comunidade internacional e a Carta das Nações Unidas", algo que fez questão de identificar como uma situação que "não está dissociada das outras"..Dia de Portugal: Marco Rubio destaca "amizade forte" e "parceria sólida" entre EUA e Portugal. "A garantia da segurana dos países europeus só é possível em articulação com os nossos aliados, numa relação de equilíbrio e reciprocidades, de respeito pela soberania dos Estados, assente em valores que, apesar da incerteza dos tempos, não mudam: a Paz, a Liberdade, os Direitos Humanos e o Multilateralismo", disse António José Seguro..Monjardino diz que "teremos de estar atentos aos nossos aliados e adversários". Mais fortes e diretas foram as críticas à atual administração norte-americana ouvidas no primeiro discurso, com o professor universitário e analista de política internacional Miguel Monjardino, escolhido por António José Seguro para presidir às comemorações de 10 de Junho, a referir-se a "uma cortina de medo que tem vindo a descer sobre Portugal", o que disse ter provavelmente a ver com "a consciência de que um longo ciclo histórico iniciado em 1945, após o final da Segunda Guerra Mundial, chegou ao fim nos últimos anos". "Um mundo multilateral e apoiado em instituições internacionais que nos foi altamente benéfico está a desaparecer e a ser substituído por um mundo mais hierárquico, complexo e fragmentado", disse Miguel Monjardino, que tem sido muito crítico da política externa de Donald Trump, mencionando no discurso o "uso descontrolado" de uma estratégia de "invocação do poder e da força para defender interesses e privilégios".Monjardino defendeu que Portugal deverá "ter a capacidade de compreender atempadamente" como as mudanças em curso no mundo terão impacto, pois só assim o país estará "em condições de contribuir para a reinvenção da NATO e do seu pilar europeu", de "participar ativamente na União Eurpeia" e de "fortalecer e diversificar" as relações diplomáticas "pelo mundo fora".O presidente das comemorações do Dia de Portugal, que começara o discurso com os versos "Heróis do Mar", mencionou ainda os surfistas Hugo Vau e Joana Andrade, que "mostraram a Portugal e ao mundo" que é possível enfrentar as ondas enormes da Nazaré, para dizer que até 2030 "viveremos tempos de urgência", nos quais "a desordem e a ignorância são os nossos principais inimigos". E em que, "tal como Camões e o surfistas da Nazaré", os portugueses dependerão de si mesmo. "Teremos de estar atentos aos nossos aliados e adversários. Uma nação livre não deve ter medo. Deve é estar prevenida e preparada", rematou.Além do primeiro-ministro Luís Montenegro, do antigo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, e do presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, presentes na cerimónia estiveram também membros do Governo como Paulo Rangel (Negócios Estrangeiros), Nuno Melo (Defesa) e António Leitão Amaro (Presidência). E líderes parlamentares do partidos representados na Assembleia da República.A cerimónia incluiu uma homenagem aos militares que morreram ao serviço de Portugal, com uma esquadrilha de quatro aviões F-16 a sobrevoar o local. Segue-se um almoço com a população, no Pavilhão Multiusos do Porto Judeu, e ao final do dia as cerimónias encerram com o arriar da bandeira no Pátio da Alfândega de Angra do Heroísmo..As mensagens de Seguro no Luxemburgo: diáspora, inclusão, língua portuguesa e Europa no arranque do 10 de Junho.Ilha Terceira e Luxemburgo vão receber as comemorações do Dia de Portugal .Seguro trava pressões sobre a Base das Lajes e prioriza estabilidade na visita aos Açores