A visita de António José Seguro ao Luxemburgo, que serviu de arranque às comemorações oficiais do 10 de junho - Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas - girou em torno de cinco temas principais: diáspora, integração, língua portuguesa, relação bilateral Portugal-Luxemburgo e Europa.A abrir as primeiras comemorações do 10 de Junho do seu mandato, o Presidente da República colocou a comunidade portuguesa no centro da mensagem. No almoço oficial oferecido pelos Grão-Duques do Luxemburgo, agradeceu o “caloroso acolhimento” e lembrou os “laços de amizade” entre os dois países, cujo 135.º aniversário é assinalado este ano. Seguro sublinhou que a relação bilateral assenta em “valores comuns” e numa “visão partilhada da Europa”, destacando a comunidade portuguesa como “uma verdadeira ponte” entre Portugal e Luxemburgo.A escolha do Luxemburgo foi justificada pela presença de “uma das comunidades mais importantes” da diáspora portuguesa. Na Câmara dos Deputados, Seguro elogiou o "exemplo de abertura" dado por aquele país que tem acolhido gerações de portugueses, num tempo em que “tantas fronteiras se erguem”. “É uma demonstração e um feliz exemplo de que sociedades mais fortes se constroem pela inclusão, pelo respeito mútuo e pela capacidade de acolher aqueles que desejam contribuir para o bem comum”, reforçou.Apresentou ainda a comunidade portuguesa como parte integrante da sociedade luxemburguesa: “Já não é apenas uma comunidade”, afirmou, mas “uma parte indissociável” da identidade do país. No encontro com alunos portugueses, em Sanem, retomou a ideia de forma mais direta: “Hoje, a comunidade portuguesa é uma parte da identidade do Luxemburgo.”Seguro usou a visita para afirmar que a diáspora é parte constitutiva de Portugal, que a comunidade portuguesa no Luxemburgo é exemplo de integração e que a ligação entre os dois países deve passar dos afetos para uma cooperação mais forte na economia, na língua, na Europa e na inovação.Língua, ensino e a relação com MontenegroA língua portuguesa foi também eixo central. Perante alunos, pais e professores, o Presidente considerou que crescer entre duas culturas não divide a identidade dos jovens lusodescendentes, antes a amplia. “Ter dois países não significa ter o coração dividido”, mas sim ter “um coração maior”. Pediu aos jovens que continuem a estudar e a falar português, porque “cada palavra em português que aprendem é um abraço” e a língua portuguesa “uma chave que abre portas no mundo inteiro”, agradecendo a pais e professores o esforço de manter viva essa ligação: “Estão a dar-lhes raízes.”Seguro recordou que Portugal tem no Luxemburgo 31 professores de português, do pré-escolar à universidade, para quase três mil alunos, e revelou ter pedido às autoridades luxemburguesas o alargamento do português como língua de opção no ensino secundário integrado. Num país com forte presença lusófona, disse, essa opção “não é um favor a Portugal”. Também Luís Montenegro, que se juntou este domingo, 7 de junho, ao programa oficial no Luxemburgo, centrou a intervenção na valorização da língua portuguesa. O primeiro-ministro afirmou que a língua é “um ativo económico” e prometeu que o Governo tudo fará para “garantir condições” aos que continuam a ensinar português no estrangeiro, considerando-a “o elo mais eficaz e mais vivo” de ligação às comunidades portuguesas.Numa outra cerimónia, Luís Montenegro, destacou o “potencial de desenvolvimento” de Portugal e deixou um pedido aos emigrantes e lusodescendentes presentes. “Portugal precisa de todos vós e nós contamos muito convosco para o nosso futuro. Seja esse futuro construído aqui no Luxemburgo, seja esse futuro construído no regresso que ambicionamos muitos possam ter a Portugal, seja esse futuro construído com as famílias que partilham uma presença quer em Portugal, quer no Luxemburgo”, disse o primeiro-ministro.Por seu lado, garantindo que Portugal é um país moderno “que quer de volta os seus”, Seguro lembrou que, já sendo “extraordinário para se viver”, “deve ser extraordinário para se trabalhar”, repetindo uma ideia deixada recentemente a jovens nacionais, emigrados em Espanha.Presidente e primeiro-ministro protagonizaram ainda um momento informal de sintonia institucional: Seguro disse que ambos se “completam” e Montenegro respondeu que “é assim que tem de ser”."Europa mais Europa"Em Dudelange, na apresentação do livro “Testemunhos - 60 Anos Portugueses no Luxemburgo - 30 Histórias”, Seguro centrou-se na memória da emigração portuguesa. São Gonçalves, autora e coordenadora editorial da obra, tem desenvolvido trabalho ligado à memória da imigração portuguesa no Luxemburgo e ao estudo das vivências da diáspora. Para o presidente, o livro nasce de um gesto “muito português”: “ficar à escuta”. Seguro valorizou os relatos de “superação, de partilha e de integração”, que ensinam “modos diferentes de sermos portugueses”.A dimensão europeia atravessou os discursos oficiais. Portugal e Luxemburgo partilham “valores comuns” e uma “visão partilhada da Europa”. Na Câmara dos Deputados, a diáspora foi apresentada como “elemento essencial de Portugal” e a relação bilateral como uma relação de futuro, que “não se esgota nos afetos e na demografia”. Portugal quer ser visto como “um parceiro fiável, qualificado e inovador”. No plano europeu, Seguro defendeu que é preciso “dar mais Europa à Europa” e que esta “só será verdadeiramente forte se for justa”.À margem dos discursos oficiais, questionado sobre a revisão da lei laboral e a criação da Prestação Social Única, recusou entrar no debate político, remetendo a discussão para a Assembleia da República: “Este é o tempo do Parlamento.”Segue-se a ilha TerceiraDepois do Luxemburgo, as comemorações seguem para a ilha Terceira, nos Açores. A escolha foi anunciada por Seguro para assinalar também os 50 anos da consagração constitucional das autonomias regionais e sublinhar “a importância histórica, política e cultural” das regiões autónomas num Portugal “mais coeso, plural e solidário”.As comemorações são presididas por Miguel Monjardino, designado por Seguro para liderar a comissão organizadora do 10 de Junho. Residente na Terceira, Monjardino é professor convidado de Geopolítica e Geoestratégia no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa e mestre em Segurança Internacional pela Universidade de Reading.