Francisco Sá Carneiro tornou-se esta terça-feira, 6 de janeiro, a figura central do terceiro dia da campanha para as eleições presidenciais, com os candidatos a dividirem-se entre acusações de aproveitamento político e críticas ao antigo presidente Aníbal Cavaco Silva.Num artigo de opinião publicado esta terça-feira no Observador, o antigo Presidente da República e ex-chefe de executivo Aníbal Cavaco Silva afirmou-se chocado com a forma como o nome de Sá Carneiro, que morreu em 1980, tem sido invocado por vários candidatos às eleições presidenciais como André Ventura, João Cotrim Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo..Cavaco Silva "chocado" pela "tentativa de apropriação" do nome de Sá Carneiro por candidatos presidenciais. A afirmação do social-democrata tornou-se, assim, tema central do terceiro dia oficial da campanha para as eleições de 18 de janeiro, com Luís Marques Mendes a ser o único a saudar o artigo do antigo Presidente da República.O candidato apoiado por PSD e CDS-PP começou por destacar a sua “grande admiração por Cavaco Silva”, que definiu como “talvez o melhor primeiro-ministro da democracia portuguesa”, antes de salientar que este fez uma crítica “totalmente legítima”.“Sobretudo por causa de Sá Carneiro. Porque eu acho que, neste momento, vários adversários meus falam de Sá Carneiro não por homenagem, mas por oportunismo. Oportunismo puro”, acusou durante uma ação de campanha em Torres Vedras.Embora sem nomear nenhum dos outros candidatos, Marques Mendes lembrou que o fundador do PPD-PSD não representava o radicalismo, o extremismo ou a arrogância."Acho que Sá Carneiro foi provavelmente o melhor político português das últimas décadas. E acho que, se Sá Carneiro não é de ninguém, também não é património exclusivo do PSD, nem de Cavaco Silva", afirmou André Ventura. Em declarações aos jornalistas junto à estação ferroviária de Pinhal Novo, no distrito do Setúbal, o também líder do Chega defendeu que Cavaco Silva "está errado" e disse estar convencido de que se Sá Carneiro fosse hoje vivo "sentir-se-ia muito mais próximo do Chega, dos valores do Chega, da forma de fazer política do Chega, do que do próprio PSD".Igualmente visado no artigo de Cavaco Silva, Cotrim Figueiredo (apoiado pela Iniciativa Liberal) desvalorizou as críticas do antigo chefe de Estado, dizendo rever-se na “maneira de estar na política, na verticalidade, na frontalidade, na forma arrojada e na falta de medo que Sá Carneiro tinha".Depois de invocar Sá Carneiro na véspera, em Viseu, Gouveia e Melo criticou esta terça-feira quem tenta apropriar-se do legado do antigo primeiro-ministro.“Agora, não quero falar do passado. Quero falar do presente e do futuro. O mundo já não é o mundo de há 20 anos e eu não concorro contra o senhor ex-Presidente Cavaco Silva”, declarou numa ação de campanha em Alijó, no distrito de Vila Real..O dia dos candidatos. Ventura e Gouveia e Melo respondem a Cavaco sobre Sá Carneiro e atacam Marques Mendes. Mais veemente nas críticas foi António Filipe, com o candidato apoiado pelo PCP a afirmar que se deve respeitar a memória das pessoas falecidas.“Eu acho que devemos respeitar a memória das pessoas falecidas e não lhes atribuir opiniões porque elas não estão cá para confirmar nem para desmentir”, reforçou.Num dia em que foi particularmente atacado pelos seus adversários, após na segunda-feira ter surgido em primeiro lugar numa sondagem feita pela Pitagórica para a CNN Portugal, TVI, JN e TSF, António José Seguro escusou-se a comentar o artigo escrito por Cavaco Silva.“O meu diálogo é com os portugueses. Os portugueses precisam de um Presidente próximo, que os escute, que dê voz a quem não tem voz e que exija à política aquilo que ela deve fazer, que é encontrar soluções para resolver os problemas dos portugueses”, respondeu o candidato apoiado pelo PS, em Grândola.Gouveia e Melo fala em candidato assustadoPor sua vez, Gouveia e Melo disse que “não concorre” com Cavaco Silva, lembrando o que disse em Viseu, junto à estátua de Sá Carneiro: "Ninguém se pode apropriar de nenhum símbolo. Foi exatamente isso que eu disse.”Neste contexto, recusou falar de Cavaco Silva e do passado: "Quero falar do presente e do futuro. Pensar nas soluções do mundo que era há 20 anos não faz sentido. Eu não concorro contra o senhor ex-Presidente Cavaco Silva, concorro por um futuro.”Ainda assim, o almirante lembrou que “o lugar da presidência não é um lugar partidário" e que se for eleito não irá fazer trabalho partidário . A propósito disso mesmo atira-se a Marques Mendes, candidato apoiado por Cavaco: "Se anda um candidato assustado, a trazer tudo e mais alguma coisa para cima da mesa, não sou eu de certeza.”Uma reação mais calma esteve João Cotrim de Figueiredo que disse não querer do que é tolerável para Cavaco Silva, preferindo lembrar "a forte carga reformista que tiveram os seus consulados, sobretudo como primeiro-ministro, e a forma como Portugal se desenvolveu nessa altura"."Prefiro guardar a memória desse tempo, que está mais na minha candidatura do que noutras", frisou, garantindo que as pessoas que estiveram na política com Sá Carneiro "discordam" da frase de Cavaco Silva, segundo a qual Cotrim está nos antípodas das ideias do fundador do PSD.Gouveia e Melo ao ataque a SeguroO almirante, que tenta disputar eleitorado de Marques Mendes e Seguro fez, em Alijó, uma crítica ao socialista. “No passado, não defendeu a própria área, os interesses das pessoas que votaram nele. Foi para além da troika e não tinha necessidade disso”, considerou, concordando com um argumento que Catarina Martins tem usado com recorrência. A bloquista, que tal como o DN noticiou, não vai renunciar até 18 de janeiro, tal como a restante esquerda, insurgiu-se com a aposta de Seguro no voto útil. “A primeira volta é de convicção, em que se dá força ao projeto em que se acredita. As sondagens não são votos, não há ninguém que tenha votos ainda. Pede o voto para quê? Para poder, no dia seguinte, voltar a orgulhar-se de apoiar ou viabilizar cortes?”, atacou. Seguro vê nas farpas da ex-coordenadora do Bloco e de Gouveia e Melo um reflexo de que “há uma tendência favorável” e que sente “o movimento crescente nas ruas.”Catarina Martins aponta a Jorge Pinto tambémCatarina Martins, em Torres Novas, respondeu ao primeiro ataque direto de Jorge Pinto, que na segunda-feira tinha criticado falta de prontidão da geringonça de esquerda no Parlamento para avançar com a regionalização. “Só pode avançar com um referendo e o atual presidente [Marcelo Rebelo de Sousa] deixou claro no início do seu mandato que não considerava existir condições para que ele acontecesse”, respondeu, negando a possibilidade que Jorge Pinto levantara de poder ser aprovado via parlamento, na altura quando a esquerda tinha maioria. A Venezuela e a intervenção militar dos EUA ficou para segundo plano ontem. Só André Pestana colou Ventura a Trump. “Está todo assanhado”, apontou.