Tancos. Ex-diretor nacional da PJ: "investiguei roubos melhor planeados"

Almeida Rodrigues, ex-diretor nacional da PJ, defende que esta polícia passe a investigar todos os furtos de armas em quartéis e instalações policiais. Sobre Tancos, entende que "não terá havido um planeamento muito eficaz".

Um furto com "planeamento pouco eficaz" - é a avaliação do ex-diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ) em relação ao assalto a Tancos. Almeida Rodrigues não teve muito para dizer à Comissão Parlamentar de Inquérito, escudando-se na delegação de competências nesta matéria, ao, na altura do furto, diretor da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT), Luís Neves, seu sucessor no cargo, que vai ser ouvido na próxima semana.

Questionado pela deputada do PSD, Berta Cabral, se concordava com a análise que tinha sido feita por outros dirigentes, em audições anteriores, segundo a qual este assalto tinha sido "obra de amadores", Almeida Rodrigues - que dirigiu a PJ entre 2008 e 2018 - recordou que durante o tempo que que era inspetor tinha investigado "roubos e furtos melhor planeados".

"Alguém que deixa transparecer que vai praticar um furto, ao ponto de chegar ao conhecimento das autoridades e depois a forma como o furto terá sido praticado, o local escolhido para guardar as armas, tudo isso, enfim, faz crer que não terá havido um planeamento muito eficaz", asseverou o ex-chefe máximo da polícia.

Com esta posição, Almeida Rodrigues acaba por refutar as principais linhas de investigação do Ministério Público (MP), designadamente as suspeitas de envolvimento de organizações terroristas ou de traficantes internacionais de armas.

Levantar o segredo de justiça

A questão da denúncia anónima que terá chegado à PJ - e segundo foi referido em anteriores audições, também à Polícia Judiciária Militar (PJM) - a alertar para a possibilidade de haver um furto em instalações militares, sem que as Forças Armadas ou o Sistema de Segurança Interna (SSI) tivessem sido informados, foi matéria de várias perguntas.

Ressalvando que não teve acesso ao processo, Almeida Rodrigues encontra uma "possível" explicação no facto de o inquérito aberto com base nessa denúncia anónima se encontrar em segredo de justiça, uma vez que tinham sido pedidas escutas pelo MP (indeferidas como já se sabe pelo juiz de instrução Ivo Rosa) e por isso essa informação não pode ser partilhada.

Questionado pelo deputado do PS, Ascenso Simões, sobre o que poderia ser feito para que no futuro, as entidades competentes para prevenir que se cometessem crimes como o que aconteceu em Tancos, pudessem ser avisadas, Almeida Rodrigues sugeriu que fosse alterada a legislação para que "em casos de grande gravidade em que houvesse risco para o Estado de Direito e Segurança Nacional" se pudesse levantar o segredo de justiça para que esse tipo de informação pudesse ser partilhada com o SSI e até com os ministros da Justiça e da Administração Interna.

"Não deixo a carteira no banco do carro"

O deputado do BE, João Vasconcelos, sublinhando mais uma vez a falha na partilha de informação da denúncia anónima, quis saber se "o país alguma vez esteve em risco", tendo em conta a perigosidade do material furtado e , quanto a isso, Almeida Rodrigues foi próximo do sarcástico na sua resposta: "Os factos demonstram que, neste caso, o país não esteve em risco porque o material esteve escondido. Mas o furto de armas de guerra em qualquer lugar é extremamente grave.

Felizmente nunca aconteceu na PJ, pois seria golpe profundo na credibilidade da instituição. Os furtos anteriores de armas, na Carregueira e no Alfeite, aconteceram em locais onde estão as tropas de elite. É necessário tomar sempre medidas adequadas para o evitar. Na PJ há uma caixa forte inexpugnável. Eu não deixo a minha carteira no banco do carro, pois daria oportunidade de ma roubarem. Não é preciso alertas. É preciso ter sempre muito cuidado, pois há uma grande apetência do mercado negro".

O ex-diretor da PJ entende até que, dado a possível relação entre as armas furtadas em instalações militares e policiais (recordou as pistolas furtadas na PSP) e esse mercado negro, estes furtos deveriam também ser investigados pela PJ, que já investiga o tráfico de armas. "Todos os eventos relacionados com trafico de armas e furtos, incluindo em instalações policiais e quartéis, que podem entrar no mercado negro, devem ser investigados PJ", sublinhou.

Desentendimentos entre PJ e PJM? Só soube o que vi nos jornais

Quanto a eventuais desentendimentos entre a PJ e a PJM - extensamente descritos e noticiados ao logo de todo o caso - Almeida Rodrigues garantiu aos deputados que "sempre houve um excelente relacionamento" entre ambas as polícias. "Não sei se, neste caso, não terá sido uma alteração do paradigma por parte do MP, que atribuiu a investigação à PJ, que possa ter provocado a reação da PJM", assinalou. Ainda assim, garantiu que a "única" situação que lhe foi reportada foi quando os inspetores a PJ foram barrados pela PJM à porta do quartel de Santa Margarida, para onde tinha sido levado o material "recuperado" pela Judiciária Militar.

"Se havia desentendimentos, nada me foi reportado, fui tendo conhecimento através da comunicação social. Mas competia ao MP garantir a perfeita articulação entre a PJ e a PJM", afirmou.

Confrontado com as críticas da ex-procuradora geral da República, Joana Marques Vidal, que chegou a por em causa a necessidade de existência da PJM, Almeida Rodrigues foi diplomata q.b. "Não é bom para as instituições que se abordem estas questões publicamente. Não me parece prudente. Já houve quem advogasse a extinção da PJ e eu sei o que isso criou de dificuldades na motivação das pessoas. Ministramos formação aos militares da PJM e a cooperação sempre foi franca e leal. Ainda que com algumas dificuldades, a PJM desempenha um papel importante no seio das Forças Armadas. Qualquer ideia para extinguir a PJM poderia macular o prestígio das Forças Armadas. Essa possibilidade não deve sequer ser equacionada", declarou.

Ex-diretor da PJM é "sério e dedicado"

Os deputados também quiseram que Almeida Rodrigues esclarecesse as notícias que davam conta de que teria informado o ex-diretor da PJM, coronel Luís Vieira (um dos arguidos no processo, suspeito de ter encenado a entrega das armas com suspeito do roubo) que estava a ser investigado pela PJ. O antigo chefe da Judiciária negou perentoriamente. "Estou treinado para guardar segredo", assinalou. Garantiu que não tem qualquer "relação pessoal" com Luís Vieira, de quem tem "as melhores impressões" e considera uma "pessoa séria e dedicada". Almeida Rodrigues alega que só teve "duas conversas" com aquele oficial: uma no dia do furto, quando este lhe telefonou a "pedir o apoio da PJ para difundir pelos congéneres europeus a lista do material", outra, em 12 de dezembro de 2017 (quando estava em curso já uma investigação da PJ ao reaparecimento das armas, com Luís Vieira também sob suspeita) no aniversário dos 700 anos da Marinha. "A única coisa que lhe disse neste dia foi que as nossas instituições tinham que cooperar. Nem sabia que da investigação", afirmou.

Almeida Rodrigues garantiu ainda aos deputados que deu "prioridade máxima" à investigação a furto, disponibilizando à UNCT "todos os meios que necessitasse. O diretor da UNCT tinha carta branca.". Mais detalhes sobre o desenvolvimento da investigação, sobre o que foi ou não partilhado, remeteu para Luís Neves, em relação a quem assegurou ter "total confiança".

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