Tancos: ex-chefe das secretas deita abaixo tese de ligações à ETA

Júlio Pereira, secretário-geral do Sistema de Informações até novembro de 2017, diz que os ladrões de Tancos "tiveram mais olhos que barriga" e que é "descabida" a hipótese que tenham sido elementos da organização terrorista basca a encomendar o roubo aos paióis, conforme tem sustentado o Ministério Público

O ex-dirigente máximo das secretas, Júlio Pereira, considera "completamente descabida e sem sentido" que possam ter sido terroristas da ETA a encomendar o assalto a Tancos - contrariando assim a tese que tem sido usada pelo Ministério Público (MP) que manteve esta tese na sua linha de investigação. Voltou a afirmar que soube do roubo pela comunicação social, deixando críticas implícitas à descoordenação.

"A ETA nessa atura tinha o seu aparelho militar perdido, não tinha nesse momento qualquer atividade. A hipótese dessa ligação é completamente descabida e sem sentido", sublinhou Júlio Pereira na audição desta terça-feira na Comissão de Inquérito sobre as consequências e responsabilidades políticas do furto do material militar ocorrido em Tancos, respondendo a uma questão do deputado socialista Jorge Gomes.

O ex-secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) reforçou que a análise feita na altura indicava como hipótese mais provável o envolvimento de grupos de crime organizado ligados ao tráfico de armas, designadamente aqueles com ligações a África.

Segundo Júlio Pereira, as secretas fizeram "vários relatórios" de acompanhamento do tráfico de armas no nosso país, classificando esta criminalidade em Portugal como de "oportunidade". "Se fosse muito organizado o material tinha saído de um lado e entrado logo noutro".

O magistrado que é atualmente juiz-conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, assinalou, aliás, que no seu entender, o grupo que assaltou Tancos estava longe e ser profissional. Respondendo a uma pergunta sobre como explicava que o material tenha ficado em Portugal e depois devolvido, Júlio Pereira foi perentório: "Falta planeamento e de preparação, amadorismo, terem mais olhos que barriga. O que vai ao encontro com a tese dos serviços, segundo a qual o tráfico de armas em Portugal é um negócio de oportunidade".

Os deputados insistiram bastante para que o ex-chefe do SIRP explicasse como, perante um roubo daquela dimensão, o grau de ameaça (cuja avaliação é da responsabilidade das secretas) não tenha sido alterado, mantendo-se, como atualmente, no nível moderado (nível 3 em 5). Foi referida a reunião da Unidade de Coordenação Antiterrorista, dois dias depois do furto, na qual participaram as chefias das polícias, secretas e militares, na qual foi o próprio Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas (na altura Pina Monteiro) a alertar para o risco do material roubado poder ser utilizado em atentados terroristas.

"Não se podem alterar graus de ameaça sem mais nem menos, tem que ser levado muito a sério", justificou Júlio Pereira, garantindo que "os serviços de informações é que têm condições para fazer essa avaliação, independentemente de opiniões que outras entidades possam ter". De acordo com o magistrado, esta avaliação foi feita num "contexto de probabilidades" e por isso foi entendido "não alterar o grau de ameaça. Apenas em relação à criminalidade organizada e ao tráfico de armas o risco passou de "moderado" para "significativo", precisou.

Sobre a alegada demora na chegada da informação sobre o assalto às secretas e às polícias deixou críticas implícitas aos militares. "Posso dizer o que eu teria feito: teria de imediato alertado os serviços e informações e as forças e serviços de segurança. Deviam ter alertado em vez de inventariar. Podia ainda ter sido possível detetar a movimentação das armas", afiançou.

Júlio Pereira não conseguiu, no entanto explicar, como não tinha tido conhecimento de algumas informações que estavam na posse dos próprios serviços. Uma delas é uma reunião, logo no dia a seguir ao furto, nas secretas militares, com a presença de elementos do SIS e do SIED, onde foi dado conhecimento do material em falta. O magistrado, que insistiu ter sabido do assalto pela comunicação social, garante que nada lhe foi "reportado" desta reunião.

O mesmo desconhecimento assumiu relativamente a informações partilhadas na reunião da UCAT pelo próprio SIS, segundo as quais haveria uma "lista de compras" a circular há uns meses, nos meios criminais europeus, que incluía material muito semelhante ao que foi furtado em Tancos. Na mesma reunião, em que as secretas tinham os seus representantes, os militares informaram também que em fevereiro, quatro meses antes do assalto, tinha sido detetada na porta de armas do quartel, uma viatura com uma pessoa a tirar fotografias.

Questionado pelo CDS sobre se tinha tido conhecimento desses dados antes do roubo, Júlio Pereira foi telegráfico: "Escapou-me". O mesmo em relação à pergunta do BE sobre se sabia que, em março de 2017, a Polícia Judiciária Militar tinha recebido informação que indicava a possibilidade de haver um assalto em instalações militares: "Não sei".

A comissão parlamentar de inquérito tomou posse a 14 de novembro, com um prazo de 180 dias, prorrogável por mais 90, o que se confirmou hoje.

O caso do furto de armas em Tancos ganhou importantes desenvolvimentos em 2018, tendo sido detidos, numa operação do Ministério Público e da Polícia Judiciária, sete militares da Polícia Judiciária Militar e da GNR, suspeitos de terem forjado a recuperação do material em conivência com os presumíveis autores do crime.

Neste momento, o processo, que juntou esse inquérito ao do roubo propriamente dito, tem duas dezenas de arguidos. Os crimes indiciados são terrorismo internacional, associação criminosa, tráfico de droga, furto, detenção e tráfico de armas, tráfico de influência, e denegação de justiça e prevaricação, falsificação de documento e abuso de poder.

Entre o material furtado estavam granadas, incluindo antitanque, explosivos de plástico e uma grande quantidade de munições.

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